Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2005

Mário Martins Campos - Vencedores e vencidos

Hoje é dia de festa (ou não), analise e recuperação do folego, que muita falta irá fazer ao nosso País.
Passando a festa, para outros contextos e deixando a retempera para outra ocasião, passemos à analise.
Antes de me deter com os resultados, gostaria de deixar aqui duas reflexões.
A primeira tem a ver com a quebra de um ciclo de diminuição da participação dos Portugueses, nos actos eleitorais (e na contribuição cívica em geral), que me parece ser a resposta clara, ao nível de preocupação que se vive com o rumo de Portugal, e com a consciencialização da existência de uma solução para mudar o destino do País.
A segunda, tem a ver com a constatação que o Presidente da Republica figurará, sem dúvida, no quadro dos vencedores destas eleições. Foi dele a decisão de as convocar, foram dele os argumentos para o fazer e foram contra ele os maiores ataques (nem sempre respeitosos) feitos à sua decisão. O PR analisou a situação política nacional, e sentiu que o País se sentia desconfortável com a situação de equilíbrio instável vigente. Decidiu. E o País deu-lhe razão.
Passando agora para a análise dos resultados e dos comportamentos.
Do lado dos derrotados, existem três rostos. Dois visíveis e um vergonhosamente escondido. O de Durão Barroso.
Santana Lopes foi o rosto da maior derrota, que ontem sucedeu. Foi ele quem perdeu, porque não teve capacidade para ganhar. Assumiu a pesada herança de Barroso, e não consegui livrar-se dela. Santana é um político intuitivo, audaz, capaz de mobilizar e motivar paixões, mas provou que isto não chega para ser um bom primeiro-ministro. Ele não conseguiu liderar o governo, do ponto de vista político, e viu-se enleado na sua própria teia de desnorteio e "casos-quase-diários". A campanha acentuou o desnorte, e cada dia que passou havia um erro de palmatória a apontar na estratégia seguida.
Ontem, quando subiu ao palanque, em frente a si, lia-se "Coragem de Fazer", mas mesmo assim ele não consegui fazer aquilo que lhe era pedido. Demitir-se.
Santana tem qualidades pessoais, que são únicas no espectro político nacional, as suas capacidades humanas, vão muito para além das suas capacidades políticas, e foram essas capacidades que ontem o traíram. Santana não consegue virar a cara e assumir a derrota, está na sua génese continuar a lutar, mesmo depois de derrotado, e ontem provou-o, da pior forma. Existem qualidades das pessoas, que quando utilizadas fora de tempo e modo, se tornam defeitos.
Paulo Portas foi outro dos rostos da derrota. Fez uma campanha inteligente e capaz de elevar as suas expectativas eleitorais. Conseguiu de forma hábil demarcar-se das responsabilidades daquilo que pior correu no governo, nos últimos 3 anos, e fingir que não tinha mais responsabilidades que Santana, naquilo que estava em avaliação nestas eleições.
O PP tem méritos que não lhe podemos tirar. Conseguiu ser a grande surpresa no governo, no que à lealdade e à estabilidade dizem respeito. Paulo Portas provou que pode ser um homem de estado, e que tem mais apetência para esse estatuto que o próprio primeiro-ministro. No entanto, em oportuno momento, Sócrates fez lembrar aos Portugueses que o Portas desta campanha, era o mesmo que era ministro de estado e número dois, dos governos que se encontravam em avaliação. O eleitorado percebeu isso, a tempo, e penalizou-o.
Portas, fixou claramente as suas metas eleitorais. Não as alcançou, e como tal, soube tirar as devidas ilações, demitindo-se de forma digna e emotiva. Portas é o exemplo de quem construiu a sua vida política, pelas suas próprias mãos. Ele tem o mérito, de um percurso construído a pulso, que culminou com a chegada ao governo. E por isso a emoção no momento da derrota, de uma vida dedicada a este projecto, é perfeitamente justificável e dás-nos a garantia, que por detrás da posse de estado, existe um homem de bom fundo humano, graças a Deus.
Ontem, teve o comportamento que se esperava de um homem de estado, mas sobretudo de um homem de carácter e verticalidade. No seu partido, todos estão com ele, ninguém pediu a sua cabeça, e mesmo assim, ele tirou a correcta conclusão que o seu tempo chegou ao fim. Como ele próprio disse, foi Deus que o aconselhou a fechar a porta. Há que elogiar o conselho divino, mas sobretudo há que elogiar a atitude terrena.
