Segunda-feira, 20 de Junho de 2005

Marco Ferreira - Sou culpado

Abro a porta, entro no átrio arrefecido pelo ar condicionado, obtendo uma sensação agradável e hedonista. Dirijo-me á pessoa da qual quero obter uma informação; no decorrer da conversa, foi perguntado: "Qual a sua profissão?". Hectacombe total! Fiquei encurralado: qualquer resposta que desse seria sujeita ao tal olhar reprovador, com um misto de inveja e desdém. Após o turbilhão rápido redemoinhante no meu cérebro, surgiu a decisão de optar pela resposta que teria o menor impacto: entre dizer "professor" (os tais dos privilégios faraónicos, com honras de primeira página no Expresso) e "funcionário público" (os tais que não trabalham e que são os tratadores do Monstro, alimentando-o fartamente), optei pelo segundo. E lá veio o olhar da praxe...
É este o ponto emocional a que chega um funcionário público (com a ênfase perjorativa da expressão): ter vergonha de o ser...
Já apontam o dedo no pátio da escola aos filhos dos funcionários públicos, como se fossem os filhos dos cobradores de impostos da Idade Mèdia; ou então, fazem bullying, vingando-se da malandrice dos pais dos mesmos...
O que é certo é que vejo expressões como esta registadas no blog: "(...) nada se anuncia para travar as despesas correntes ou para por os funcionários públicos a trabalhar. (Daniel Patmore)". Estranho...! Então quando vão ao hospital, ninguém os atende? Como obtêm os documentos necessários? Os filhos regressam das escolas porque não está lá ninguém? Não sei responder; apenas sei que é esta ideia subconsciente que está enraizada, e nem a golpe de machado se vai conseguir arrancar...
No entanto, deixo algumas reflexões talvez politicamente incorrectas:
Entrevista no Jornal de Negócios da SIC Noticias:
Medina Carreira (economista)
“Dou alguns exemplos de despesas públicas que acho descabidas:
Juros bonificados- €420 milhões
SCUT - €520 milhões
Lei programação militar- €220 milhões
Formação Profissional - €900 milhões (!) (onde estão os técnicos de que tanto se queixam os empresários?)
Euro 2004- €600 milhões (em infraestruturas que são usadas esporadicamente e neste momento 2 estádios vão ficar desertos –Aveiro e Algarve)”
Quem gerou estes (e os outros não mencionados) monstros? Os sucessivos governos desde 1974, particularmente desde a década de 90, e não vi até hoje qualquer responsabilização pessoal das pessoas que assinaram os diplomas que permitiram o nascimento das bestas. Para quando esta responsabilização pessoal? Se um governante negligentemente toma decisões castrantes para o futuro do país, a penalização politica deve ser considerada suficiente?
Quem deve ser o alvo: os funcionários públicos ou quem tomou a decisão de recrutá-los consoante as necessidades (clientelistas, politicas ou profissionais)?
Ainda não ouvi o Governo anunciar:
- que serão extintas as leis (ou estatutos) que permitem que determinados cargos públicos (CGD, Banco de Portugal, etc.) tenham direito a pensão vitalícia com poucos anos de trabalho
- as medidas para que os 60% de empresas que não pagam IRC passem a pagar
- as medidas para que os profissionais liberais e os trabalhadores por conta própria declarem os rendimentos reais
- as medidas para acabar com o "cancro" autárquico no capítulo da despesa pública (controlo de recrutamento de pessoal, obras públicas, empresas municipais)
- as medidas para que a banca e os seguros não se refugiem nos off-shore para não pagarem o que devem
- as medidas reguladoras para que as mais-valias bolsistas sejam tributadas, evitando que estas aproveitem a globalização para fazer circular os capitais, fugindo à tributação
Após 20 anos a receber dinheiro grátis, não era suposto Portugal estar ao nível de desenvolvimento económico e de qualidade de vida dos países da Europa Central e do Norte?
De acordo com as medidas anunciadas, parece que não; ao invés dos trabalhadores usufruírem do sistema mais benéfico, que neste caso, segundo o entendimento do Governo, será a Função Pública, retira-se esse sistema e nivela-se por baixo. Isto é, se a Função Pública tem melhores regalias sociais, então que todos os trabalhadores do mundo empresarial fossem nivelados para o mesmo sistema, em vez de nivelar a Função Pública pelo sistema mais desvantajoso. Num país desenvolvido seria esta a medida anunciada; com a proposta apresentada, ficou definitivamente evidenciado que nem com crédito gratuito Portugal consegue evoluir...
E do muito que havia para reflectir, é melhor ficar por aqui; para funcionário público já trabalhei (a escrever...) demais, e não estou habituado a tal, pelo que tenho de repousar.
Entretanto, vou fazer manutenção ao meu estojo de disfarces e decidir qual o que vou usar amanhã, não vá o diabo tecê-las e alguém me reconhecer na rua e começar a gritar "Agarra, que é funcionário público! Agarra, que é malandro! Agarrem o despesista!"...
Marco Ferreira
publicado por quadratura do círculo às 17:46
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