Terça-feira, 19 de Abril de 2005

Afonso Leonardo - Artigo de Miguel Sousa Tavares

Não lhe vou dizer que Miguel Sousa Tavares, em artigo escrito no Público,
tenha toda a razão no que escreveu acerca das férias dos professores. Podia
ter ponderado um pouco mais, ter feito melhor algumas contas. Como disse fez
as contas aos dias de férias dos professores a partir da posição de pai,
contando os dias que o filho não tem aulas. Daí deveria concluir para as
férias dos alunos e não para as dos professores. Na verdade, escreveu como
jornalista e não como encarregado de educação. Viu a questão do lado de fora
e creio que dessa perspectiva a vida dos professores deve parecer um mar de
férias. Ainda que não deteste matemática, detesto esta contabilidade, alguma
tão criativa como a de um respondente ao seu artigo que conseguia ficar a
trabalhar apenas um dia por ano. Concordo que genericamente os professores
têm mais tempo livre que quaisquer outros profissionais que eu conheça. Digo
genericamente por que é diferente consoante se trate de Educadores de
infância, de professores do 1º, do 2º, do 3ºciclos ou do Ensino Secundário e
dentro de cada segmento varia ainda. Esqueceu-se o Miguel de contabilizar
ainda mais tempo livre (ou dias de férias, como lhe chama):
- Que (à excepção dos professores do 1º ciclo) uma grande parte dos
professores tem um dia livre na semana;
- Que pode usar oito dias para formação;
- Que pode dar até onze dias de faltas durante o ano por conta de férias –
Só que como em Agosto ninguém vai à escola, com excepção de elementos do
conselho executivo, não faz diferença o desconto.
O horário dos professores é completamente fictício porquanto sendo em teoria
de 35 horas semanais apenas são controladas as horas lectivas e reuniões em
que tem de assinar. Dessas trinta e cinco horas, no máximo 22 serão
lectivas, decrescendo no decorrer da carreira e descendo até a um mínimo de
doze horas lectivas. Estas horas lectivas podem diminuir (entre duas e seis
horas) caso o professor seja Director de Turma, Delegado de Grupo,
Coordenador de Departamento, Director de Instalações, etc.
Para além disso, a maior parte dos professores passa apenas a manhã ou a
tarde na escola (É verdade que se tivessem de cumprir o seu horário na
escola não teriam lugar onde estar).
Somos um país de assimetrias e também na classe estão presentes: Compare-se
o ordenado de um professor em início de carreira com o ordenado um professor
no topo da mesma, o número de horas lectivas de cada um, para além de o
último poder, normalmente, escolher o melhor horário, as melhores turmas, as
melhores escolas.
Se acrescentarmos que o (de)mérito não é sancionado, porque o juízo para
passar para o escalão seguinte é, em exclusivo, emitido pelo interessado
talvez tenhamos parte da resposta ( e afirmo que é apenas parte) para o
lastimável estado do ensino que temos.
E estamos a falar apenas na quantidade de trabalho e não na qualidade. Mas
obviamente esta não existe sem aquela.
Afonso Leonardo
publicado por quadratura do círculo às 17:07
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2 comentários:
De Mente Perigosa a 7 de Novembro de 2007 às 11:07
Olá... Meu caro. Sei que tardiamente entrei neste seu blogue. Admiro-o pela forma como tenta expor, com relativa cvlareza, os seus pontos de vista. Porém, trabalho como professor do 1.º ciclo e custa-me ver sempre a pagar as favas pelos horários reduzidos de usufruem professores de outros níveis de ensino. Mas não os invejo, como parece ser o maior dos males da nossa sociedade. pelo contrário. Se o lugar deles me fosse apetecível, garanto-lhe que tudo faria para lá chegar. E não duvido de que o conseguiria. O meu currículo prova-o.
No entanto, queria frazer-lhe alguns reparos na sua forma de pensar. Começo pelo fim do artigo. Existe, certa e seguramente, qualidade sem quantidade. Nem pense que só existe qualidade com quantidade. Um simples exemplo: os Ferrari. Acha que se fazem aos milhares como fazem fiat punto? Crê que os produtos que nos chegam da China (baratos, claro!), produzidos em quantidade, têm a mesma qualidade que de outras zonas do globo?
Mas queria dizer-lhe que o trabalho do professor não se esgota na sala de aula, o que me pareceu ter entendido mas depois... não foi coerente. Sabe quanta energia eléctrica gasto para servir o Estado que não me disponibiliza instalacoes para exercer as minhas 35 horas? Imagina quantos tinteiros, quantas fotocópias pagamos do bolso, quantos telefonemas para os pais (como o senhor, talvez) pagamos na nossa conta telefónica? Fala de 8 dias para Formação... Foi uma exigência dos governantes... Não dos professores. Avaliam-se? Como? Conhece o sistema de avaliação dos docentes? Claro ques e baseia no relatório do docente. Mas lá apenas podem constar os dados reais... Esse relatório é visto e revisto por uma equipa de outros docentes competentemente nomeados nos termos da lei...! Enfim
Termino deixando-lhe um link... Tenha coragem de ver, de ler e de comentar...
http://ferreirablog.blogs.sapo.pt/8441.html
Continue a escrever. Apesar de tudo, não deixo de apreciar o que escreveu... Bem prefiro às calinadas de Miguel Sousa Tavares...