Durão Barroso é um perdedor, vergonhosamente escondido, no seu recanto de Bruxelas. É ele um dos principais culpados desta derrota eleitoral do PSD. Foi ele que deixou um legado a Santana Lopes, do qual não se deve orgulhar. Barroso foi para Bruxelas, e de repente virou o arauto da competência e senhor de todas as virtudes, onde antes se encontrava a falta de capacidade política e governativa. Os indicadores sócio-económicos não enganam, e não são tão reactivos, que se possam atribuir as culpas a Santana Lopes.
Por isso, foi com incredibilidade, pela falta de pudor político, que vi Durão Barroso, aceder dar o seu apoio ao PSD, num tempo de antena de 30 segundos, como se tratasse de um grande favor, perante o qual o PSD lhe devesse ficar grato, quando não fez mais do que a sua obrigação. Uma vez quebrado, e bem, o escudo institucional de presidente da comissão europeia, deveria ter levado a sua participação a maiores níveis de solidariedade, para com Santana, e deveria ter deixado claro, que também ele estava a julgamento nestas eleições. Um bocadinho de humildade e pudor faziam falta a Barroso.
O Partido Comunista e Jerónimo de Sousa conseguiram ontem uma meia-vitória. Aumentaram a sua votação, quebraram um ciclo de perdas eleitorais, mas não conseguiram evitar a maioria absoluta do PS, e com isso ganharem peso na condução das políticas, que governarão Portugal nos próximos quatro anos. Jerónimo é pois um vencedor do ponto de vista pessoal. A sua genuinidade foi certamente a chave de toque do resultado eleitoral. Seria interessante saber qual o impacte positivo que a sua falta de voz, no debate a cinco, teve sobre o resultado. Os Portugueses, são uns corações moles, e ficam muitas vezes do lado do mais fraco.
O Bloco é um vencedor. Podia da mesma forma que faço para o PCP, e com o mesmo argumento, dizer que são meio-vencedores, mas não consigo classificar dessa forma quem teve o incremento eleitoral, que o Bloco teve. O Bloco e Francisco Louça são indissociáveis. Ele é o rosto e a voz deste projecto, que se está a cimentar, e a deixar de ser um conjunto de partidos desavindos, da esquerda radical, para passar a ser um projecto político consubstanciado. O estilo radical, muitas vezes desagradável e pouco apropriado, fazem do Bloco o nicho eleitoral daqueles que se vêem desiludidos com a política e os políticos. Depende pois, do comportamento destes, a evolução positiva ou o definhar deste projecto político. Quanto melhor for a imagem da política e dos políticos, menor será a expressão do Bloco, pois menor será a necessidade de existência de um voto de protesto.
José Sócrates é o grande vencedor. Com mérito, conseguiu construir uma alternativa de governo, em pouco tempo, envolvendo não só o partido, como toda a sociedade civil, que se revê num projecto político de matriz social-democrata. Apresentou um bom programa de governo e espera-se que apresente um bom executivo. Conseguiu apresentar um projecto político, que fez renascer em Portugal a esperança e a confiança no futuro. Os Portugueses sabem que é possível fazer melhor, e viram no projecto do PS a alternativa ao rumo que o país seguia. O voto no PS foi extremamente expressivo, e não deixou margem para dúvidas, que se tratou de um voto de confiança, muito para além de um simples voto de penalização do governo.
Com o resultado eleitoral alcançado, o PS tem agora tudo para governar o País. Tem todos os melhores quadros do partido disponíveis e solidários, bem como o que de melhor existe na sociedade civil, na área da social-democracia, igualmente disponível e empenhado. Cabe agora, a José Sócrates, a grande tarefa de conseguir levar Portugal no rumo que todos desejamos e cabe à sociedade civil estar atenta e participativa, pois só com o contributo de cada um, será possível levar Portugal a bom porto. Todos nunca seremos demais!
Mário Martins Campos





publicado por quadratura do círculo às 19:21
link do post | comentar | favorito
|

.pesquisar

 

.Fevereiro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28


.posts recentes

. Carlos Andrade - Suspensã...

. Carlos Andrade - Suspensã...

. Teste

. João Brito Sousa - Futecr...

. Fernanda Valente - Mensag...

. António Carvalho - Mensag...

. João G. Gonçalves - Futec...

. J. Leite de Sá - Integraç...

. J. L. Viana da Silva - De...

. António Carvalho - Camara...

.arquivos

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds