Segunda-feira, 11 de Julho de 2005

Jaime Ventura Branco - Sobre alegações de privilégios

Apesar de ser um assunto recorrente e, eventualmente, enfadonho, não posso deixar de manifestar a minha repulsa pelos comentários grosseiros, sistemáticos e, frequentemente injustos, relativamente aos funcionários públicos, criticados por todos quantos não o são, mas que, provavelmente, já tentaram entrar para a Função Pública.
Sou professor há quase 32 anos, carregando três estigmas que gente menos bem formada, infelizmente muita, rotula pessoas na minha situação: 1º - sou “retornado” de Moçambique, donde parti em Agosto de 1976; 2º- sou funcionário público ; 3º- sou professor! Um mal nunca vem só…
Aceito sem rodeios que muitos serviços públicos são péssimos; aceito que existam funcionários a mais para as necessidades do país ; aceito que se critique, com maior ou menor contundência o que está, de facto, errado; aceito que sejam dadas sugestões que contribuam para melhorar a malfadada Administração Pública ; aceito ainda que as críticas venham de pessoas com conhecimento de causa, sem que se generalize a incompetência, o laxismo, o “deixa-andar” , os privilégios e quejandos. Porque é falso!
O meu falecido pai, em Moçambique, trabalhou na “nobre” Privada e, posteriormente, passou para a Função Pública. Onde terminou os seus dias. Se fosse vivo, receberia 320 euros de Reforma. A minha mãe, como viúva, recebe 50% dessa “excelente” reforma, recebe 160 euros por mês. Paga (pago) 800 euros mensais para estar num Lar de idosos, pois, infelizmente, não a posso ter em casa, dado que me seria necessário ter uma empregada a tempo inteiro, face à doença física e à degeneração mental que a acompanha. Não pode nunca estar sozinha.
Para poder ter uma pequena formação superior (Bacharelato), tive que ser eu a pagar, na medida em que a Faculdade ficava a 1200 Kms da cidade onde vivia e os meus pais…com voz embargada, depois de eu ter dispensado dos antigos “exames de aptidão à universidade”, me terem dito, a custo…que eu saberia que não lhes era possível pagarem-me os estudos. Era verdade, eu tinha consciência do “chorudo” vencimento do meu pai, na Função Pública. A minha mãe, sempre frágil e doente, era doméstica. Mas fui. “Esgravatei”, bati a muitas portas, mas arranjei empregos e completei a formação já referida. Sim, fui aquilo a que hoje se chama “trabalhador estudante”, mas esse estatuto, na altura, não existia.
Em 10 de Setembro de 1973 comecei a trabalhar, no liceu onde estudara, e até hoje nunca larguei o ensino. Significa que , em Setembro próximo, completarei 32 anos de serviço. Ininterrupto. Sou do Quadro de uma Escola, tenho a vida estabilizada, dois filhos casados e um que transitou agora para o 12º ano. Trabalhamos ambos, eu e a minha mulher, desde o casamento, que já leva décadas: eu sou funcionário público, ela é da privada! Conheço muito bem os dois sistemas, pois na família trabalham, praticamente todos, na Privada. E não vou entrar em comparações de vencimentos, pois não me assiste o direito de divulgar o que os outros ganham, as regalias que têm, os privilégios de que usufruem, as “benesses” que recebem, etc, etc, etc. Isto para desmascarar os detractores da Função Pública, que ressumam ódio…e revelam à saciedade a sua ignorância, a ausência de sustentabilidade nas acusações balofas, um azedume injustificável pelos “párias do Estado”. Mas reflictam: quando vão a uma consulta médica privada, alguém protesta com o atraso de horas na consulta?? Quando vão a um dentista privado, quem se atreve a protestar com o mau humor do estomatologista/odontologista ou cirurgião-dentita, ou os que mais há nesta actividade ?? Quem pede contas ao canalizador sobre a não passagem de recibo…nos ditos “biscates” a que todos, ou quase, recorrem ?? Quem critica aqui o absentismo dos “pequenos patrões” que se comprometem a fazer uma obra de empreitada em 4 meses e leva doze meses a concluí-la…porque o pedreiro não apareceu, o electricista foi com o filho ao médico, o ajudante não sei de quê teve que ir às Finanças, enfim, um rol interminável de incompetências, de justificações inventadas…para conseguirem fazer várias obras ao mesmo tempo e ganhar num mês o que, honestamente, se ganha num ano?? E na maior parte dos casos… com descaradas fugas ao fisco!! Quem critica os técnicos de electrónica, das empresas privadas, que se comprometem a reparar um aparelho de um dia para o outro e, passadas duas semanas, ainda nem lhe tocaram?? Quem critica o mau humor e a frequente falta de educação de tantos e tantas empregados/recepcionistas de empresas privadas, que, por serem da Privada…não são alvos de crítica?? Onde estão os livros de Reclamações, em imensas privadas…que, quando solicitados, nos dizem: “Neste momento não é possível, acabou ontem, estamos à espera que o patrão traga outro hoje ou amanh㔅. Bom, não vou exemplificar mais, pois, em todos os sectores de actividade, há queixas, há razões substantivas para se criticar, mas….como não é Função Pública, não vale a pena!! Os “malandros”, esses sim, estão todos no “Estado”. E, na verdade, alguns estão. Mas não todos.
