Quinta-feira, 25 de Maio de 2006

João Gomes Gonçalves - Fénix Renascida

Não me passaria pela cabeça ir a um centro comercial, entrar numa loja de pronto a vestir, de marca, comprar um bom fato, pagar a pronto pagamento e em lugar de o levar para casa, deixá-lo na loja durante vários meses para ficar na prateleira ou em exposição.
Um ideia mais disparatada do que esta passou pela cabeça da administração da Afinsa que, com muita publicidade enganosa convencia os “investidores”
a comprarem selos e obras que ficavam em poder do vendedor “para não se estragarem”: o estafado conto do vigário em versão sofisticada para mercados bolsistas ou aparentados. Cerca de trezentas mil pessoas (classe média e média alta), que “compravam” selos e objectos de arte, de que regra geral desconheciam o valor, estão agora em sério risco de perder os investimentos.
A Afinsa e o Fórum Filatélico, após três anos de investigação, são acusados de burla, branqueamento de capitais, gestão danosa e falência fraudulenta. Como é hábito nestes casos, muitos dos lesados (talvez a maioria) irão ficar sem as suas reservas para a reforma, para situações de emergência e até reduzidos a situações de grande carência.
Insólito, também, nesta história temos até agora, em Portugal, um diplomata de carreira e ex-ministro de Durão Barroso que pertencia à administração da Afinsa e que, mesmo depois do escândalo, continua a garantir que o negócio era sério. Outro ex-ministro de Durão Barroso figura no rol dos “investidores” da Afinsa, o que nos pode levantar dúvidas quanto à sua competência como gestor público. Enfim, fomos governados por gente desta.
Afinal de contas, por que motivo cai tanta gente e tantas vezes em burlas tipo D. Branca (que um conhecido economista e ex-ministro) também veio a público defender?
Os mercados bolsistas, sem excepção, têm inscrito no seu código genético o gene da burla, que dá pelo nome de especulação, ou seja a subversão da lei da oferta e da procura do chamado mercado livre.
“A especulação produz-se quando as pessoas compram valores, tendo sempre atrás uma qualquer razão, porque elas esperam ver subir os preços. Esta expectativa suscita actos que servem para a justificar. Bem depressa o elemento real que é visado deixa de ser o juro que o bem em questão (terra, mercadorias, sociedades por acções ou sociedades de investimentos) proporcionará no futuro. O que conta é que existem muitas pessoas que esperam por uma alta de preços desse bem para fazer efectivamente subir o preço, e assim atrair ainda mais gente, que alimentará por sua vez a esperança de mais altas.
O mecanismo é de uma simplicidade primitiva. Ele apenas dura quando nós pudermos acreditar numa subida de preços. Se a alta de preços encontra um obstáculo real, as esperanças daqueles que sustentaram a alta são iludidos ou pelo menos ameaçadas. Todos os que acreditam numa possível baixa... tentam então livra-se a tempo do negócio arriscado. Qualquer que tenha sido o ritmo de crescimento anterior, lento ou rápido, a queda que daí resulta é sempre brutal... É assim que a especulação (e com ela a expansão económica) chegou ao fim em todos os anos de pânico, desde 1819 a 1929” Extraído de J. K. Galbraith.
Alias, podemos acrescentar que as crises são bem mais antigas: já aconteciam na Holanda do século XVII (a crise das tulipas em que as pessoas vendiam e hipotecavam casas para comprar as tulipas cujo preço não cessava de aumentar), e o também famoso caso de John Law que abriu um banco privado em Paris, adquiriu o monopólio do tabaco, foi regente da casa da moeda e acabou na bancarrota (1720). Podíamos continuar com um extenso rol de bancarrotas e crashs que têm reduzido à miséria muitos milhares e incautos “investidores”.
Os oceanos possuem as maiores cadeias alimentares do planeta. Em incessantes estratégias de defesa e de ataque – comer e ser comido -, peixes miúdos procuram defender-se dos predadores graúdos: deslocar-se em cardume é uma estratégia de defesa, que os predadores procuram furar para aceder a um grande banquete, e até costumam ter à ilharga predadores mais pequenos e oportunistas que também colhem a sua quota no banquete.
Em terra firme o equivalente destas cadeias alimentares são os mercados financeiros, onde os grandes, muito grandes investidores, “tosquiam” os milhares e milhares ingénuos, nos quatro cantos do mundo, que acreditam na sua sorte ou esperteza, caiem na publicidade enganosa, pensam que o capitalismo popular existe, etc. etc..
E. Zola, na sua obra “O dinheiro” descreveu minuciosamente e satirizou os especuladores do final do século XIX, e J. K. Galbraith, escreveu uma “Breve História da euforia financeira”. Hoje, ambos poderiam escrever, caso estivessem vivos, volumosos tratados sobre o conto do vigário, autentica Fénix renascida, na sua versão sofisticada para bolsas e mercados financeiros, tal é a extensão da fraqueza humana – tentação do lucro fácil - e da sua falta de memória.
Os economistas distinguem entre a boa e a má especulação, garantindo que a boa especulação é necessária ao funcionamento dos mercados. Não tenho conhecimentos teóricos para discutir esta matéria: limito-me a constatar a excessiva frequência com que a má especulação leva a melhor sobre a boa e a acompanhar as desventuras dos meus contemporâneos.
João Gomes Gonçalves




publicado por quadratura do círculo às 18:37
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