Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2004

Vasco Franco (Vereador PS Lisboa) - Oposição na CML

No Flashback do passado fim de semana Pacheco Pereira questionou o papel da oposição na CML a propósito de obra do túnel do Marquês e da intervenção do Dr. J. Sá Fernandes. Só quem não acompanhou minimamente o processo desta obra pode ignorar as inúmeras intervenções dos autarcas da oposição nos últimos dois anos em relação a esta matéria.
O Dr. Sá Fernandes dirigiu uma petição aos tribunais ao abrigo do direito de acção popular, alegando que a obra do túnel não teve um estudo de tráfego, não teve estudo de impacte ambiental, não foi submetida a discussão pública, está a ser feita sem projecto de execução e não foi submetida a parecer do IPPAR.
Seguindo um guião documentado com as notícias publicadas, vejamos o que fez a oposição socialista na altura adequada:
· Defendemos que devia haver um estudo de tráfego (v. JN de 10.04.2002) e, posteriormente, a Câmara divulgou um estudo de tráfego que já teria feito (v. Expresso de 13.04.2002 e CM de 21.04.2002). O PS considerou que esse estudo devia ser melhorado, mas não é objectivamente verdadeira a alegação de Sá Fernandes pois existe de facto um estudo de tráfego;
· Defendemos que devia ser feito um estudo de impacte ambiental (v. JN de 10.04.2002) e declaramos que a falta desse estudo era uma das razões do nosso voto contra a obra (v. Público de 30.05.2002), embora a razão de fundo fosse a total discordância com a filosofia subjacente a este túnel. Em todo o caso o estudo de impacte ambiental não é obrigatório, como decorre do Decreto-Lei n.º 69/2000, de 3 de Maio. Ainda assim, o Governo poderia determinar a sua realização mas tal não aconteceu (ao contrário do que fizeram os Ministros Jorge Coelho e José Sócrates em relação ao projectado túnel rodoviário do Terreiro do Paço - Despacho conjunto n.º 963/2000 de 7 de Setembro). A alegação de Sá Fernandes é, pois, irrelevante do ponto de vista jurídico;
· Defendemos que era obrigatória consulta pública (v. CM de 21.04.2002) e o Dr. Santana Lopes foi obrigado a atrasar o lançamento do concurso e a realizar a consulta pública (v. Público de 29.05.2002). É, assim, falsa a alegação de Sá Fernandes;
· Questionamos, de forma muito consistente, a segurança do primeiro estudo preliminar apresentado pela Câmara para lançar o concurso (v. Público de 10.04.2002) e a proposta foi retirada e reformulada (v. JN de 11.04.2002);
· Questionamos a realização desta obra antes da conclusão da CRIL e do Eixo Norte-Sul (v. Expresso de 13.04.2002) e temos vindo a insistir neste ponto (v. Capital de 08.01.2003);
· Opusemo-nos à adjudicação da obra por ajuste directo (v. DN de 15.03.2003) e manifestamos perplexidade com o visto dado pelo Tribunal de Contas ao ajuste directo (v. DN de 13.07.2003);
· Continuamos a questionar os detalhes do projecto e os "efeitos colaterais", que se farão sentir nomeadamente sobre a Av. da Liberdade (v. CM de 08.08.2003, Capital de 16.09.2003);
· Solicitamos sucessivos esclarecimentos sobre o desenvolvimento do projecto (v. Capital de 16.10.2003) e questionamos a legalidade das últimas alterações anunciadas (v. JN de 12.11.2003), por razões meramente formais, mas a nosso ver relevantes, devendo esta matéria ser apreciada proximamente pelo Tribunal de Contas em sede de análise de contrato adicional à empreitada;
· Também na Assembleia Municipal o PS se manifestou repetidamente contra o túnel.
Numa única matéria o Dr. Sá Fernandes parece ter razão. Não foi feita consulta ao IPPAR e ninguém na Câmara tinha admitido até agora que essa consulta poderia ser exigível, talvez por se tratar de um túnel. Analisada a questão julgamos que a consulta deve ser realizada pois há duas saídas do túnel em áreas de protecção, uma na Av. Fontes Pereira de Melo, na área especial de protecção da Av. da Liberdade, e outra na Av. António Augusto de Aguiar, na área de protecção ao edifício classificado onde está sediada a Ordem dos Engenheiros. Também as alterações ao perfil do túnel antigo junto às Amoreiras caem dentro da zona especial de protecção ao Aqueduto das Águas Livres.
Quanto ao projecto de execução, tratando-se de uma obra complexa realizada em regime de concepção/construção, qualquer especialista reconhecerá que não é imprescindível nem legalmente exigível que esteja aprovado todo o projecto de execução, com todas as especialidades, antes do início da obra. Mandará a prudência que esteja concluído e aprovado o projecto do troço em que decorrem trabalhos e foi garantido, em reunião de Câmara, que essa aprovação ocorreu em 29 de Dezembro .
Continuaremos a procurar manter este tema em discussão, num quadro de absoluta discordância em termos técnicos e políticos com esta opção do Dr. Santana Lopes e de atento escrutínio da legalidade dos procedimentos. Mas não se espere que passemos a seguir um estilo aligeirado de abordar as questões sérias que afectam a cidade, só para assegurarmos tempo de antena fácil.
Vasco Franco
(Vereador do PS na CML)

