Quinta-feira, 13 de Outubro de 2005

Hilário Forja - Dor do Populismo

Para quem tem alguma lucidez de cidadania, assente num modelo de sociedade democrática moderna, é natural, que quando observa casos de manifesto populismo, sinta alguma dor na alma.
É preciso perceber, que o exercício do poder em democracia também tem "tristezas" capazes de nos fazer doer a alma, como verificamos nas últimas eleições autárquicas.
O populista apresenta geralmente uma habilidade no sentido maquiavélico em estabelecer a relação com o povo pretende mobilizar à sua volta.
Curiosamente, o populista por natureza não sabe falar com os outros, ele só sabe falar para os outros. O que ele quer; não é estar, nem compreender os outros, mas sim controlá-los para que eles o aceitem. Fora deste tipo de relacionamento o populista sente-se perdido e zangado, e por vezes vai mais longe, acusando os outros de supostas traições.
Qual a responsabilidade da Comunicação Social?
Todos verificamos que os populistas quando expostos, uma das características que apresentam é a exacerbação de comportamentos do tipo histriónico, criando uma certa teatralização e dramatização que visa chamar a atenção sobre si, "trabalhando" para o espectáculo.
Sabemos que estes, são comportamentos apetecíveis para a comunicação social. É que uma notícia não é só uma noticia, também é audiência.
É necessário perceber que grande parte o populismo existe, porque se a comunicação social não o despoleta, pelo menos o alimenta, referi-mo mais em particular à televisão, pela exploração da espectacularidade das imagens. Com isto não estou a querer responsabilizar a comunicação social pelo fenómeno, tão somente a constatar uma evidência, para reflexão.
Penso, que o populismo é uma dor, por inerência na vida de uma sociedade.
Tal como, em cada um de nós é impossível eliminar por completo as dores do nosso existir, também na vida das nossas sociedades existem dores de existência, que são impossíveis de erradicar por completo. Isto não significa, que não tenhamos uma responsabilidade em combater estes fenómenos.
Devemos estar atentos à sua dimensão, perceber se estão ser demasiado invasores, e ameaçar os valores fundamentais.
Em Portugal, não me parece, que exista ou se vislumbre algum perigo deste fenómeno para a democracia.
Acredito que no caso português, a própria sociedade, através de mecanismos de auto-regulação, assente no processo de evolução e maturação social, se encarregará de retirar expressão ao fenómeno, sem contudo o conseguir eliminar de vez.
Culturalmente somos um povo, que apresenta no inconsciente colectivo, uma imagem muito forte do arquétipo do salvador e do paterno. Não poucas vezes ouvimos dizer que este e aquele são filhos da terra. Bem onde existe a imagem de filhos, que alguns incorporam, têm que existir necessariamente uma imagem de paternidade, pronta para ser incorporada.
Esta característica parece-me favorecer fenómenos de populismo, principalmente em determinadas zonas do país, mais próximas de um caldo cultural onde o religioso apresenta alguma expressão.
Em matéria de intervenção do poder político, julgo que não será benéfico para a democracia, retirar o enquadramento legal (que pelos vistos pode passar pela necessidade de alterar a constituição), para impedir independentes de se candidatarem à presidência de câmaras. Isto seria um passo atrás, no sentido de uma sociedade mais aberta, para uma cidadania activa e que por isso mesmo, muito provavelmente iria ter um efeito contrário ao desejado.
Se houver algum controle a exercer pelo poder político, ele passará pela habilidade em criar condições para tratar a "doença", sem valorizar o sintoma.
Hilário Forja

publicado por quadratura do círculo às 18:45
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