Terça-feira, 24 de Maio de 2005

Nuno Monteiro - Défice e política

O défice é de 6,83%.
O maior défice da Europa.
Surpresa (para alguns,dizem eles).
Foi apresentado ao Pais o segundo embuste.
O défice não é 6,83%. O défice do País de 2004 é inferior a 3% e está validado pela EU.
O valor apresentado será o défice de 2005 (a 7 meses do fim do ano) se os actuais governantes prescindirem de governar e se mantiverem apenas as medidas já tomadas, quase todas de cariz despesista. Que até podem ser medidas sociais de “bom fundo”. Não é isso que está em causa.
O défice não é de 6,83%. O défice será 6,83% se as SCUTS não tiverem portagem (decisão deste governo), se as verbas cativas forem gastas (idem), se os défices recorrentes da Saúde não forem “atacados”, se as prestações sociais forem aumentadas, se a admissão de funcionários públicos crescerem, se não for utilizado o estratagema das receitas extraordinárias, se se iniciarem obras faraónicas, se, se, se…
Ou, resumindo, se o governo não Governar (como tem acontecido, injustificadamente, até agora).
O défice não é de 6,83%.
Ninguém, sem demagogia, estranhou o valor. Pois vem da equipa do ministro sombra das Finanças e não passa dos 4,5% - 5,0% esperados (sem recurso a receitas extraordinárias) acrescido de pressupostos de não governação assumida. O que talvez interesse a quem governa com vista às próximas eleições.
Entendemos que Sócrates esteja aflito.
Ao pé disto, o discurso da tanga é uma brincadeira de crianças.
As medidas que terão de ser tomadas serão a continuidade simples das medidas dos dois anteriores governos.
Tudo o que foi prometido terá de ser ignorado.
Tudo o que foi contestado (e deu origem à vitória eleitoral) será retomado.
Para engolir este elefante é preciso criar um novo embuste. Um ponto de partida que justifique o “discurso do tangão” e as medidas draconianas que aí virão. Que justifique a notificação de incumprimento do PEC. O aumento do desemprego, os impostos, as portagens, o congelamento de salários, a redução dos Fundos Comunitários, o nariz acrescido do primeiro-ministro.
A (nova) flexibilidade do PEC não será suficiente para justificar este caso de ingovernação e o processo por incumprimento virá.
Constâncio, verdadeiro ministro das finanças, lidera o processo. Na tanga, avaliou o défice de 2001 (após terminado o ano, com Guterres no Governo). O ponto de partida de Durão. No tangão, agora, “calcula” um valor para o ano que ainda não chegou a meio. Vai assumir o peso das decisões e medidas a tomar, deixando Sócrates na sombra. Tentando salvaguardar uma imagem já incapaz de esconder tantos sapos engolidos.
Mas as medidas serão as correctas. Constâncio e a sua equipa, nas Finanças, são competentes (fora esta manipulação - política - do valor do défice que ainda não o é). Farão o que estavam a fazer os anteriores governos. Até que…
Até que, o BE engorde muito (Louçã estará a rir-se, esfregando as mãos).
Até que, Coelho perca a sua atitude arrogante e demagógica (...).
Até que os eleitores do centro entendam que os governos anteriores estavam a tomar as medidas correctas (mas incluindo o aumento contributivo da banca, agora ausente) pelo que para lá voltarão as suas intenções de voto.
Até que, os senadores, avôs e ideólogos socialistas impeçam este processo.
E estes últimos ganharão. A facção agora colocada nas Economia e Finanças cairá e, pântano…
Como agirá a imprensa e os comentaristas perante esta situação? Vão ficar calados. Caso contrário serão todos atingidos pela praga da “narizite aguda”. Todos nos lembramos o que disseram há apenas 3, 4 meses.
Finalmente, Cavaco será eleito e terá de por tudo na ordem.
Infelizmente, em Portugal, ainda não perdemos a necessidade de um “pai” para corrigir as coisas. Salazar também deve estar a rir-se. Onde quer que esteja.
Nuno Monteiro
publicado por quadratura do círculo às 16:15
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