Quarta-feira, 4 de Maio de 2005

Jorge Costa - Sobre IVG

Portugal tem problemas cuja resolução se tem arrastado ao longo de décadas, alguns deles de uma forma escandalosa.
Há 30 anos que a democracia anda embrulhada com a questão da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG), quando parecia que o assunto ia finalmente conhecer um happy end eis que tudo volta ao princípio. O grande argumento é a inoportunidade e falta de condições para a realização do referendo.
Como povo temos uma capacidade infinita para varrer o lixo para debaixo da alcatifa, demitirmo-nos das nossas responsabilidades, em lugar de as enfrentar. É prática corrente endossá-las rapidamente a outros, e ficamos felizes, contentes e de consciência tranquila.
Não sendo a avestruz espécime autóctone é vulgar o mimetismo com o seu comportamento, desconhece-se como se procedeu à sua interiorização. Enterramos a cabeça na areia, para passarmos despercebidos, desejando que as questões se resolvam por si.
Esperança vã!
Os problemas, em vez de se resolverem, aumentam e criam-se situações insustentáveis a todos os títulos. Um dia a alcatifa revolta-se e todo o lixo fica a céu aberto.
A maioria dos portugueses andava descansada enquanto se verificava uma tolerância na aplicação da lei existente e as autoridades policiais não recolocaram o problema novamente aos nossos olhos, com a detenção de mulheres de baixos recursos e seu posterior julgamento cuja única culpa era serem vítimas de uma grande hipocrisia social.
A interrupção voluntária da gravidez é uma questão transversal à sociedade portuguesa e merecia um estudo sociológico aprofundado para estudar a reacção dos portugueses. É estranho mas sabe-se que muitas das portuguesas que no anterior referendo votaram não, foram elas próprias protagonistas de IVG, na esmagadora maioria dos casos efectuadas em condições infra-humanas e de grave risco para a sua saúde.
É do conhecimento de todos que também aqui a coesão social não existe, quem tem poder económico ou capacidade de endividamento e vontade ou necessidade de a fazer escolhe as melhores condições para a efectuar, em Portugal ou no estrangeiro.
Há quem vá aos saldos do Harrod´s, em Londres, e surpreendentemente apesar das compras efectuadas regresse mais leve ou opte por ir comprar caramelos a Badajoz e aproveite para visitar as clínicas da especialidade com publicidade nos jornais portugueses: poder-se-ia falar no 2 em 1 ou numa demonstração prática das vantagens da economia de escala.
Para quem não se queira deslocar tanto e esteja bem informado e documentado em euros só terá de se dirigir às clínicas portuguesas onde sub-repticiamente e por preços elevados também se praticam. Se estas fossem investigadas, descobrir-se-iam algumas curiosidades como objectores de consciência nos Serviços Públicos que esquecem a objecção face ao rendimento que na privada lhes são proporcionados.
Às mulheres de mais baixos recursos resta-lhes a autoflagelação (prática muito comum em diversos lugares do interior) ou a prática clandestina de vão de escada sem garantias de que tudo acabe em bem, podendo ainda verem-se num qualquer tribunal com a maior das devassas da sua privacidade.
Apesar de manifestações piedosas de contrariedade pelos julgamentos das mulheres, os que as fazem tudo tentam para que o problema não conheça solução.
De uma vez por todas há que assumir que a questão da IVG não é moral, é social e de saúde pública pelas consequências sociais e na saúde das mulheres que pode acarretar, algumas de carácter irreversível.
A hipocrisia é um dos piores defeitos da espécie humana!
Os portugueses merecem bem melhor que uma agenda condicionada por inatingíveis consensos ou falsos sentidos de oportunidade, tanto mais lamentáveis quando vêm de onde menos seria de esperar, o que leva a que importantes decisões e soluções evidentes sejam atiradas para as calendas.
Que cada um assuma as suas responsabilidades, longe do comportamento da avestruz!

publicado por quadratura do círculo às 20:18
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