publicado por quadratura do círculo às 16:55
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Terça-feira, 27 de Janeiro de 2004

Rodrigo Neiva Lopes - Comoção por Miklos Fehér

É absolutamente revoltante constatar a recente comoção generalizada provocada pela trágica morte do jogador do Benfica Miklos Fehér. Revoltante porque tal comoção não se compadece minimamente com a morte do jogador, do indíviduo, do ser humano, mas sim com o desaparecimento de uma das peças de engrenagem de uma equipa de futebol.
Mais uma vez se verifica os efeitos perniciosos, com laivos de terceiro mundismo, que a indústria do futebol traz à sociedade portuguesa. Sociedade essa, débil, emocional e de fácil comoção com as "mortes mediáticas". Que aliás, têm o indubitável mérito de se apresentarem como escapes expiatórios da culpa colectiva. As "massas" adoram sentir pena das pequenas tragédias alheias, pois julgam que assim se tornam melhores seres humanos, camuflando as suas próprias falhas cívicas e de carácter.
Essa é a verdade. Acrescente-se o ar combalido de alguns responsáveis políticos, como foi o caso de Pedro Santana Lopes, que carpia as suas "mágoas romanas", a caminho da Presidência da República, ou de alguns imprudentes e oportunistas deputados do Partido Socialista (Lello & Companhia).
Assim sendo, este caso é paradigmático, de um ponto de vista que critica a promiscuidade, a subjugação, a devassidão, entre os políticos, a sociedade mediática/emocional e a "gente da Bola". Mais uma triste imagem do "álbum" do nosso país.
Rodrigo Neiva Lopes
publicado por quadratura do círculo às 19:33
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Diana Junot - Aborto (Resposta à posição de Luís Gagliardini Graça)

Exmo. Senhor,
Enquanto os homens não tiverem a capacidade de ter (parir, mesmo!) filhos, não deviam ser os homens a decidir sobre se o aborto é ou não admissível. E a pura verdade é que a decisão de tornar o aborto crime foi tomada por homens já que é de homens que é maioritariamente constituído o Governo.
Por acaso não lhe passará pela cabeça que a decisão de abortar não se toma de ânimo leve? Acha que existe no mundo alguma mulher que no dia a seguir a descobrir que engravidou se levante da cama e diga: "Está um lindo dia para abortar!"?
E achará por acaso que uma criança deverá vir ao Mundo mesmo que em condições que já se sabem precárias, tanto económicas, como sociais? Não será isso um verdadeiro crime? Trazer ao Mundo uma criança para sofrer.
Já terá pensado que realmente há mulheres que não têm aptidão para serem mães? Poderá dizer: "Então essas mulheres que tomem as medidas necessárias para não engravidar."; pois é! Só que elas não as tomam. Deverão ser as crianças a pagar por isso? Não acha muito mais lógico poupar uma criança de uma vida inteira (se sobreviver) de sofrimento, do que deixá-la nascer só porque meia dúzia de senhores engravatados acha que assim é que está correcto?
Imagina o que sofre uma criança que vem ao Mundo sem ser desejada? Acha bem os milhares e milhares de crianças que vagabundeiam nesse Mundo sem nada para comer, sem amor, sem carinho, sem nada? Quantas preferiam não ter nascido? Quantas descambam para a criminalidade? Quantas morrem em condições sub-humanas? Não acha de um certo masoquismo "obrigar" uma criança a nascer para a ver sofrer?
Respeitosamente,
Diana Junot
publicado por quadratura do círculo às 18:38
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Luís Jerónimo - Administração Pública

