Segunda-feira, 11 de Julho de 2005

Nuno Morais - Um dia triste

Escrevo estas linhas na 4ª feira - dia 6 de Julho - um dia depois da publicitação do "limbo" em que se encontrará o Procurado-Geral da República, e dois dias após a notícia das declarações inflamadas ... mais umas ... de Alberto João Jardim.
Naturalmente, estas últimas não podem ser branqueadas, e devem ser objecto das maiores críticas, seja do ponto de vista social ou político, ou mesmo ético. Mas arriscarme-ia a dizer que não passaram de mais um exagero do Presidente do Governo da Região Autónoma da Madeira, a que infelizmente nos vamos habituando. Mas a minha maior admiração foi pela reacção de todos quantos intervêm na nossa vida pública! Não houve quem não se pronunciasse a este respeito, sempre condenando, por vezes invocando até a prática de ilícitos criminais - como Fernando Rosas -, sempre obedecendo tais reacções a um exagero quase proporcional ao das próprias declarações originais. Creio a este propósito que o Dr. Alberto João Jardim goza com estas reacções, e são elas próprias a razão de ser da sua, cada vez mais periódica, prática.
Da mesma forma, toda a comunicação social seguiu esta onda,assumindo posições, elas próprias, condenatórias daquelas declarações, fosse por editais, colunas de opinião, ou, espante-se, pela atitude ostensivamente parcial em entrevistas a diversos intervenientes políticos. Mas ainda hoje, dois dias após, leio notícias na imprensa escrita a este respeito, continuam-se a ouvir posições, ainda há políticos a tomarem posições e a apresentarem queixas às mais diversas autoridades ... sempre com a comunicação social atrás!
Nada disto seria de espantar. Já sabemos que em Portugal nos preocupamos muito mais com o acessório do que com o essencial, e este seria eventualmente apenas mais um caso.
O que me parece grave, melhor, bastante grave, é que no dia seguinte assistimos a uma das mais inadmissíveis e escandalosas pressões sobre as instituições da República. De facto, foi criada a ideia na opinião pública de que o Governo teria intenções, desde o primeiro dia, de destituir o Procurador-Geral da República, e que apenas o não teria já feito por oposição do Senhor Presidente da República. Ora, dir-se-ia que esta seria mais uma notícia sem fundamento ... mas eis que ninguém a desmente, nem sequer sobre ela se pronuncia o Senhor Primeiro-Ministro na entrevista televisiva dada no próprio dia.
Ou seja, deixa-se no ar a ideia de destituição ... Como se deixa no ar a ideia, veiculada por alguns meios de comunicação social, de que tal destituição teria origem ainda no caso Casa Pia - a soap opera do ano - e na acusação de Paulo Pedroso. Esta ideia, deixada no ar de forma aparentemente propositada, é a negação da própria ideia de democracia, separação de poderes e de Estado-de-Direito, já para não mencionar a pressão sob que o Procurador-Geral da República ficou desde aquele momento.
Mais uma vez, nada teria isto de mais, não fosse o Procurador-Geral um dos garantes da legalidade, da democracia e do Estado-de-Direito. Mas mais estranho que isso, é que tudo foi tratado pela comunicação social como se se tratasse apenas de arrufo político,declarações de fontes exageradas ou inflamadas (à Alberto João Jardim), e hoje, no dia seguinte já nem sequer se falar sobre o assunto, como se não se tivesse passado.
E falo da comunicação social proque sobre ela recai um enorme poder de informar e decidir por muitos de nós o que releva e o que não releva.
Pois eu daqui, modesto e anónimo cidadão e jurista, apartidário e adepto dos mandatos políticos pessoais, digo, ontem foi um dos mais tristes dias da nossa democracia, e os nossos jornalistas nada fizeram ou disseram! Ontem foi um dos mais tristes dias da nossa democracia ... não só pelo que aconteceu, mas principalmente pelo que não aconteceu ... por termos finalmente tido a confirmação que apenas somos informados e esclarecidos sobre o que não interesse ... ou melhor, sobre o que interessará a alguns ... ontem foi um dos mais tristes dias da nossa democracia, por ontem termos verificado que o velho Fado, Fátima e Futebol continua, hoje, dia 06/07/2005 sob a pessoa de Alberto João Jardim, amanhã sob a capa do que não interessa no Orçamento Rectificativo e depois sob alguma asneira irrelevante que alguém disse ou fez.
E alegremente prosseguimos o nosso caminho para ruína... como dizia o outro O Rei Vai Nú!
Nuno Morais
publicado por quadratura do círculo às 17:24
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