Quinta-feira, 15 de Setembro de 2005

Luis Dias - Comentando Pacheco Pereira

Achei bastante interessante o artigo do Público no dia oito de setembro da parte do senhor José Pacheco Pereira, sobretudo porque ao longo de todo o texto atravessa uma sensação estranha e alienígena, que após a ter compreendido decidi confrontar-vos com ela.
O senhor José Pacheco Pereira denuncia mais uma vez, e bem, a "histeria" anti-americana e o "espanto" "hipócrita" que varre todos os comentários sobre o sucedido em Nova Orleães, atribuindo ao presidente as culpas da própria Natureza. Gostei particularmente da definição do histérico típico que se apercebe em metade do seu ridículo e o nega: "Podem bater com a mão no peito e dizer que não senhor, não são anti-americanos, até gostam dos EUA, da música americana, da cultura americana, das ruas de Nova Iorque, do 'espírito' americano, tudo abstraindo do país concreto que existe e não há outro." José desmarca-se da sua definição de histérico típico: "não uso a desgraça dos americanos para obter uma pequena vingança política e ganhar uma maior auto-estima feita do mal alheio".
Permitam-me a arrogância de que me invisto ao dizer que aqui se confundiu a questão. Para mim é óbvia a desgraça humanitária em Nova Orleães, é óbvio que o Homem é pequeníssimo quando a Natureza lhe é cruel, é óbvio que mesmo a maior potência mundial é-lhe frágil, é-me óbvio finalmente que ao Homem não se poderá nunca atribuir as culpas de um tornado, a não ser num futuro distante onde tal monstruosidade pudesse ser gerada científicamente. Nisto Pacheco Pereira tem toda a razão. No que me parece falhar o seu comentário é que apesar de muita histeria "a despropósito e a propósito" sobre o caso, ressalta um raciocínio bastante razoável e no qual a administração Bush, a América e a própria sociedade americana sofrem uma crítica dura. Vou tentar ser sucinto:
Um desastre é sempre uma imprevisibilidade, logo ninguém o espera, e nestas dimensões poucos são os que estão preparados. A vida é de facto sempre assim, com todos nós. No entanto, quanto mais firmes somos melhor conseguimos contorná-los, e quanto mais "telhados de vidro" coleccionarmos, pior o desastre é. E tal foi o que aconteceu, não foi só um tornado que atingiu a cidade, mas também um desvio de fundos da manutenção dos diques para a guerra do Iraque (que lhe ofereceu a inundação cheia de doenças, e aqui, desculpe senhor Pacheco Pereira, mas posso apontar Bush como um responsável pela catástrofe), um presidente que não soube evacuar aqueles que não tinham hipóteses de serem evacuados, as diferenças sociais que criaram um clima apocalíptico num momento de fragilidade, um racismo subliminar que inadvertidamente matou e vitimou sobretudo os afro-americanos quer por negligência, quer por uma injusta distribuição de meios (não se leia aqui uma histeria esquerdista, apenas uma descrição de uma fragilidade que um furacão tornou fatal).
Quem ler esta lista e for pertencente ao género humano não deve, por senso comum, pensar que isto é anormal, que as outras catástrofes não são assim, porque de facto sempre o foram. No entanto, aquilo que marca a diferença é que isto se passou no país mais orgulhoso do mundo, que mais do que incapaz de se reformar a si próprio de modo a tornar a "american way of life" algo digno de inveja, é sobretudo incapaz de auto-crítica, tolerância e respeito perante os outros povos do mundo. Neste momento, é um país demasiado crente no seu poderio e na sua autoridade inquestionável no mundo, que lê todos os comentários negativos ao seu país como sinais da sua inveja por eles, cuja história apenas relata como ferimentos Pearl Harbor e as Torres Gémeas. A Europa perdeu milhões de vidas e cidades inteiras até compreender que deve ser modesta (embora ainda lhe falte muito). A China não tem pretensões sem ser em Taiwan, respeita todos os povos e é respeitada (veja-se o pedagógico caso recente de Zimbabwe), não pretende ensinar os outros os "Direitos Humanos" nem à força nem noutro método qualquer (e vai conquistando o mundo...).
Deste modo, a grande incompetência dos falcões da Casa Branca juntou-se aos podres da América e à crueldade da Natureza e feriu-a estruturalmente (embora apenas pontualmente), sendo que o único aspecto positivo (e ligeiramente excitante) é que possa ter diminuído ligeiramente o orgulho assassino dos americanos, de modo a que pensem que são também humanos e falíveis. Possam compreender desse modo o resto do Mundo com menor vaidade! Possam aprender uma lição do sucedido e agir em conformidade, como por exemplo varrer a administração em funções! (ou algo menos radical) Neste ponto, estou interessado no que Hillary Clinton vai desencadear com a sua "investigação independente".
Luis Dias
publicado por quadratura do círculo às 16:13
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