Boa tarde,
Já lá vão uns anos que sou um admirador do vosso programa (SIC, TSF e agora SIC Noticias). Por isso permitam-me o desabafo pela estupefacção e tristeza com que fiquei ao ouvir o programa.
Fiquei a saber o que pensam os representantes da coligação no poder neste momento, pessoas com quem me identifico politicamente, que admiro, respeito e que tenho como referências dos seus partidos, sobre os trabalhadores da Função Pública.
Mas vamos ao assunto. Fiquei a saber que os trabalhadores da Função Pública são uns privilegiados porque não só temos a segurança do emprego (será que os trabalhadores do sector privado não sabem as regras com que contam?) como somos uns privilegiados ao nível financeiro (lembro que já não sou aumentado há dois anos e que perco poder de compra no mínimo há 4 anos, que não tenho comparticipação de lucros e que não tenho incentivos trimestrais/anuais).
Para entrar para o Estado (sou professor), precisei de concorrer (concurso a nível nacional) e assim continuei todos os anos até atingir a escola com que mais me identificava e que mais próximo ficava da minha residência (processo que demorou mais ou menos 18 anos).
Para subir na carreira, sou submetido a uma avaliação, pelo Conselho Pedagógico, por intermédio de um relatório crítico abrangendo os anos em que estive no escalão (obrigatoriamente submetido a formação pessoal - malfadados créditos...).
Sempre que estive a exercer a minha profissão longe de casa, não tive um único subsídio (além do subsidio de refeição) a não ser o de sobrevivência dado pela minha família.
Muitas vezes exercemos a nossa profissão em situações difíceis (calor, chuva, vento, frio, falta de material apropriado, etc.)
Será que não vêm que somos nós os que efectivamente estamos a pagar esta crise? Nós os que ganhamos mais do que € 1 000 por mês e que trabalhamos para o Estado.
Mas para vos abrirem os olhos aí estão os resultados da maior greve de sempre dos trabalhadores da Função Pública.
Mas - admirem-se.. - somos iguais a milhares e milhares de outros trabalhadores portugueses: temos também a prestação da casa, a farmácia, o vestuário, a alimentação, o telefone, etc., a pagar mensalmente.
Um País constrói-se com uma classe média forte e nunca contra ela.
Nota: Claro que não estou aqui a “falar” dos trabalhadores que têm salários de miséria, dos que têm salários em atraso e dos desempregados (que infelizmente neste país cada vez são mais).
Um abraço e continuem com esta lufada de ar fresco, ao domingo, que é o vosso programa.
Cumprimentos com a promessa de que dentro em breve receberão um outro e-mail, com um tema para proposta de discussão no programa.
Luís Jerónimo
publicado por quadratura do círculo às 18:32
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Carlos Andrade - Horário do programa

A escolha do horário é explicada do seguinte modo pela Direcção da SIC Notícias: apesar de cada edição do programa ser emitida às 15 horas de domingo, o verdadeiro horário de "estreia" é o da meia-noite de domingo para segunda-feira. Para a SIC Notícias, trata-se de uma escolha ajustada ao modelo de programa, com a vantagem de procurar ganhos de audiência num horário em que a estação aposta.
Carlos Andrade
publicado por quadratura do círculo às 18:21
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Daniel Salgado - Horário do programa

