Quinta-feira, 16 de Junho de 2005

Jorge Costa - Sobre três mortes

Portugal está mais pobre!
No espaço de 72 horas, de sábado a segunda-feira, a Pátria perdeu três dos seus maiores vultos.
Álvaro Cunhal, 1913-2005.
Vasco Gonçalves, 1922-2005.
Eugénio de Andrade, 1923-2005.
Morreram três homens Probos!
Independentemente das divergências políticas que possam existir com os dois primeiros, todos lhe terão de fazer justiça e reconhecerem o seu carácter impoluto e os seus valores: probidade, verticalidade, coerência, coragem, solidariedade, determinação, espírito de sacrifício e uma inteligência superior. Foram visionários empenhados.
Qualquer deles polarizou os portugueses nos últimos trinta anos, tudo disseram de si, excepto que alguma vez tenham tirado benefícios pessoais das suas acções, que foram fruto apenas das suas convicções, são políticos de mãos limpas.
Eugénio de Andrade é um gigante da cultura portuguesa, não despertou paixões nem inimizades, quem o conhece não lhe questiona o mérito. Depois de Fernando Pessoa é o poeta português mais traduzido para deleite de várias culturas.
Prémio Pessoa 2001, fica conhecido como o Poeta do Silêncio, a sua grandeza transcende os limites deste pequeno rectângulo à beira-mar plantado. Podemos orgulhar-nos de, através dele, estarmos representados com excelência na Cultura Universal.
Vasco Gonçalves, engenheiro de formação, o único oficial superior que participou activamente no Movimento dos Capitães, foi juntamente com Melo Antunes o redactor do programa do Movimento que levou ao 25 de Abril de boa memória.
Membro da Comissão Coordenadora do MFA, foi primeiro-ministro de três governos provisórios.
Saídos do fascismo e com um conflito colonial que consumia as nossas melhores energias, muita da nossa juventude e mais de 60 por cento do Orçamento Geral do Estado, numa época em que o céu parecia ser o limite o companheiro Vasco liderou um controverso processo de transformação social.
Num país parado no tempo em que nada acontecia, inicia-se um processo com grandes convulsões sociais, ao liderá-lo Vasco Gonçalves não deixou ninguém indiferente, o que é próprio das grandes personalidades. Ainda hoje é objecto de grandes amores e ódios. Arrostando com todas as complicações e incompreensões que o seu empenhamento ocasionou, manteve as suas convicções até ao fim, num exemplo de coerência cada vez mais raro.
Álvaro Cunhal, é uma personalidade multifacetada de extrema riqueza. Político e homem de cultura, acumulou a acção política com uma profusa actividade literária e nas artes plásticas, desenho e pintura. Foi simultaneamente secretário-geral do Partido Comunista e seu ideólogo, o escritor Manuel Tiago e o pintor António Vale.
Têm fama merecida os seus desenhos na prisão e os seus romances “Até Amanhã Camaradas” e “Cinco Dias Cinco Noites”, num estilo neo-realista, transmitem as experiências da luta contra o fascismo na clandestinidade. Estas obras foram adaptadas ao cinema ou à televisão sob a sua supervisão, o que aumentou a sua notoriedade, com agrado geral.
Quem o conheceu pessoalmente testemunha o seu fácies como que talhado na pedra, de uma dureza que transmitia uma grande determinação. Ao primeiro contacto era daquelas pessoas que suscitava fascínio ou um desagrado profundo, mas não deixava ninguém indiferente.
Ascético, durante mais de 30 anos liderou um partido que teve um papel fundamental na luta antifascista e na transformação para o Portugal Democrático de hoje.
Parafraseando Churchill no fim da Batalha de Inglaterra, nunca tantos deveram tanto a tão poucos. A sua fortaleza de espírito foi fundamental para resistir a uma prisão de 11 anos no forte de Peniche, dos quais 8 em completo isolamento.
Com toda a Honra e Glória, em nenhuma altura cedeu aos interrogatórios e traiu os seus ideais ou os camaradas!
Nem uma só prisão ou êxito policial contra a luta antifascista foi conseguida com a sua colaboração, infelizmente para ele teve várias vezes oportunidade de aplicar as suas teses defendidas na obra “Se fores preso camarada!”.
Acompanhado de vários camaradas protagonizou uma espectacular fuga da prisão e foi para o exílio, de onde só regressaria em 1974.
Todo o seu percurso é brilhante, desde a sua tese de licenciatura (1940) “Aborto- Causas e Soluções” (que passado mais de 60 anos ainda mantém a actualidade) e que apreciada pelos professores catedráticos da Faculdade de Direito de Lisboa, Paulo Cunha, Cavaleiro Ferreira e Marcello Caetano— alguns deles conhecidos sustentáculos do regímen salazarista— valeu-lhe 19 valores. Os catedráticos ultra-conservadores renderam-se ao génio.
Há que salientar que a defesa da tese foi feita sob escolta policial pois estava preso pelas suas actividades políticas.
Podia ter sido tudo o que quisesse, dedicou toda a sua vida à luta política e ao bem-estar do seu povo.
Por todo este passado, uma elevada percentagem de portugueses sente-se hoje órfão!
Ditosa a Pátria que tais Filhos tem, a nossa vénia perante as suas memórias. O seu desaparecimento empobrece e entristece-nos profundamente. O melhor modo de os honrar é pela nossa acção perpetuarmos os seus valores.
Às famílias enlutadas os meus sentidos pêsames.
Jorge Costa
publicado por quadratura do círculo às 15:39
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