De joaopft a 27 de Abril de 2010 às 16:08
Por acaso, vi no outro dia um documentário sobre a fábrica da Ferrari, em Maranelo , Itália. Deixou-me muito surpreendido, por várias e boas razões. Entrevistaram um dos funcionários que comentou que ali não havia operários de linha de montagem, mas artífices. Há, no nosso Portugal, alguns inteligentes que pretendem transformar a escola numa linha de montagem, e para isso tudo serve: fomentar a inveja dos outros profissionais que são obrigados a trabalhar em condições indignas, fomentar a incompreensão da natureza criativa da profissão de professor, etc. E têm medo, muito medo, do dia em que os portugueses compreendam que, se tiverem sucesso na conversão da escola numa linha de montagem, os seus filhos deixarão de ser homens e mulheres livres. Serão educados para ser escravos.

Não sabemos todos que as pessoas que podem comprar um Ferrari só o fazem porque os funcionários do Maranelo são, colectivamente, muito bons? Poderia haver no Maranelo Suficientes e Insuficientes? Não basta um erro grosseiro de um funcionário desmotivado para desgraçar o prestígio da marca, junto dos seus clientes? Porque será que o que é bom para a produção dos carros dos ricos deixa de o ser para a educação dos filhos do Zé Povinho português?

Para haver competência, numa profissão de artífices, é preciso funcionários livres e dignificados pelo seu trabalho. Para que isso possa acontecer, é preciso atrair para a profissão os melhores; é preciso investir grandemente na formação inicial, mandá-los para as boas Universidades (não para as "Independentes"), e para os melhores cursos científicos e de letras; finalmente, é preciso investir no processo de profissionalização, para que possam ganhar a necessária experiência prática de lidar com uma turma, aprendendo com os mais experientes. Este foi o sistema que vigorou no passado e que deu, comprovadamente, bons resultados.

Entretanto, destruiu-se um bom sistema e colocou-se, no seu lugar, um monstro inspirado na gestão das linhas de montagem industrial, que está a implodir pelas suas próprias inconsistências internas e desfazamento com a realidade da educação, deixando este processo todo um vazio e uma catástrofe de dimensões incalculáveis, que necessitará de várias gerações para ser debelada.

Pessoas como o Miguel de Sousa Tavares deveriam ter vergonha, pois as gerações futuras farão delas um juízo muito duro, brutal mesmo. Já mereceram, para si próprios, o inferno da história.


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