Segunda-feira, 6 de Junho de 2005

Carlos Jesus - Ilusão colectiva

Portugal conheceu nos últimos tempos verdadeiros ilusionistas capazes de proezas difíceis mesmo para o extraordinário Luís de Matos. Falo da ilusão colectiva de maior duração em que vivem a generalidade dos portugueses criada por um conjunto de promitentes magos e que dura pelo menos há 8 anos.
Felizes e contentes, os portugueses vão aceitando sem protestos o que lhes vai dito dia após dia, ainda que na maior parte das vezes seja provido de total incoerência. Memória curta, conformismo barato e falta de sentido crítico imparcial, adjectivam sem grandes dúvidas uma grande maioria dos lusos.
O seguinte exercício ajuda-nos a compreender melhor este estado hipnótico:
Sampaio ainda há uns meses atrás dizia a viva voz a todos os que exasperadamente apregoavam o défice para terem calma pois havia vida além do défice. Na última semana veio pedir aos portugueses que manifestassem sentido cívico e se mobilizassem para desagravar tão malfadado défice. Pois, é Sr. Presidente, a vida continua de facto, embora um pouco mais difícil para os eternamente contribuintes.
Já Jaime Gama falava durante a campanha eleitoral num défice previsível acima dos 6%, aliás como a maior parte dos mais conceituados economistas portugueses. Mas Sócrates sabia que o melhor era não levantar a lebre e deixá-la para o discurso da tanga depois das eleições. As eleições estavam ganhas à partida e assim mais motivos haveriam para justificar a quebra das promessas feitas na campanha e mobilizar os portugueses para ajudar o governo a resolver o problema. Além disso, traçado um cenário catastrófico qualquer outro cenário assemelha-se a uma grande conquista. Não podia ter seguido melhor estratégia.
O discurso da tanga tão criticado a Durão Barroso, foi brilhantemente repetido a semana passada, desta vez com chancela superior do Banco de Portugal e Presidência da República. Talvez tenha sido o motivo pelo qual a comunicação social, ao contrário do que fez no passado, não martirizou o jovem primeiro-ministro. Nem a corrente negativista do BE e menos radical CDU valorizaram desta vez o mesmo tipo de discurso, talvez por quererem a todo o custo assumir um papel governativo que (felizmente) não têm.Talvez...
A nossa praça jornalística, tão sapiente em contas públicas não conseguiu ainda deduzir que sem muito trabalho, uma mexida nos impostos mais rentáveis é suficiente para reduzir o défice para 6,20000%. Para o próximo ano logo se vê mas vamos entretanto cruzar os dedos e esperar que a retoma económica dê a sua ajuda. Sem muito trabalho e com uma mudança medíocre do lado da despesa o Governo de Portugal vai conseguindo dar a volta aos pontos percentuais do défice.
O passe de mágica começa com Guterres que demite-se, não por reconhecer a sua incapacidade em levar o país no bom caminho mas por ter percebido que com o início da crise (ainda no decorrer do seu mandato) iria conduzir portugal ao caos económico, mantendo as políticas por si preconizadas. Depois foi a vez do também prevenido Presidente Sampaio dar o mote à 2ª parte da ilusão: demitir o governo, aproveitando o enredo criado e uma justificação aceitável por todos. A cereja em cima do bolo veio finalmente pela mão do Sr. Governador do Banco de Portugal ao colocar o ênfase certo aquando da apresentação do défice, na responsabilização de todos os portugueses em colaborar com o governo neste desígnio nacional, fazendo mais um esforço. A bem da nação!
Não pretendo com isto julgar a incompetência do governo liderado por Santana Lopes ou Durão Barroso mas a bem da verdade cumpre lembrar, entre outras coisas, que em termos proporcionais com o crescimento do PIB, o défice cresceu desde a segunda legislatura de Cavaco Silva e só estabilizou com os governos de Durão Barroso e Pedro Santana Lopes (graças talvez aos seus ministros das finanças), ainda que tenham governado quase desde o início da crise económica mundial (que afectou também as contas de tantos outros países europeus). O diz e desdiz tão usual no governo anterior e que demonstrava total falta de coordenação passou agora a ser perfeitamente normal e aceitável.
Depois da vitória do Benfica, (...) os jogos da Selecção Nacional (...) vão dar uma preciosa ajuda no prolongamento desta ilusão.
Carlos Jesus
publicado por quadratura do círculo às 13:31
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