Segunda-feira, 5 de Junho de 2006

Henrique Silva - Carreira docente

Os meus “parabéns” ao Governo, a estratégia da Ministra da Educação demonstra muita inteligência, é pena que não a coloque verdadeiramete ao serviço da educação.
Este novo estatuto já está aprovado e com grande sucesso, embora alguns
professores menos atentos, ainda não o tenham entendido, daí este meu curto comentário.
De facto, ao dividir ainda mais, esta classe docente tão dividida, a Ministra da Educação, tenta limitar, à partida, qualquer tipo de protesto organizado pelos mal vistos Professores.
Por outro lado, ao atribuir aos cerca de 2 milhões de pais e EE uma tarefa de avaliação, está a conquistar para si a opinião pública que, pouco esclarecida, como indicam todas as sondagens, continua a dar a maioria a este governo. Entre agradar a cerca de 120 mil professores ou a 2 milhões de pais o governo fez a opção correcta mas, a que preço?
Infelizmente, penso que a maioria destas alterações serão postas em prática.
As escolas são cada vez menos democráticas, cada vez mais concentracionárias e estão longe de uma verdadeira preocupação com os alunos, enquanto seres humanos portadores de diferenças dignas de nota e de desigualdades que urge combater. É verdade! Mas o Porfessores não são os responsáveis por isso...
Isto encaixa no quadro geral da situação a que o nosso regime foi conduzido. Não pelos Professores certamente.
O poder politico é autista e autoritário, arrogante e cego às exigências de pluralismo e discussão aberta, características da Democracia.
Quando havia dinheiro, não se investiu na formação, na educação, na ciência, em vez disso, fizeram-se estradas e estradas e estradas e retundas e escolas e equipamentos e pontes etc. (cimento)
Não se apostou na formação humana e técnica, o lóbi da construção cívil foi mais forte e a obra que se vê é mais “votável” e por isso melhor para os políticos.
Por muito estranho que pareça, estávamos na altura em que o Primeiro Ministro era um Professor, Cavaco Silva.
Neste momento, em Portugal, os professores são o bode expiatório perfeito: é uma classe dilacerada por desigualdades gritantes e assumidas como naturais pelos governantes e desconhecidas da maioria das pessoas.
Uns, levam para casa 450 Contos todos os meses e não têm responsabilidades na escola, têm dia livre, melhores turmas e, por vezes, são os que mais faltam. Outros trabalham como “escravos”, longe das familias, com turmas difíceis, durante a semana inteira, levam para casa pouco mais de 100 Contos por mês.
Estes dois típos de Professores, partilham as reuniões e os espaços da escola e pouco mais. Além disso, a classe docente, actualmente está muito desatenta em relação à dignidade de que intrinsecamente, se reveste sua profissão. Isso é notório no mundo dos fóruns e dos blogs por essa Internet fora...(há comentários de professores que são de arrepiar...)
A sociedade perdeu valores, tornou-se materialista e consumista, a culpa é do Professor. A vida moderna acelarou, não há tempo para a família, para os filhos e a família desmembrou-se, a culpa é do Professor. As escolas estão cheias de crianças estrangeiras cujas famílias não foram integradas e são loucamente exploradas pelos empresários deste país, a culpa é do Professor, a violência disparou nos bairros/guetos criados pelas políticas erradas dos nosso governantes e as armas são usadas nas escolas, a culpa é do Professor...
O novo ECD aumenta a carga horária, aumenta o número de anos de serviço, deixa de reconhecer o desgaste provocado pela idade... dificulta seriamente a progressão na carreira e dilui, ainda mais, a autoridade do professor na escola. Isto parece-me claro como água. O professor não tem que trabalhar mais, tem que trabalhar melhor, em melhores condições.
Se este documento for aprovado na totalidade, e penso que o será, é fruto da inércia da classe docente que lecciona nas nossas escolas. Veja-se por exemplo as aulas de substituição; só acontecem porque os professores faltam demais. Tão simples quanto isto.
As medidas apresentadas pelo Governo, têm origem na má qualidade do nosso Ensino e na má preparação de muitos professores. Não interessa agora comparar com a qualidade dos nossos politicos e governantes, isso ficará para uma fase posterior. Colegas, vamos assumir a nossa parte.
É preciso assumi-lo socialmente, na opinião pública. Explica-lo sociológicamente, pois existem explicações lógicas para isso, não é apenas preguiça dos professores, que os faz faltar ao trabalho... Depois, depois de explicadas as verdadeiras razões que estão na origem da degradação do ensino em Portugal, então podermos passar ao "ataque", explicando ás pessoas, que isso também se deve a outros factores que o Governo esconde: As nossas condições de trabalho, a falta de pessoal auxiliar nas escolas, o excesso de alunos por turma, os maus governos sucessivos na educação, as reformas adiadas e parciais etc.
É certo que, assim que o documento entrar em vigor, deixará de haver tantas
faltas ou baixas para se subir de escalão o mais depressa possível.
Tenho visto, nas escolas onde passei, muitas situações de colegas que deveriam abandonar a profissão porque simplesmente se deixaram "adormecer" numa sociedade de educação/competição cada vez mais exigente.
Claro está que, nenhum trabalhador gosta de perder regalias e isso tem vindo a acontecer com os professores à velocidade da luz. Se não concordo com o "deixa andar" que durou tantos anos, em que a avaliação do professor era feita mediante a apresentação de apenas um documento escrito pelo próprio, também não posso concordar que ela passe a ser feita pelos pais. Nem que seja parcealmente...