Parabéns pelo programa. Fizeram muito bem em recuperar o «Flashback» da TSF que acabou inexplicavelmente. Serei um espectador assíduo como já o era do «Flashback». Sugiro apenas uma alteração ao horário: o programa é transmitido num horário pouco adequado na véspera do início da semana de trabalho.
Daniel Salgado
publicado por quadratura do círculo às 18:20
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Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2004

Pedro Malheiros - Presidência À Distância

Viva...
Achei deveras interessante uma Presidente de uma autarquia poder exercer as suas actividades de autarca a partir do Rio de Janeiro.
Bem isto da tecnologia faz milagres; pode ser que esta moda do controle remoto pegue...
Li um dia que nos States, como medida de precaução quando se deu a tragédia do 11 de Setembro, poderiam eventualmente, devido às circunstancias, reunir-se num chat room, com video-conferência...
Como o caso não é inédito, então poderá acontecer que alguns autarcas, como medida inovadora, passem a gerir os destinos dos seus concelhos desde Benidorm, Mónaco, Rio de Janeiro ou desde alguma ilha do Pacifico sul, à sombra de um coqueiro, olhando o mar transparente, deliciando-se com um sumo de manga ou uma caipirósca.
Achei interessante e por esse facto resolvi comentar, pois isto do rádio controlo/comando à distancia tem muito que se lhe diga e parece que estamos a dar um passo em frente, quer na politica, quer no mundo das telecomunicações.
Fica por esclarecer como vão ser feitas as transmissões, desde Copacabana - não sei se por telefone-satélite, internet ou gprs. Como sou leigo na matéria...
Enfim é o limiar do sec.XXI.

Pedro Malheiros
http://pedromalheiros.blogssapo.pt/
publicado por quadratura do círculo às 20:23
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César Martins (Resposta José Soares-Administração Pública)

Exmº. Sr. Soares,
Li o seu artigo que devo dizer que me indignou!
O senhor quer reformar-se aos 52 anos. Eu trabalho na iniciativa privada, só me posso reformar aos 65 anos de idade e alem de mais não levo os 100% do que ganhava, mas sim 80% e de um rendimento médio dos últimos 10 anos os melhores cinco. " Na realidade serão os +/-70% do vencimento".
Não recebo medicamentos praticamente a custo zero ou pago nas consultas 1,0 Euro ou 20%, conforme os acordos.
Ja lhe passou pela sua mente de quem sofre para os senhores poderem usufruir destas regalias?
Os que podem ser despedidos, não podem adoecer, não podem faltar ao emprego, os que trabalham em empresas que se não produzir fecham, o que fazem depois do desemprego acabar? Estão velhos aos 50 anos de idade. Os senhores estão prontos para poderem continuar a gozar a vida sem preocupações e com cara de quem tem 40 anos!
A sua missiva é um insulto aos que produzem e honram os seus compromissos neste país, na iniciativa privada!
Atentamente
Cesar Martins
publicado por quadratura do círculo às 20:07
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Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2004

Mapas mentais (R. do Carmo)

Bom dia
Um interessante tema de discussão, num mundo cada vez mais globalizado, mas no qual, talvez por isso mesmo, as diferenças culturais parecem cada vez mais agudas, é o dos choques civilizacionais e dos conflitos que estão associados às zonas onde essas civilizações se encontram.
Parece-me que, demasiadas vezes, se faz uma leitura ideológica de alguns conflitos, utilizando um mapa mental desadequado e que leva frequentemente as forças ditas de esquerda a mostrar-se tacitamente do lado de quem confronta a civilização ocidental, mesmo que os seus valores estejam nas antípodas dos que a esquerda defende.
Não é fácil compreender os conflitos balcânicos à luz dos mapas ideológicos que nos serviram para ler o mundo até à queda do imperio soviético.
Não se pode compreender o conflito israelo-árabe a essa luz, como faz alguma esquerda que arruma sucintamente os opositores em conflito em opressores ( capitalistas, sionistas, imperialistas, etc) e oprimidos ( os palestinianos), sem perceber que o que está em causa não tem nada a ver com isso, mas sim com profundas diferenças civilizacionais.
Os valores da esquerda são valores também eles forjados no cadinho da civilização ocidental. A esquerda, tal como a conhecemos, só existe em países que partilham os valores do ocidente, pelo que pôr em causa a civilização ocidental parece ser uma atitude ideologicamente suicida.
Não lhes parece que o mundo se explica melhor tomando como actores os ortodoxos, cristãos, muçulmanos, japoneses, chineses (neles se englobando todos os países que gravitam em torno da China), indianos, africanos, judeus, etc, do que o capitalismo, o socialismo e outros ismos ideológicos ?
A China, ainda com o lastro do comunismo, é na verdade um país fortememente capitalista, mas o seu carácter é sobretudo determinado pelos milenares valores confucionistas que radicam profundamente na história.
O Japão, capitalista e democrático, governa-se com um sistema que pouco tem a ver com o nosso formalismo democrático.
A Índia, capitalista e democrática, tem as castas e não interage de igual forma com o ocidente e durante muito tempo foi aliada do bloco soviético.
O facto de a Grécia ter apoiado os sérvios no conflito bósnio tem única e exclusivamente a ver com o facto de partilharem os valores ortodoxos.
Bin Laden ataca o ocidente, não por ser capitalista, ou imperialista, mas sim por questões culturais e religiosas, ou seja, civilizacionais. E também atacou os soviéticos no Afeganistão justamente pelas mesmas razões.
Não estará na altura de desdobrarmos novos mapas mentais ?
R. do Carmo
publicado por quadratura do círculo às 13:27
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Terça-feira, 20 de Janeiro de 2004

O que penso? Que não podemos fazer esperar as mulheres que sofrem o flagelo

Cada mulher que, por vicissitudes da vida humana, seja algum dia levada a ter de ponderar a interrupção de uma gravidez é colocada, de forma inevitável, perante complexas e dramáticas interrogações.

A resposta final pode fundar-se em muitos e diferentes critérios, em função de convicções, valores éticos, crenças religiosas e distintas representações do mundo e da lei. Poucas serão especialistas em Direito, em filosofia ou em ética das ciências da vida, mas a nenhuma é poupado o acto de decidir.

Só raramente a opção estará imune a pressões psicológicas, sociais, culturais, económicas. Demasiadas vezes, poderá faltar o acesso à melhor informação e o bom aconselhamento na hora em que seria necessário.

Tocando o que de mais profundo caracteriza a existência humana, uma tal ponderação, mesmo que por desventura se repita, nunca se torna mais simples ou mais fácil. É sempre uma dolorosa Teia de Penélope, demasiado bem conhecida de milhões de mulheres que em todo o mundo e em todas as épocas, experimentaram esse desfazer e refazer dos mais graves conflitos de valores e emoções humanamente possíveis, num "choque de absolutos", incessantemente renovado.

Cada decisão, duramente sujeita à ampulheta do tempo - e seguramente das mais difíceis para a mulher-,é indelegável, pessoal.Tão concreta que não pode ser considerada em abstracto, nem estar tomada de antemão.Tão única que, uma vez assumida, vale para essa vez, não para todas as circunstâncias e tempos.



2. Bem ao invés, o Legislador de um Estado de direito democrático, quando tenha de decidir em consciência sobre o quadro jurídico aplicável à interrupção voluntária da gravidez, não carece de recomeçar sempre a partir do ponto zero a avaliação de todas as múltiplas questões que a problemática do aborto suscita desde os mais distantes tempos .

Antes pode e deve - retendo a memória do seu tempo e das suas anteriores decisões - avaliar rigorosamente a forma como as mesmas foram executadas ou rejeitadas e , se necessário e possível, tomar as adequadas medidas de correcção na sede própria.

