Quinta-feira, 27 de Outubro de 2005

Pedro Betâmio de Almeida - Homem e circunstâncias

O que leva um homem a contradizer-se a ele próprio? Que força o impele para uma confusão entre o que prometeu fazer ou não fazer, entre o que disse para si próprio e aos outros, ou até a imagem e os ideais por que lutou durante tanto tempo e a acção em sentido inverso que acaba por adoptar em determinada altura?
Era habitual dizer-se que o ser humano tem um natural sentimento de pertença de identificação a um grupo, seja ele a família e os amigos, o clube de futebol ou o partido politico, com o qual se identificaria e o qual defenderia com “unhas e dentes”. Digo era habitual, porque ultimamente se pode testemunhar uma nova conjuntura, onde os valores da constância e da coerência são sacrificados em favor de objectivos de significado, se não meramente pessoal, pelo menos de valor relativo e absolutamente circunstancial.
É assim que se pode assistir a primeiros-ministros a trocarem mandatos nacionais por outros de natureza Europeia, invocando o interesse nacional como um valor justificativo, quando, na verdade, pouco mais se pode retirar do cargo que prestigio pessoal. Ou ainda, programas eleitorais que constituiriam compromisso de honra perante o eleitorado, a serem permanentemente derrogados e ultrapassados pelas realidades da governação. Pode-se igualmente testemunhar candidatos à Presidência da Republica, que pouco tempo antes excluíam fundada e categoricamente tal hipótese. Mas o fenómeno em apreço estende-se pelo desporto, onde podemos assistir a jogadores de futebol, que, vitimas das circunstâncias, se vêm obrigados a jogar pelos clubes rivais do seu “clube do coração”, pedindo-se-lhes que honrem camisolas com as quais não têm nenhuma ligação emocional.
As perguntas sagradas são: Até que ponto as atitudes de alguém deixaram de ser norteadas por valores e por um projecto coerente e passaram a “andar a reboque” das circunstâncias? Qual é a parcela do substrato moral de que se abdicou quando se tomou uma decisão? Hoje, como ontem, é através da resposta correcta e curial a estas perguntas que podemos saber se estamos na presença de uma pessoa de confiança ou apenas de mais um “homem circunstancial”.
Pedro Betâmio de Almeida


publicado por quadratura do círculo às 19:05
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