Quinta-feira, 15 de Setembro de 2005

Luís Santiago - Economia implosiva

A população consumidora sabe que a economia tem ciclos. Sofre as consequências destes ciclos na carteira e, consequentemente, no nível de vida que, inevitavelmente, se vai degradando. Mesmo os mais abastados reduzem a sua prodigalidade e acautelam o futuro... gastando menos. Não vou perder-me entre conceitos de pobreza e riqueza e fazer afirmações para plateia de admiradores nervosos ou correligionários militantes a fim de recolher umas palmas entusiásticas. Não vou perder tempo com filosofias dispensáveis, maçadoras e já fora de moda. Pretendo, se conseguir!!... Agarrar o touro pelos cornos e deixar aqui uns desabafos sobre coisas que me estão atravessadas no gasganete. Toynbee, historiador, dizia que as civilizações nascem, vivem e morrem. Algumas civilizações desapareceram da face da terra por cataclismos naturais. A Mãe Natureza é por vezes impiedosa e vinga-se... As economias também morrem. Mas, quando morrem, não é por catástrofes impostas pela natureza, é de morte que podia ser evitada. E as economias são mortas pelas mãos da incompetência, do laxismo, do comodismo, do desinteresse, do conformismo, do carneirismo, do carreirismo, do oportunismo político, da irresponsabilidade criminosa. Ao longo das (...) décadas em que os militares nos ofereceram a liberdade o que é que fizemos de nós mesmos. Deixámos que a democracia justificasse tudo. Lembro-me dos saneamentos políticos e do varrer para baixo da mesa os erros da nossa história. Não aprendemos coisa alguma. Surgiu, então, uma nova plêiade, a dos políticos: os profissionais e os amadores. O Professor Oliveira Salazar esteve no poder quarenta anos e oprimiu o País. Morreu de morte macaca. Foi substituído pela primavera marcelista que de primavera só teve a esperança e durou pouco. A Nova Ordem que de nova tinha nada foi destituída por falta de visão política. Depois, ofereceram-nos uma nova vida e que sobre esta poderíamos decidir e escolher o nosso futuro. Os novos detentores do poder não fazem o mesmo? Cometemos o mesmo erro. Não temos capacidade de sair do tacho, primeiro porque é bom, dá estatuto e sabe bem: segundo, porque somos os eternos imprescindíveis. Os cemitérios estão cheios de imprescindíveis que têm cavado a sepultura da economia. “Aprés moi, le diluve”. Alguns estão tão agarrados com cola-voto que dificilmente se irão embora da livre vontade. Seria necessário criar normas que incentivassem a sua saída e nos protegessem destas lapas. Porém, devido à cola-voto, estão justificados pelo poder soberano do Povo, chamado de democracia. O Povo torna-se, assim, ditador de si mesmo e tem, por seu critério próprio, os governantes que escolhe e merece. O Povo, em seu alto critério, escolhe o seu futuro. Nada a fazer. Desígnios de uma cultura milenar enraizada num Povo que foge das chatices como o diabo da cruz. Não me excluo de ser deste Povo e de ser Português. Assumo a minha parte de culpa e não digo que a culpa é dos meus Pais ou dos meus Avós, que infelizmente, já cumpriram o ciclo da Vida. Não digo que a culpa não é minha, que é sempre dos outros... A questão básica e de raiz é a economia e o que ela representa. Uma boa situação económica é o resultado de uma boa gestão. Elementar, meu caro Watson Lapalisse não diria melhor. E os bons gestores onde é que estão. Por aí, aos montes!!! Mas não no Estado nem nas empresas públicas? Mas não há bons gestores no Estado? Há, mas para sobreviver submetem-se à mediocridade e não fazem ondas, fazem nada. É que também têm família... A omnipresença do Estado implode a economia. É um dos factores principais duma conta onde a ordem dos factores não é arbitrária. Entendeu-se e incutiu-se, por exemplo, desde há trinta anos, na nova cultura democrática, que o Estado era o nosso Pai providencial que tinha sempre dinheirinho disponível para pagar os prejuízos de alguns, substituindo-se a uma política de seguros, obrigatória, enérgica, coerente e honesta. O Estado tornou-se no maior banco de concessão de crédito a fundo perdido. A economia foi, assim, sendo implodida. A política de subsídios do Estado é semelhante à das novas técnicas das empresas de crédito. Quer dinheiro? Não precisa de justificar, leve e pague depois em prestações suaves. Isto são apenas imagens das centenas de milhar de erros de gestão e práticas danosas na Saúde, na Segurança Social, na Educação, imagens dolorosas do que tem sido e tem de ser mudado na economia implosiva e torná-la explosiva, agressiva, desenvolvida, decidida, atrevida, jovem. Os mais velhos que se reformem e dêem lugar a uma geração jovem, que não esteja viciada pelos comportamentos erráticos do sistema, e que traga ar fresco a esta pasmaceira e déja vu, barroco, piroso e bafiento. Teríamos de começar por aqui, implodindo-nos, para dar lugar aos novos, ensinar-lhes no que errámos e ajudá-los com o nosso apoio. Seria a mais bela lição de democracia inteligente que daríamos ao mundo. Ensinar os nossos mais novos e retirarmo-nos humilde e estrategicamente reformando-nos como professores da Universidade da Vida, na Cadeira de Comportamento Político. Afinal ainda temos os votos vigilantes e activos, desde que tivéssemos o inteligente cuidado de lhes tirar a cola. É que votos não são autocolantes que se colem no peito de qualquer um!!!
Luís Santiago



publicado por quadratura do círculo às 16:31
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