Quinta-feira, 16 de Junho de 2005

Abel Cunha - Os fogos de Verão

Em Portugal, os incêndios devem fazer a riqueza de muita gente. A não ser assim, não se compreende a razão de tantos, nem da crónica falta de meios para os combater. Ano após ano, assistimos à perda, em muitos casos irrecuperável, de património público e privado sem que se tomem quaisquer medidas efectivas que visem alterar a situação.
Seguramente porque tal interessa a muita gente. É mais um negócio no qual alguns poucos ganham, e muitos perdem, por vezes, o trabalho de toda uma vida.
Será que é assim tão difícil acabar com este problema? Deverá ser, pois caso contrário estaria resolvido. E porquê?
Porque os portugueses são desleixados e irresponsáveis, não limpando as suas florestas, não cuidando e protegendo o que é seu, fazendo fogueiras nas matas para assar meia dúzia de sardinhas, lançando beatas acesas através das janelas dos carros, ou simplesmente, porque se divertem a ver reduzido a cinzas o património de todos nós.
Porque há demasiados interesses e dinheiro envolvidos na compra das madeiras ardidas e no combate aos próprios incêndios.
Porque os sucessivos (des)governos não têm tido interesse, coragem ou capacidade para mudar o rumo das coisas.
Tudo isto é negócio, tudo é espectáculo. Este ano até tivemos um inconsciente ministro a inaugurar na Lousã (à falta de um qualquer fontanário) a época de incêndios dizendo para as televisões “estamos preparados”, isto num ano em que para além de nada de relevante se ter feito em termos de prevenção, vivermos uma situação de seca extrema e, parece, dispormos de menos meios aéreos, e pouca água nas albufeiras. Passadas duas ou três semanas assistimos ao espectáculo habitual do país a arder, sem meios para combater os inevitáveis incêndios. As televisões têm horas de espectáculo ao vivo e em directo a custo zero, os jornais matéria para as primeiras páginas, os madeireiros negócios a fazer, e as empresas de combate aos incêndios serviços a facturar. Destes, todos ganham!
(...)
Aqui da minha aldeia, onde a vida ainda tende a ser simples, tenho dificuldade em compreender algumas questões:
Porque não se penalizam os proprietários que abandonam as suas florestas, com coimas elevadas ou mesmo com a expropriação das propriedades abandonadas?
Porque não se agravam as penas a aplicar aos incendiários na justa medida do crime que praticam? 30 anos de prisão efectiva a trabalhar para a comunidade que prejudicou, seriam demasiado? Aliás a questão da penas em Portugal, em meu entender, terá de ser revista no curto prazo. Em muitos países civilizados, um carteirista é condenado a pena superior, por roubar uma carteira, do que um homicida em Portugal por matar um homem. Na realidade, os poucos incendiários que são presentes a tribunal, pouco tempo depois, por vezes horas, estão em liberdade para poderem voltar a incendiar as matas.
Porque não se acaba com o negócio das madeiras ardidas? Porque não se proíbe simplesmente a sua comercialização?
Porque não se acaba com o negócio do aluguer dos meios de combate aos incêndios, dotando a nossa força aérea desses meios. Sem qualquer insinuação, parece-me óbvio que empresas constituídas para o efeito, se não houver incêndios, não têm negócio.
Será simplesmente porque tudo isto é negócio, porque a desgraça vende horas de televisão e muitos jornais? Ou porque os sucessivos governos prezam o seu governo em vez de governar? Ou ainda mais simplesmente, porque reina o desleixo e a incompetência?
Abel Cunha






publicado por quadratura do círculo às 12:41
link do post | comentar | favorito
|

.pesquisar

 

.Fevereiro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28


.posts recentes

. Carlos Andrade - Suspensã...

. Carlos Andrade - Suspensã...

. Teste

. João Brito Sousa - Futecr...

. Fernanda Valente - Mensag...

. António Carvalho - Mensag...

. João G. Gonçalves - Futec...

. J. Leite de Sá - Integraç...

. J. L. Viana da Silva - De...

. António Carvalho - Camara...

.arquivos

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds