Segunda-feira, 6 de Junho de 2005

Pedro Moreira - O Embuste

Foi com esta palavra que José Sócrates defeniu o orçamento deixado pelo anterior governo, o que lhe permitia (a ele e a todo o séquito ) alegar surpresa e estupefação em relação ao valor do défice esperado para 2005, segundo a dita comissão Constâncio. Logo, a consequente legitimização da quebra das promessas eleitorais face a esta nova realidade e a tomada das medidas que conhecemos.
Há aqui nisto vários aspectos que merecem uma nota mas há um que se destaca claramente e infelizmente diz muito sobre o carácter da pessoa, do partido e da classe política em geral.
Vamos então por partes, guardando o crucial para o fim:
1. A Comissão Constâncio 1. Que razão terá levado o governador do Banco de Portugal a elaborar um relatório de previsão do défice para 2005 e não do défice real em 2004, como de resto foi feito quando Durão Barroso assumiu o governo? O Banco de Portugal é mais que uma qualquer empresa - por melhor e mais qualificada que seja - de auditoria, que elabora o que o cliente lhe pede (paga...). E já que o fez, não seria sério e correcto - para sí pessoalmente, para a instituição que preside, para os agentes económicos e sobretudo para os portugueses - sabermos qual era ou foi o défice previsto para 2003, com base nos mesmos critérios agora aplicados? Possivelmente descobriria-mos que afinal não andavamos assim tão longe dos 6% na altura...
2. A Comissão Constâncio 2. É curioso vêr o "entrosamento" dos protagonistas em campo. Um verdadeiro tridente atacante. Vítor Constâncio é o carregador de piano; faz o trabalho de sapa, dando consistência ao jogo. Sócrates é nitidamente o artista; define a estratégia e coordena o jogo e Sampaio é o símbolo da equipa; a referência em termos de experiência institucional. Se se compreende a posição de Sócrates - é verdadeiramente ele quem foi convocado para o jogo, já a cumplicidade de Constâncio neste espectáculo não se aceita. Não se aceita que a entidade última a quem cabe monitorizar e acompanhar a evolução das contas de portugal venha dizer, por intermédio do seu presidente, que não estava à espera. Posso daqui concluír que, se não lhe fosse encomendado este serviço, continuaria a nada saber.., De Sampaio não era de esperar outra coisa face ao passado recente (e não só).
Interrogações: Será o estado do país hoje tão diferente do que era há 1, 2 ou 3 anos atrás que só agora se justifiquem medidas extremas de combate ao défice e finanças públicas? Não seria no passado recente imperioso também apelar ao sentido de estado da oposição no apoio dessas mesmas medidas? E de sentido patriótico a patrões e sindicatos para as aceitarem?
3. O PS. Só pode ser por incompetência e desleixo que alegam o desconhecimento do estado das contas públicas, apesar do que anteriormente afirmavam (vêr Jaime Gama no parlamento). Diziam-no então ao acaso, por serem da oposição ou com argumentos válidos? Pois se não foi por incompetência e desleixo sobra a má-fé.
4. A má-fé. Precisamente. O argumento único e vital para a série de medidas que Sócrates anunciou na semana passada na assembleia da república ao país - em especial e particularmente o aumento dos impostos - foi o desconhecimento do estado das contas. Do défice, para resumir. Foi este o sustentáculo da coisa. Isto não encerra só um problema político mas também moral; de dignidade e carácter. Estava em causa a palavra e honra do primeiro-ministro e toda a sua política e crédito a ela associada.
Pois bem, foi em plena assembleia da república que se fez luz. Estranhei ser só a mim, que assistia em casa e não a ninguém lá dentro. Ou a alguém que comentasse. Ou analisasse. E o momento foi na resposta de Sócrates à intervenção de Louçâ. Sentindo alguma incomodidade face à exposição ( acutilante e certeira, faça-se justiça) de Louçâ (bem visível na expressão, no segredar nervoso com o ministro da Economia), que lhe atirou com números concretos para cima e o acusou de não poder alegar desconhecimento do défice, dizendo claramente que a medida de aumentar os impostos - em especial o IVA - seria prejudicial à economia e que tudo isto foi pensado em cima do joelho, não prevendo Sócrates as consequências de tais políticas, este respondeu. E foi nessa resposta que se me revelou (as gravações estão aí; desafio o Carlos Andrade a confirmar e questionar Jorge Coelho sobre isto mesmo) Sócrates. Ou melhor, confirmou...
Disse então ele, a dada altura, que o impacto destas medidas não foi ao acaso e estava a ser estudado e preparado hà várias semanas. As tais medidas que supostamente teriam surgido e sido pensadas apenas depois de terem ficado supostamente surpresos e estupefactos com a revelação dias antes do valor estimado do défice. E foi ele quem o disse. Está gravado.
Afinal, sr. Engenheiro, tinha razão. Isto é mesmo um embuste.
Pedro Moreira

publicado por quadratura do círculo às 13:26
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