Quinta-feira, 7 de Abril de 2005

Ricardo Sousa - Verdadeira Quadratura

Há uns bons anos, estava eu no primeiro ano da faculdade quando o meu professor de economia explicava o conceito de escassez. Uma definição muito simples e acessível à percepção do cumum dos mortais. Apesar disso, e como sempre gostou de brincar com os conceitos de economia, explicava o meu professor que a falta de "miudas giras" era um problema para os D. Juans do nosso tempo. Não basta oferecer um gelado ou convidar para ir ao cinema. Agora, dizia ele, é preciso algo mais: um bom jantar, umas férias juntos. Enfim, tudo para dizer que a escassez existe em todos os recursos e que quanto mais escasso mais caro se torna um bem ou um serviço. Sobretudo quando falamos dos recursos de um país ou de um conjunto de países, já sabemos que a escassez é um elemento fundamental. Como tal, quando usamos esses recursos, que são tanto mais valiosos quanto menos quantidade existir, devemos ser muito criteriosos e fazer opções claras, já que como responsáveis que somos sabemos bem que não são suficientes para resolver todos os problemas, nem para acudir a todos os males da sociedade.
Apesar da simplicidade do conceito, a Europa parece não conhecer o seu significado ou ainda mais grave quer fazer crer a ela própria que já não se aplica por qualquer milagre que se deu no velho continente. Para verificar este facto basta observarmos o comportamento dos dirigentes políticos europeus nos últimos dois anos e tendo como ponto de partida a famosa estratégia de Lisboa. No fundo o grande objectivo de Guterres e dos europeus era tornar o nosso espaço economico como o mais competitivo do mundo em apenas dez anos. Para conseguir tal feito, os estados investiriam milhões para promover o avanço tecnológico dos diferentes países. Nunca se explicou muito bem como é que se conseguia, onde se investia e para quê. Mas, o que estava subjacente à ideia era um forte contributo dos estados ou seja dos cidadãos europeus no seu conjunto. Tenho para mim que não pereceberam bem as razões pelas quais os EUA se tornaram na mais competitiva economia do mundo. Dou só um exemplo português. Para o sucesso da estratégia de Lisboa o Governo português teria feito mais, por exemplo, se tivesse contribuído de uma forma séria para tornar verdadeiramente concorrenciais os mercados de telecomunicações e energia. E para isso não precisava de investir muitos recursos. Bastava clarificar regras, tornar os mercados abertos, que outros, os privados, teriam investido muito mais do que fizeram. Mas o sonho europeu não se fica pela estratégia de Lisboa. Ao mesmo tempo, toda a Europa não admite sacrificar a universalidade dos sistemas de saúde, de ensino e de segurança social. Todos sabemos que a estrutura das populações tem evoluído no sentido da diminuição da população activa, aqueles que contribuem para a riqueza nacional, e aumento daqueles que já deram o seu contributo e que agora esperam colher o benefício. Além disso, principalmente em países como Portugal, o acesso aos sistemas de educação foi, e bem, democratizado e que o número de utilizadores desse serviço aumentou exponencialmente. Sabe-se que os custos com a saúde, apesar dos esforços, têm também aumentado. Mas a Europa quer mais ainda. Todos assistimos aquando da crise iraquiana, várias personalidades do nosso continente, incluíndo Portugal, a reclamar para a União Europeia um papel mais interventivo na política internacional com o objectivo de criar um contraponto em relação aos EUA. Também quase todos concordaram, incluindo por exemplo Mário Soares, que a forma de o fazer seria investir mais em armamento e na industria de defesa. Claro que este investimento teria que ser feito pelo Estado.
Há poucos dias tivemos a notícia da revisão do PEC. Ou melhor dizendo da morte do PEC. A propósito disso, aguardo com curiosidade a reacção do BCE a esta notícia. Ou muito me admiro ou as taxas de juro vão subir e não pouco. É muito estranho que os dirigentes europeus não vejam que o que está em causa não são manobras contabilísticas tirando ou colocando determinadas verbas no cálculo do déficit. Mesmo não contabilizado, esse dinheiro vai ser gasto e por isso vai ter que ser pago, naturalmente com dívida pública. Como qualquer cidadão sabe, a dívida tem determinados limites, para além da questão de injustiça que encerra: serão os nossos filhos a pagar as nossas loucuras.
Há qualquer coisa de irracional nestes raciocínios se forem vistos no seu conjunto. Todos os governos europeus defendem estas teses e todos afirmam aos seus cidadãos que não aumentarão os impostos. Têm que estar a mentir. Ou não pretendem manter a universalidade dos sistemas sociais nem aumentar a competitividade da economia e o peso na política externa ou vão ter que aumentar impostos, pondo em causa essa mesma competitividade externa.
Enfim, a verdadeira Quadratura do Círculo.
Ricardo Sousa
publicado por quadratura do círculo às 13:16
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