Quinta-feira, 8 de Setembro de 2005

Margarida Santos - CARTA ABERTA AO CHEFE SUPREMO DAS FORÇAS ARMADAS

Dr. Sampaio,
Eu não uso uniforme mas faço parte das fileiras. Não estou subordinada à cadeia de Comando, mas o meu marido está, e isso eu não posso esquecer. Não disparo armas, nem participo em missões, mas a minha função é também difícil, pois sou eu quem fica para trás.
O meu marido é um patriota, bravo e orgulhoso, em casa eu vejo os sacrifícios que ele faz, mas também eu e os nossos filhos os fazemos.
Filha de militar, irmã de militar e casada com um militar, eu melhor do que ninguém conheço o valor destes homens.
Durante os primeiros quinze anos da minha vida, sempre vi o meu pai como uma figura distante, quase mítica, pois as comissões de serviço em Africa e, posteriormente as deslocações constantes no País, fizeram com que o visse muito esporadicamente e, quando regressou finalmente a casa, fê-lo como deficiente das Forças Armadas, devido a um acidente de serviço.
O meu irmão, ao serviço da Armada, parte em missões que duram meses e, excepto em raros fins de semana, o único contacto possível é por telefone.
Hoje sou eu, desejando que a minha família não sofra o “castigo” da separação imposto pela organização militar, sacrifico a minha carreira para poder acompanhar o meu marido. Em cada nova casa alugada colocamos as fotos da família nas paredes, tentando manter os laços que a distância tende a quebrar. O Sr. não pode sequer imaginar o que é ver partir o pai dos nossos filhos sem saber se haverá um regresso, ouvir o telefone tocar há noite e sentir o coração acelerar com o pânico...
Dr. Sampaio, após ter ouvido as palavras do senhor Ministro da Defesa, é com profunda revolta que venho em defesa do meu marido e de todos aqueles que, como ele, optaram pela vida castrense. Não deveria ser eu a fazê-lo, de acordo com os regulamentos militares é à hierarquia que compete a defesa dos interesses dos militares. Sendo o senhor o Chefe Supremo das FA, venho lembrar-lhe que existe uma condição militar e que, como tal, comparar os militares com os demais servidores do Estado, é inaceitável. Durante toda a sua carreira, o militar convive com risco. Seja nos treinos, na sua vida diária ou até mesmo nas ditas missões de paz, a possibilidade iminente de um dano físico ou da morte é um facto permanente de sua profissão.
Ao ingressar nas Forças Armadas, o militar tem de obedecer a severas normas disciplinares e a estritos princípios hierárquicos, que condicionam toda a sua vida pessoal e profissional. O militar não pode exercer qualquer outra actividade profissional, o que o torna dependente de seus vencimentos, historicamente reduzidos, e dificulta o seu ingresso no mercado de trabalho, quando na inactividade.
O militar mantém-se disponível para o serviço ao longo das 24 horas do dia, sem direito a reivindicar qualquer remuneração extra ou outra qualquer compensação. O militar pode ser movimentado em qualquer época do ano, para qualquer região do país.
O militar não usufrui alguns direitos sociais, de carácter universal, que são assegurados aos trabalhadores, dentre os quais incluem-se: remuneração pelo trabalho nocturno superior à do trabalho diurno; jornada de trabalho diário limitada a oito horas; obrigatoriedade de repouso semanal remunerado; e remuneração de serviço extraordinário, devido a trabalho diário superior a oito horas diárias.
Quando o senhor ministro da defesa diz que os militares também têm de fazer sacrifícios, esqueceu-se de referir os que acabei de mencionar e, esqueceu-se ainda, de mencionar que as exigências da profissão não ficam restritas à pessoa do militar, mas afectam, também, a vida familiar, no que se refere a formação do património familiar é extremamente dificultada; a educação dos filhos é prejudicada; o exercício de actividades remuneradas por cônjuge do militar fica, praticamente, impedido; o núcleo familiar, não estabelece relações duradouras e permanentes na cidade em que reside...
Esqueceu-se de referir que existem militares colocados no estrangeiro que vêem os seus vencimentos pagos em dólares, sujeitos à sorte das oscilações cambiais e cuja ultima actualização foi feita em 1991! Não referiu que os reembolsos por despesas de saúde demoram meses a ser pagas e que há militares que há 15 anos que esperam por uma promoção.
Sabe senhor Chefe Supremo das FA, ao ouvir o Ministro da Defesa ameaçar com processos disciplinares os militares que se juntaram ordeira e pacificamente, solicitando que ouvissem a sua voz, recordei-me de si. Sabe, senhor Presidente, eles só se reuniram naquele local, porque aqueles que, como o senhor, deviam garantir os seus direitos e pronunciar-se em sua defesa, se calam cobardemente. É muito fácil calar quem não tem voz! Recordei-me também de alguns dos actuais políticos que no passado, se refugiaram algures em França, Espanha e esperaram até que estes mesmos homens que hoje atacam e a quem negam direitos elementares, libertassem o País, regressando então, puderam organizar manifestações politicas, conquistar cargos bem remunerados e, agora, reprimir aqueles que lhes garantiram essas liberdades.
Foi o senhor que disse que “há vida para além do défice”, hoje, talvez comprometido com a cor politica do governo, o seu silêncio é ensurdecedor.
Como Chefe Supremo das FA é para si que estas pessoas, a quem é negado o direito à indignação, olham esperançados. É o Chefe, é aquele que os deve defender da trama politica e maldizente que os enreda e olhe Senhor Presidente, que isso que lhe pedem não é nada comparável com o que a nação que o senhor representa lhes poderá vir a pedir um dia! A única diferença é que quando necessário eles darão o seu melhor, mesmo com o sacrifício da sua vida, e o senhor? Continuará em silêncio?!
Margarida Santos



publicado por quadratura do círculo às 15:29
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