Produtividade: mas a Função Pública existe para dar lucro?? Os hospitais existem para dar lucro?? As escolas existem para dar lucro?? Os tribunais existem para dar lucro?? As autarquias existem para dar lucro?? As Finanças existem para dar lucro?? O Serviço Público é tendencialmente barato, existe para servir todos os cidadãos do país, e , necessariamente, não tem que dar lucro! Sim, tem e deve ser mais funcional, mais eficiente. O que é diferente.
Empresas Públicas: não é o mesmo que Função Pública, mas a generalidade dos “empregados da privada” confunde. E dou o exemplo da Caixa Geral de Depósitos: todos os bancos portugueses juntos não tinham capacidade para comprar a CGD. Funciona, dá imenso lucro ao Estado. É uma “empresa”, tem que dar lucro!! Assim como a TAP deveria dar, e outras empresas públicas também, Não são Função Pública, são “empresas”.
Peso dos Funcionários: 700 mil funcionários é muito! Aceito, mas a culpa não reside nos funcionários, reside em quem os coloca!! Todos os governos, de todas as cores políticas, são altamente responsáveis pela “obesidade” da Administração Pública. Todos. Exemplo: em anos de eleições, verifique-se o “crescendo” de funcionários nos ministérios, nos Institutos Públicos e, particularmente, nas Autarquias, onde o voto é necessário para se vencer uma Câmara!! No entanto, e se atentarmos nos outros países europeus ( e não só), onde é que se vê despedimentos em massa na Função Pública?? É privilégio dos “funcionários públicos” de Portugal?? Estão enganados…pois mesmo dentro da União Europeia há Administrações Públicas mais pesadas que a nossa!! Documentem-se, antes de criticar o nosso “volume” descomunal….e indiquem (exemplifiquem)despedimentos colectivos em Funções Públicas estrangeiras!!
Peso no Orçamento, devido aos vencimentos: pois bem, há médicos e enfermeiros a mais nos hospitais públicos?? Há professores a mais nas escolas?? Há auxiliares a mais nas escolas?? Sabem como funciona uma escola?? Sabem quantas horas está uma escola aberta e que todos os auxiliares, administrativos, etc, têm nº de horas por semana?? Como gerir todos os espaços, se toda a gente exige a Biblioteca aberta, o Bar aberto, a Portaria vigiada, o PBX sempre com gente para os telefonemas incontáveis, a Papelaria aberta, a Reprografia aberta, enfim, tantos serviços que os alunos, professores e, particularmente, os Pais, querem abertos…ao mesmo tempo que querem a vigilância apertada por causa da segurança dos filhos?? Não pedem os pais, constantemente, aulas de apoio, ateliers, clubes, ocupação de “furos” dos filhos, e muito mais, e como se podem satisfazer tantas exigências, se há funcionários a mais?? Não se dão conta da incongruência das críticas?? Porque não vão os críticos aleivosos a Clínicas Privadas?? É caro?? Porque não colocam os filhos em escolas privadas?? É caro?? Mas é bom e… até dão lucro!! Exige-se níveis de excelência, gratuitamente, e depois protesta-se??
Claro que o peso do Estado é enorme, mas quantos licenciados e bacharéis não existem no Ensino?? Quantos licenciados não existem nos hospitais (entre médicos e enfermeiros)?? Quantos licenciados não existem nos tribunais?? E com tantos funcionários com formação superior, em serviços que custam pouco ao utente, como é possível dar lucro?? Mas vou ser redundante: vão aos serviços privados: pagam caro, e, em muitos casos, são mais mal servidos que na Função Pública. “Sol na Eira e Chuva no Nabal”… expliquem-me como o conseguem!! Eu não sei!!
Privilégios: primeiro gostaria de conhecer o conceito de privilégio dos “críticos acérrimos” dos funcionários!! Terem carro da empresa, telemóvel da empresa, seguros de vida e de doença da empresa (tudo isto extensível à família) ajudas de custo incomparavelmente superiores à Função Pública quando se deslocam, comparticipação nos estudos dos filhos nos estudos até os completarem …Bom, a Privada, em inúmeros casos que eu conheço, oferece tudo isso, e… igualmente em inúmeros casos a pessoas sem formação académica que o justifique!! Mas os “privilegiados” são, agora e sempre, os “malditos funcionários”!!
Muito mais teria para dizer, mas chover no molhado…não vale a pena!!
Mais do que um artigo…é um desabafo!!
Jaime Ventura Branco










publicado por quadratura do círculo às 17:41
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1 comentário:
De Carlos a 18 de Fevereiro de 2007 às 17:52
De facto nem todos cabem no mesmo saco. Mas ainda assim, a grande diferença é que o "privado" alem de sustentar o vasto rol "publico" é mal servido , mal tratado e não tem emprego vitalicio ... !!!


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