Quarta-feira, 12 de Outubro de 2005

Luís Santiago - Portugal S.A.

No último debate televisivo da Quadratura do Círculo na SIC, na noite de 5 para 6 de Outubro, o Jornalista Carlos Andrade usou a palavra “falência”, a propósito de uma abordagem sobre as campanhas para as autárquicas. Esta expressão passou despercebida e incólume, perdendo-se na vivacidade do debate. É pena. Enquanto andamos a discutir umas coisas e com estas coisas estamos ocupados, passam-nos ao lado, em jeito de relâmpagos, assuntos bem mais merecedores de atenção e reflexão. De facto é assim. Até as conversas abriram falência. Há umas dezenas de anos, corria nos meios estudantis uma história sobre um exame oral de filosofia, e que se terá passado entre um professor a atingir a idade de reforma e uma aluna examinanda, que me ficou na memória e que não resisto a recordar. Dizia, a dada altura do exame, o professor, já com alguns quilómetros apreciáveis de orais: “Pois, as conversas são como as cerejas que vêm umas agarradas às outras pelo pedúnculo”. A aluna reflectiu um pouco, esquecendo-se de que o diabo sabe muito é por ser velho, e triunfante terá retorquido: “E se as cerejas não tiverem pedúnculo?!!!”. Do cimo da sua cátedra a Velha Raposa terá respondido: “Se não tiverem pedúnculo não deixam de ser cerejas... Saboreamo-las, na mesma, uma a uma. Quanto às conversas... Não vêm agarradas, mas vêm umas após as outras...” Na verdade, este é apenas um aspecto das várias questões com que nos debatemos. Muitas reduzem-se a conversas para passar o tempo. Já são conversas sem pé direito. Temos pouco tempo. Mas, mesmo com todas as limitações de tempo ou de espaço, o espaço ocupa tempo e o tempo ocupa espaço. Não tenho o meu tempo limitado para abordar as questões que devem ser debatidas, mas tenho de pensar que os outros podem não dispor do tempo que eu tenho; o mesmo é dizer que eu gostaria de ter o espaço que não tenho para escrever até ao infinito, pois iria ocupar o espaço que é de outros, desrespeitando uma regra basilar da vivência social de que o meu direito acaba quando começa o direito de outrem. Aí é que está, escondemo-nos, muitas vezes, atrás da eventual violação de algumas regras, quando nos convém, para ter uma desculpa cómoda e não nos preocuparmos com as fragilidades do nosso sistema político, já falido e em risco de sobrevivência. Esse risco emerge do cansaço que provoca um cada vez mais crescente desinteresse, porque estaremos decididos a viver uma vida inteira sob o paternalismo benevolente dos senhores da Democracia. Democracias há, com muito mais anos de vida do que a nossa, onde o voto é obrigatório. Eles lá sabem porquê... Tudo se aproxima perigosamente da falência moral e cívica. Senão vejamos, vereadores há que passam a vida ao lado de candidatos reincidentes e quando não são os escolhidos do momento, para nova ronda, desmascaram tudo o que sabem sobre ilegalidades e falcatruas, esquecendo-se que agiram em conluio e cumplicidade com os que praticaram os actos que denunciam. “O nosso país não gosta de trabalho. É só favores, cunhas e compadrios”, Jaime Pacheco, treinador de futebol, dixit. Penso que há necessidade urgente de alargarmos e insistirmos nos nossos critérios morais. Não podemos perder mais tempo. Sua Exa. o Presidente, já em fim de mandato, entendeu isso e resolveu dar uma ajudinha à Justiça falando da necessidade de inverter o ónus da prova. Também concordo que quem apresenta suspeitos sinais exteriores de riqueza é que tem de provar de onde lhe vem o pecúlio; matéria, aliás, já tratada no Código Civil sobre a epígrafe “Enriquecimento sem causa”. Critérios morais! Temos de insistir nisso! É essa a base para nos reerguermos das cinzas de uma democracia cinzenta. É a Moral de um Povo que espelha a sua consciência cívica. Uma Moral, (que devemos colectivamente escolher), e que deve ser a nossa Religião, nesta devendo ter lugar todos os nossos Deuses e todos os nossos Demónios. Um Povo sem Moral é um Povo desgovernado, sem defesa, à mercê de gulas secretas que emergem no seio da sua sociedade à menor oportunidade, com consequências imprevisíveis e dramáticas. A Moral é o eixo à volta do qual giram o sistema político, o sistema económico, o sistema financeiro e o sistema social. Sem este eixo de referência é a falência colectiva dos valores que demorámos tanto tempo a conseguir. Daí, que tudo deve ser debatido, tudo deve ser questionado. O drama que se desenrola nos bastidores (corredores, alas e arcadas) da nossa comédia política é, por agora, mais significativo do que o que se vive nas ruas, pois estamos todos entretidos a lutar pela nossa vidinha... Estamos mais ocupados, por enquanto, nesta vida sem sal e pimenta, com debates públicos estéreis, salvo raras e honrosas excepções, questões partidárias e particulares, acusações calculistas e estrategicamente calculadas que fazem as delícias da imprensa diária e fornecem grandes títulos, promovendo-se e permitindo-se o insulto gratuito e o linchamento político. Perdemos tempo. Um tempo precioso. Cada um de nós, humanamente, tentará arranjar maneira de se eximir das suas responsabilidades e das suas culpas. Mas, neste particular, a culpa não morrerá solteira, porque a História não deixará de nos julgar e não nos absolverá. Teremos culpa, colectiva, mas culpa. Desculpem o desabafo. Já há muita gente deprimida e irritada, a necessitar de um psiquiatra ou de um psicanalista. Acredito no futuro, mas, outros há, que já estão desiludidos. A esses digo que a esperança é a última a morrer porque a Vida não tem preço. O acreditar abriu falência: a nossa emigração aumentou. Lembro-me, logo após o 25 de Abril, no chamado período do PREC, de frases nas paredes, cuja autoria era imputada aos Anarcas (eternos românticos fatalistas) e que versava assim: “O último a sair do País apague as luzes do Aeroporto” A saúde abriu falência. A venda de medicamentos do foro psiquiátrico para o combate a depressões e estados de ansiedade parece também ter aumentado. Espero que, num futuro próximo, esta necessidade de recurso a psiquiatras e psicanalistas não venha a ser sentida por mais 10 milhões de portugueses. Para falências temos sempre um último recurso... Uma assembleia de credores benevolente!
Luís Santiago

publicado por quadratura do círculo às 19:43
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