Terça-feira, 25 de Outubro de 2005

Jorge Costa - Lapsus Linguae

Finalmente na passada 5ª feira, dia 20 de Outubro, acabou o tabu. Cavaco Silva desvendou o segredo de polichinelo, anunciou a sua candidatura à Presidência da República.
Quando há uma década, numa conversa em família, nos disse que abandonava os negócios de Estado para ser baby-sitter dos netos, fugiu ao julgamento eleitoral nas legislativas que se aproximavam.
Nessa altura, porque não fosse necessário ou o seu trabalho com as crianças não fosse suficientemente estimado pela família, após um arrastado tabu resolveu regressar à política activa com a candidatura a Presidente da República contra a de Jorge Sampaio.
O resultado é conhecido.
O eleitorado, de quem ele anteriormente fugira como o Diabo da cruz, que contrariamente ao que muitos pensam não tem memória curta, castigou-o com uma derrota clara.
A imagem que sempre tentou fazer passar e que agora reafirma é a do não político. Contraditório, se recordarmos que após a sua primeira experiência governativa com Sá Carneiro sempre esteve envolvido em conspirações contra os diversos líderes do seu partido, antes e depois dos seus 10 anos de liderança. Para um não político (?) não se saiu nada mal.
Autoritário como primeiro-ministro, sempre demonstrou um profundo desprezo pela imprensa que dizia não ler, pelos adversários a quem recusava a hipótese do contraditório e ainda pelos mecanismos democráticos de controlo.
Sustentado por maiorias absolutas, contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que se dignou descer do Olimpo e ir à Assembleia da República discutir as suas políticas, até em duas campanhas recusou os habituais debates eleitorais, com o falso argumento que serviam para escolher o candidato pela cor do fato. Mistificava as razões da vitória do célebre debate de Kennedy versus Nixon, que segundo ele teria sido o fato cinzento a vencer o preto. Reescreveu a história, pois todos os analistas da época e actuais concordam que foi a pergunta de Kennedy se algum americano compraria um carro usado aquele senhor que verdadeiramente o fez vencer o debate.
Para não recordarmos a famosa tese das chamadas forças de bloqueio.
Antes do 25 Abril como assistente universitário, contrariamente a outros pares, assistiu com irritação à contestação universitária ao regime. Como a política dos apolíticos é a política do status quo, nem que fosse por omissão era na prática apoiante do Estado Novo e da sua orgânica.
Daí, talvez com alguma nostalgia, a sua referência à Assembleia Nacional— entidade extinta há mais de 30 anos— no anúncio de candidatura.
O novo D. Sebastião da direita portuguesa apresenta um percurso completamente mistificado, como já se viu reescreve a história a seu belo prazer, a sua tão falada rodagem até à Figueira da Foz sabe-se hoje não ser mais que uma bem urdida e sucedida manobra de bastidores para o alcandorar ao poder.
Ilustra bem o aforismo popular de ser capaz de dizer que Deus não é Deus se isso lhe convier.
Teorizador do monstro do défice sabe bem do que fala pois foi o seu criador, Miguel Cadilhe dixit. Os agora tão falados e contestados privilégios dos funcionários públicos foi ele que os concedeu, quando deixou S. Bento o défice era de 9 por cento. Quando entrou estávamos na cauda da Europa e nela ficamos na sua saída, apesar do tão propagandeado desejo de nos colocar no pelotão da frente.
Uma análise profunda da sua acção leva-nos à conclusão que não passa de um hábil gestor de silêncios, interrompidos de quando em vez com uns bitaites para não cair no esquecimento público. O sebastianismo português faz o resto.
O seu convencimento messiânico é tanto que na mesma declaração utilizou o eu majestático, para a propósito do referendo sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez, se assumir antecipadamente como Presidente.
Apesar dos 10 anos que leva de reciclagem na tentativa de criar uma imagem mais humanizada, a verdade é como o azeite vem sempre ao de cima, e quando se distrai ou entusiasma a sua verdadeira essência fica a descoberta ou como popularmente se diria foge-lhe a boca para a verdade. Os dois lapsus linguae referidos, o da Assembleia Nacional e o de se auto-intular Presidente, são disso bem ilustrativos.
Freud chamava-lhe actos falhados e explicava bem isso numa obra notável, a Psicopatologia do Quotidiano.
Com estas características como nos poderá merecer a confiança em Belém?
(...)
Jorge Costa

publicado por quadratura do círculo às 19:28
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