Quinta-feira, 6 de Outubro de 2005

Neusa Henriques - Questões ao Estado

Nascida em Moçambique fui logo aos dois anos privada de um futuro que deveria ter sido risonho e próspero como sempre os meus pais sonharam e como sempre suspirei nunca ter tido.
Mas como o que nos é desconhecido não nos faz falta também fui deixando ao longo dos anos de sonhar com o que podia ter sido e centrando-me em conseguir o que poderia ter.
Aos 32 anos não cheguei longe. Desempregada porque não compactuei com mentiras e deslealdades para com Segurança Social, Finanças e afins porque sendo cidadã portuguesa de pleno direito não admiti desvios e enganos para com a pátria.
Contudo a vida muda e as prioridades também e um filho muda mais ainda. Não pensei mudar tanto até porque nunca tive instintos maternais e nunca acreditei em (ma)paternalismos. Mas o filho veio porque até fica bem na sociedade e depois de cá estar só pensei: porque não fiz isto antes?? A árvore plantei-a quando andava na escola, o livro escrevi-o no liceu como toda a malta pseudo-revolucionária dos anos 80. O filho chegou em 2004.
Com ele surgiram problemas que nem sabia ser possíveis de existir: creches??? Mas então o estado não fala algures na constituição que a educação deve ser acessível e gratuita para todos?? Não, para os bébés não é, a necessidade de educação só surge por aquilo que percebi a partir dos 6 anos quando vamos para a primária ou ensino básico como se chama agora. Até lá as crianças não existem. Talvez por isso se diga que não nascem bébés suficientes em Portugal.
Voltando à questão deste comentário: o Estado não sabe o que são creches nem que são precisas. Em Odivelas, um conselho com cerca de 200.000 habitantes, onde resido, há uma. Estou a falar de uma valência para crianças dos 4 meses aos 3 anos. Na legislação consta que (por exemplo) num berçário (bébés de 4 meses a 1 ano) o número máximo é de 8 bébés. Assim Odivelas tem apenas 8 bébés em 200.000 habitantes!!!! Infantários, para a valência de 3 a 6 anos, existem cerca de 10 (não será o número correcto mas falho por 1 ou 2). Em cada sala podem estar cerca de 20 crianças. Façamos contas: 20 crianças x 3 salas x 10 jardins de infância. Logo existem em Odivelas cerca de 600 crianças dos 3 aos 6 anos. Volto a referir em 200.000 habitantes.
Ora sendo eu até há 3 meses atrás uma trabalhadora de uma empresa privada a ganhar razoavelmente bem para quem tinha apenas o 12º ano (850€ é muito razoável em Portugal) e pagando atempadamente os meus impostos, deduções, acréscimos e outros decidi nada exigir ao Estado para quem pago e retirar do meu orçamento 300€ mensais para colocar o meu filho numa creche particular. Uma creche que visitei 2 vezes antes de tomar a decisão e que por comparação com várias outras foi aquela que apresentou as melhores condições (mesmo se comparada com instituições públicas!!!). Deixei o meu filho lá no dia 3 de janeiro de 2005, com 5 meses e até hoje não houve um único dia que me preocupasse com a sua segurança. Nunca! Sabia que ele estava com a segunda família.
Há pouco tempo fui confrontada com a decisão da entidade reguladora destes espaços (Segurança Social) que iria proceder ao encerramento da creche a partir de 30 de Setembro de 2005. Não questiono as razões. Certamente a lei está do lado deles mas questiono a integridade de um Estado que se diz justo de me retirar a alternativa que assumi custear sem nunca ponderar exigir que este assumisse a sua responsabilidade na educação de um dos seus cidadãos mais novos!
Questiono a integridade de um Estado que dá poder a quem não o sabe gerir para depois assumir posições de auto-promoção e prepotência apenas para beneficio do seu ego.
Questiono um Estado que representado por alguns me pede que chore e mendigue para poder continuar a pagar a particulares aquilo que em impostos já pago a esse mesmo Estado.
Questiono um Estado que da boca de certos representantes me diz que para obter algo temos de dar algo. O Estado compra-se? Em que quantidades?
Questiono um Estado que se dispõe a resolver o problema porque chorei e implorei aos seus "chefes" que com os seus poderzinhos me façam o favor de esquecer a lei.
Questiono um Estado que me pede para o corromper e subornar.
Questiono um Estado podre e mentiroso.
Questiono um Estado que piza e humilha.
Questiono o Estado português porque não sou corrupta nem acredito em favores!!
Neusa Henriques


publicado por quadratura do círculo às 17:21
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