O ambiente social criado pelas recentes declarações da ministra parecem revelar outros objectivos a atingir...
Diz o ditado: “Somos nós que fazemos a cama onde dormimos”. Vai ser triste verificar que a partir de agora as notas dos alunos tenderão a melhorar mas não graças ao seu trabalho.
Será esta a intenção da tutela, podendo mais tarde apresentar resultados estatísticos positivos em Bruxelas? O abandono escolar antes de se combater na escola tem que ser combatido na família e isso custa dinheiro. É um problema grave que se reflete na escola mas não é lá que tem a sua origem...
Temos que construir um sistema de Educação e avaliação mais justo, em que, quer crianças/jovens quer os Professores, sejam acautelados e respeitados de igual modo, uns apenas existem para servir os outros.
As reformas fazem-se com os Professores, os pais, a tutela e a comunidade em geral, não desta forma quase “brutal”.
Mas, colegas, quem caberá na estreita porta da titularidade?
Este ECD também tem incongruências “grosseiras”. Vejamos:
Espanta-me, o facto de os professores dos 9º e 10º escalões serem equiparados a professores titulares sem prestarem qualquer tipo de prova de competência. São mais competentes que os outros? Ou mais acomodados, utilizando ainda estratégias dos anos 80? (aula expositiva durante 90 minutos)
E mais, muitos desses professores nunca tiveram prática pedagógica (aulas assistidas), no entanto, eles poderão assistir às aulas e avaliar professores de escalões mais baixos.....Não é ridículo?!
O facto de estarem posicionados no topo da carreira torna-os intocáveis? Todos nós sabemos que as escolas onde o corpo docente é mais jovem, são escolas mais dinâmicas... com uma maior participação dos alunos em actividades.
Mas ninguém no Minsitério da Educação quer ver isto? é gritante!
Se para poder exercer funções executivas na escola temos que ser professores titulares,(mais de 18 anos de serviço) então a gestão das escolas ficará em breve, “nas maos” destes colegas que, para além de a maioria não ter formação em gestão escolar, estão desmotivados para o ensino(a carreira é longa demais) e não têm qualquer interesse nesse tipo de funções de gestão.
A Srª ministra enganou-se profundamente. Não são os melhores professores que ficam com os melhores alunos. Puro engano. São os professores mais velhos que ficam com os melhores alunos e isso é uma coisa completamente diferente.
Isto apenas prova que “ela” não sabe onde estão os bons professores! Não conhece a realidade das escolas portuguesas.
A nova constituição das assembleias eleitorais dos órgãos de gestão, constituida maioritariamente por membros da comunidade educativa que não os próprios docentes, também me parece outro duro golpe aos professores. É o descrédito total.
A avaliação das Escolas Superiores de Educação e a adaptação/melhoramento dos currículos do Ensino Básico e Secundário, parecem não ser assuntos que interessem a esta ministra. Porquê ? Parece que os Professores que se formam nestas Escolas Superioes de Educação e nas Universidades, com resultados positivos, subitamente e como que por magia, ao entrarem nas escolas, esquecem as boas práticas e passam a ser Professores incompetentes. Mas que se passa? Há algo aqui que não bate certo... porquê esta súbita mudança ? Ou será que já vêm mal preparados...
Desconheço se a ministra mandou avaliar as ESES e as Universidades privadas e públicas, mas é de lá que vêm os nossos professores.
São aspectos fulcrais para compreender o que se passa no mundo do ensino em Portugal.
Mas não, o que interessa é diluir, ainda mais, a autoridade do Professor nas escolas, enfraquece-lo socialmente para recuperar uns dinheiros no orçamento geral do estado e manter os níveis de popularidade.
Talvez isto possa ter um preço muito alto em 2009...
É preciso intervir, depressa, mas com estratégia. Reagir não é o mesmo que tomar uma iniciativa. É preciso arrojo, imaginação, atitude que revele vontade, capacidade e ganas de afirmar o prestígio de profissionais a quem o país muito deve. A nossa resposta deve ser à altura desta Ministra que já demonstou ser hábil ao puxar para sí a televisão e por consequência, a opinião pública.
A nossa união é a unica forma de resposta e, sim, os Professores podem fazer parar o país e obrigar as pessoas com responsabilidades a (re)pensar a Educação em Portugal.
Vamos mudar e melhorar o ensino, mas vamos também mudar a forma como se governa e faz política em Portugal, os Professores têm essa obrigação para com o país e é esta a nossa/vossa oportunidade.
PS - Sra. Ministra, claro que os médicos têm uma cultura de escolher o pior doente para o tentar curar dos seus máles, a sociedade dignifica-o, dá-lhe tecnologias e condições de trabalho para o fazer, no fim, se o conseguir, o doente agradece.
Ao professor riscam-lhe o carro quando se torna exigente e disciplinador, insultam-no e agridem-no no seu local de trabalho. Se é exigente com os seus alunos, o sistema obriga-o a repensar as suas estratégias para que no futuro “passem” mais alunos, além de receber o mesmo que o outro Professor que “pouco” faz na escola. O Professor trabalha em espaços, com materiais e em condições que não são comparáveis a um médico num Hospital...
A comparação é uma figura de estilo que deve ser utilizada em elementos próximos e não afastados.
Sendo formada em Psicologia, a Sra. Minsitra da Educação, deveria saber que as generalizações são sempre injustas e perigosas e que o caminho da confrontação com toda uma classe profissional, nem sempre resulta, mesmo quando se pensa ter o “caminho aberto...”
Henrique Silva
publicado por quadratura do círculo às 19:25
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