Tratando-se de uma matéria que forçosamente divide - e pode dividir muito - as sociedades e a opinião pública, afigura-se razoável e mesmo indispensável que nesse processo de decisão sejam exploradas todas as formas de não criar fracturas aí onde as mesmas possam ser evitadas. (1);

E há que buscar, o mais possível, denominadores comuns, solidariedades e esforços conjuntos, aí onde estes relevem para defesa de interesses sociais importantes, desde logo os suscitados pelos perigos que ameaçam a saúde das mulheres.

Quanto às questões que não dispensem o apuramento de uma maioria de decisão, importa que sejam cuidadosamente equacionadas, por forma a evitar esse mal maior que são os acesos debates jurídicos centrados sobre propostas inexistentes ou os violentos afrontamentos de valores e convicções - que enquanto tais ninguém tem legitimidade para pôr em questão - a propósito (ou a pretexto) de soluções legais que não suscitam relevante rejeição social.

3. O presente relatório parte do princípio de que em pleno ano de 1997, não faz sentido - nem é, em rigor, possível - reeditar o tom e o conteúdo dos debates que conduziram à aprovação, promulgação e publicação da Lei nº 6/84, de 11 de Maio.

Não se trata só da natural e muito evidente diferença de protagonistas e de contextos.

A verdade é que hoje em dia:

ninguém propõe a revogação do quadro legal gerado em 1984 - e o regresso ao proibicionismo típico do Código Penal de 1886;
ninguém propõe a proscrição do planeamento familiar e da educação sexual - e o regresso ao tempos distantes em que, num Portugal amordaçado, a lei proíbia a divulgação de contraceptivos;
ninguém sustenta a aplicação em Portugal de políticas de Estado coercivas tendentes a impor à mulher e aos casais seja a limitação seja o aumento do número de filhos (seriam, de resto, inteiramente inconstitucionais e contrárias aos compromissos internacionais assumidos pela República portuguesa) (2);
não faz nenhum sentido reduzir o debate a um cruzar violento de acusações de "indiferença perante as questões fulcrais da vida" ou de "insensibilidade ao enorme sofrimento causado às mulheres portuguesas pela persistência do aborto clandestino", como se fosse possível ao legislador reconhecer a alguém um monopólio da sensibilidade, da verdade e da razão ou tornar-se ele próprio militante desse cruzar de cruzadas.
Aliás, adversários e opositores da ampliação do actual quadro legal podem encontrar-se, sem quebra de convicções recíprocas, no tocante a temas cruciais.

Estão neste caso as questões de prevenção do aborto e do seu não uso como meio contraceptivo, a definição de medidas tendentes ao cumprimento das disposições que protegem a maternidade livre, consciente e voluntária ou a adopção de soluções que ponham fim à penúria de indicadores sobre aspectos relevantes da situação nacional em matéria de saúde feminina. (3);

4. Fundamental é que sejam exactamente delimitadas e discutidas, de forma pluralista e democrática, as questões que verdadeiramente carecem de ser decididas.

De facto, desde 1984,as soluções legais então aprovadas em Portugal viram alteradas as fronteiras da sua aceitação e rejeição social.Ampliou-se muito a primeira, diminuíu a segunda. (4);

Nos muitos anos já decorridos desde a entrada em vigor da reforma legislativa, ocorreram tantas e tão fundas mudanças que o fim do século ocorreu antecipadamente.Para além das desejáveis e inevitáveis diferenças de opiniões, existe hoje uma cultura comum a diferentes correntes de pensamento em torno de questões que outrora eram tabú e, só por si, ajudavam a definir com clareza as várias famílias políticas.

É assim que ninguém pensará hoje em menorizar ou valorizar o sofrimento humano em função da origem de classe da mulher que sofre ou da cor da sua pele, nem razoavelmente se fundará neste ponto o traçar das grandes fronteiras político-ideológicas do nosso tempo.

Faz, sem dúvida, parte da História aquele certeiro verso com que a deputada Natália Correia assinalou o dobrar de página da nossa vida legislativa em 1984. (texto integral em http://www.ps.parlamento.pt/documentos/ivg/relatorio/relatorio.html#I - INTRODUÇÃO)

Nunca julguei que o impasse pudesse subsistir ...em 2004.
publicado por quadratura do círculo às 19:05
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