Quinta-feira, 15 de Setembro de 2005

André Carvalho - Candidatura de Soares

É do domínio público que uma das principais características de Mário Soares
é a sua "mania das grandezas". Na apresentação da sua candidatura, Mário
Soares estava como "peixe na água". Soares sabia que mal encetasse a leitura
do seu discurso “premeditado” de oito páginas, todos os holofotes incidiriam
sobre Sua Excelência, o primeiro candidato a "Rei da República".
Cada vez que o “forçado redentor" da esquerda portuguesa tomava fôlego para
proferir mais um conjunto de baboseiras sem nexo, os seus discípulos e
vassalos ovacionavam ou gracejavam numa aparente conformidade com a oração
articulada pelo mestre da cerimónia. Soares, aqui e ali, deixava escapar
alguns sorrisos de um indisfarçável júbilo, mas logo procurava voltar ao seu
arrebique circunspecto de ocasião.
Finalizada a apresentação no "Templo", o Messias Soares dá conta a todos os
presentes da sua intenção de se retirar temporariamente numa mais que
oportuna e inteligente peregrinação.
Prontamente assiste-se à habitual corrida dos media à “apanha” das
"primeiras reacções" dos principais partidos, e dos forçosos comentadores e
analistas políticos de serviço. Em alguns canais, o debate entre
jornalistas, analistas e comentadores chega a ser anedótico, seguramente com
o intuito de não destoar em nada do "pseudo-acontecimento" alvo.
Conformemente, os primeiros posts que surgem nos blogues "mais chegados" a
Mário Soares são a prova provada que a Blogosfera é – ao contrário do que
alguns querem fazer crer – quase indubitavelmente um repositório das velhas
ideias veiculadas há muito pelos media "tradicionais".
Eu sei que não há «donos da verdade», mas o texto de oito páginas que foi de
certeza preconcebido com a total concordância de Mário Soares, e que deveria
ser um texto claro, sólido, consistente e lógico, demonstrou na prática ser
uma simples compilação de lugares comuns, de incongruências e de chalaças
burlescas – um completo deserto de ideias – que quanto a mim, não são dignas
de um Candidato à Presidência da República apoiado por um partido nacional
de referência.
Ao começar por dizer que "aceitou" candidatar-se a Belém, Soares admite
implicitamente que "alguém" o convidou, não obstante de afiançar logo de
imediato que "não se apresenta como candidato do PS, mas como um candidato
nacional apoiado pelo PS". Mais incongruente que isto é difícil de compor.
Numa demonstração de autismo politico desconcertante – e depois de andarmos
nas últimas semanas a assistir ao "folhetim Manuel Alegre" –, Soares tem a
desfaçatez de afirmar publicamente que não surgiram "políticos preparados,
com apoios sólidos, e com vontade de ousar, com êxito, protagonizar o
combate pela Presidência".
A impudência seguinte de Soares passa por uma tentativa esclerótica de
desresponsabilização do actual governo socialista pela crise que
presentemente vivemos, como se os portugueses já não soubessem que nos
últimos anos temos coabitado com uma crise mundial que nos tem afectado
particularmente, mas que também temos convivido com uma sucessão de
“trapalhadas” políticas às quais o actual Governo e Presidente da República
não são alheios.
Como não poderia deixar de ser, Soares diligenciou por relativizar as
questões económicas e financeiras – matérias que assumidamente não domina
nem nunca dominou – recorrendo para isso a uma caçoada com Jesus Cristo.
Como não sou crente não me chocam nada chalaças de cariz religioso, mas
apesar de Soares ter invocado um verso de Fernando Pessoa (para dar um toque
intelectivo à questão), considero que é no mínimo de mau grado, num país de
esmagadora maioria católica/cristã, que um Candidato e Ex-Presidente da
República fira susceptibilidades sem qualquer necessidade. Mas o mais
caricato desta situação foi o paralelismo completamente descabido que Soares
aspirou fazer com o Messias. Segundo reza a gesta, Cristo – em completa
negação da vulgar prática Soarista -, exerceu o seu "ministério" por pouco
tempo e "renasceu" para dar lugar aos "Homens", sem nunca ter demonstrado
qualquer afinco pelo Poder. Com este seu mais que evidente gracejo de mau
gosto, Soares procurou evitar ter de explicar aos portugueses, como é que
cogita exercer as suas funções de árbitro e moderador eficazmente, tendo em
conta que os principais problemas que depredam o nosso país nos dias de hoje
serem em grande dimensão, de vertente económica e financeira.
Com o intento de afectar a candidatura de Cavaco Silva – segundo a maioria
dos jornalistas e comentadores/analistas –, no seu discurso Soares
insurge-se contra as umas ditas "tentações presidencialistas", e defende que
"o Presidente não pode – nem deve – substituir-se ao Governo no exercício
das [suas] funções [e que] tem o dever de respeitar a separação dos poderes,
exercendo, com isenção, as funções de árbitro e moderador". Pactuo com
Soares nestes pontos, só não me parece nada claro que o alvo desta sua
"ofensiva" tenha sido Cavaco (pois nunca foi Presidente da República).
Pareceu-me mais um apontamento tácito dirigido à magistratura (e não só) de
Jorge Sampaio e porventura um sub-reptício “piscar de olho” ao eleitorado
mais esclarecido.
Segue-se uma imaginária e sempre oportuna defesa contra aqueles (pessoas
incógnitas) que mesquinhamente criticam a sua candidatura só por causa da
sua idade. Quanto a esta questão, Soares revelou aparentemente com uma pua
de ironia, encarar a sua candidatura como "um estímulo para todos os idosos
que se recusam morrer antes de chegar a sua hora". Só faltou saber, no meio
de tanta "ironia", qual é o estímulo que pretende passar a todos os "menos
jovens" que continuam a ver ocupados os principais lugares do Poder do
Estado - supostamente Republicano - pelos «suspeitos do costume»
representados em toda a sua magnitude pelo exemplo corpóreo do próprio Mário
Soares.
Para terminar o seu palestrear já comum, Soares não quis abandonar o seu
albergue corrente nestas andanças sem antes regalar todos os presentes com
uma sinopse dos seus "feitos" mais recentes – após ter abandonado a
presidência da república – ambicionando, com inteira justiça, evidenciar a
sua formidável forma físico-intelectual (tendo em conta a sua idade) e o
conhecimento relevante que possui de muitos dos actuais problemas da
Humanidade.
Em resultado destas suas últimas experiências politico-profissionais, Soares
revelou para quem o queria ouvi, que "mudou muito nos últimos anos". No que
concerne a esta “muda”, há pelo menos duas questões que conviria que Mário
Soares e os seus apoiantes tomassem nota: 1) Mudar muito não significa em
todas as situações mudar para melhor; 2) Quando Soares diz que mudou muito
também podemos licitamente subentender que já o fez vezes de mais.
Apesar deste evidente arengo Soarista farto em desconformidades, continuamos
a assistir diariamente nos nossos media à exortação brulesca e a um
deslindamento de uma suposta magnificência nesta prédica completamente
inócua.
André Carvalho
publicado por quadratura do círculo às 16:46
link do post | comentar | favorito
|

.pesquisar

 

.Fevereiro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28


.posts recentes

. Carlos Andrade - Suspensã...

. Carlos Andrade - Suspensã...

. Teste

. João Brito Sousa - Futecr...

. Fernanda Valente - Mensag...

. António Carvalho - Mensag...

. João G. Gonçalves - Futec...

. J. Leite de Sá - Integraç...

. J. L. Viana da Silva - De...

. António Carvalho - Camara...

.arquivos

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds