Terça-feira, 1 de Março de 2005

Paulo A. Boavida - Imprensa e País

A comunicação social tem, hoje em dia, o poder de dizer o que quer. E por isso mesmo, o poder de fazer chegar às pessoas a notícia ou o artigo que julgam ser do interesse do público. Mas por vezes o nosso interesse não é colocado à frente do interesse de determinado orgão de comunicação. Sem pretender ter a ilusão que os próprios orgãos de comunicação não têm os seus interesses e lobbies, acho que se devia discutir até que ponto é que devem ser admitidas determinado tipo de notícias e comportamentos por parte de quem tem o poder de fazer chegar a todo o país aquilo que diz ou que escreve. Não se trata aqui de reduzir a liberdade de imprensa, mas sim de tentar educar a imprensa no sentido desta parar de ir sistematicamente contra os interesses do país, servindo apenas os seus. Procurarei justificar este pensamento. É de senso comum que é mais fácil criticar decisões do que tomá-las. Isso resulta da própria definição de crítica, em que a mesma só faz sentido se existir um objecto sujeito a ser criticado. Sem objecto não há crítica, nem espaço para críticos. Em boa verdade, o objecto de grande parte da imprensa são os políticos, e a actividade de os criticar estará sempre em voga. O que acho que era necessário era que a imprensa em geral tivesse aquilo que tantas vezes pede aos políticos quando os critica. Sentido de Estado. Que fosse menos sensacionalista, menos subjectiva, e mais séria. Todos sabemos que vivemos um período de crise económica grave, mas não seria correcto reavaliar o impacto que tem num país como o nosso a abertura sistemática de telejornais com notícias de desemprego, crise financeira e criminalidade, nunca no sentido de mascarar a realidade, mas para que não se torne a realidade que de facto temos numa que é ainda pior? Se bem se lembram, Durão foi muito criticado por ter insistido nos seus discursos no facto do país estar a atravessar uma grave crise financeira. Pelo seu tipo de discurso relacionado com a crise económica, e com gravoso estado das finanças, choveram críticas alertando para o impacto nefasto que um discurso alarmista e pessimista pode ter sobre o estado da economia. Ou seja, que dizer tantas vezes mal da economia pode ter a consequência de a tornar ainda pior. À semelhança deste exemplo, pretendo estabelecer um aqui um paralelismo com a práctica recorrente da imprensa em dizer mal dos políticos. Considero que determinado tipo de episódios repetidos por vezes até aos limites da exaustão pela imprensa são o tipo de factor que catalisa a descrença na classe política de que por todo o lado se vai padecendo. Vejamos o que se passou nos últimos meses de governação PSD/CDS. Aconteceu por vezes declarações de ministros estarem desfasadas. Um dizia uma coisa, e logo depois outro dizia que afinal não era bem assim, em pelo menos meia dúzia de episódios com outros tantos desmentidos e declarações. Sendo grave e revelador de perturbante descoordenação no aparelho de estado, foi algo tão emploado, tão extremado, tão debatido até à exaustão na imprensa que o Presidente da Républica se sentiu na obrigação de dissolver o governo. Não querendo aqui dizer que o Presidente da Républica se deixa influenciar pelos jornais que lê durante o dia, pretendo dizer que se criou no pais um movimento de crise governamental da pior espécie catalisada pela imprensa, que muito objectivamente foi aliçercado em meia dúzia de declarações contraditórias. É estranho que tal possa acontecer mas acontece, e era bom que se entendesse que crises governamentais não interessam a ninguém muito menos nos tempos que correm. A imprensa não pode fugir a algumas responsabilidades que tem no estado geral das coisas hoje em dia, em plena era da informação. Todos sabem do impacto que ela tem e o quanto podem influenciar o pensamento e o comportamento das pessoas que através dela contactam com a realidade que as rodeia. É muitoimportante que para o crescimento cultural que a imprensa também se renove, e se mantenha em actualização mas com mais consciência da responsabilidade que lhes deve ser assacada pelo desânimo com que muitas vezes se vive, só porque dizer mal dá mais share no final do dia.
Paulo A. Boavida


publicado por quadratura do círculo às 17:44
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