Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2005

Paulo Jorge - Voto de Medina Carreira

O artigo do fiscalista Medina Carreira, “a verdade não mora aqui”, publicado no Público de 01 de Fevereiro é arrasador. Só é pena que sejam poucos os ilustres da nossa praça que após uma reflexão sobre a gravidade dos índices económicos e sociais venham ser consequentes nas suas análises e dizer publicamente em quem não votam, preto no branco. O que significa para a maioria dos portugueses uma percentagem do PIB? E o que significará para estes portugueses quando alguém como o Prof. Medina Carreira diz não votar no PS nem no PSD?
Infelizmente, nós portugueses temos a classe política que merecemos, temos os partidos que merecemos. Estamos perante verdadeiras máquinas de pensar comum que estimulam a conformidade com a regra, que vivem do sentimento de unanimidade, que pretendem passar a imagem da coesão (mito), e nestas condições comprometem definitivamente a qualidade das decisões com impacto na vida dos portugueses. Mas mais grave, a qualidade dos decisores também não ajuda. Não nos resta alternativa senão confiar o poder a especialistas, a quem compete o cuidado de decidir sobre um conjunto coerente de opções económicas, sociais, etc.… Mas que especialistas? Quem se perfila perante a nossa necessidade de confiar? São as juventudes partidárias, fieis reprodutores de modelos de comportamento, fonte de credibilidade presente e futura? A 20 de Fevereiro seremos chamados a designar representantes estranhos, sem poder, enrolados numa lógica de favores particulares para obter o máximo com o menor esforço, ou seja, a reeleição. Como é que estes actores podem estar de boa fé nestas condições? Que contributos podem eles dar e que podemos esperar deste sistema? Onde estão as pessoas dignas de respeito, reputadas, que deram provas nas actividades mais comuns da vida? São os partidos que apregoam “menos estado e mais mercado”, os próprios a baralhar a própria lógica deste, a começar pelos seus modus operandi. Falta uma ética da discussão em Portugal.
Mas falta igualmente justiça e moral em Portugal. Somos um país de novos ricos, em bicos de pés, que compra submarinos, onde se pagam reformas que são autênticos atentados à solidariedade em momentos de grande dificuldade. Como é que se justifica que em empresas sustentadas pelos contribuintes se paguem ordenados de dezenas de milhares de Euros, bem acima da média europeia? Somos um país onde os seus responsáveis têm, em nome da liberdade, liberdade para determinar e utilizar o que sabem para chegar aos seus objectivos, sem preocupação em limitar as consequências nefastas das suas escolhas, que terão a curto e médio prazo de ser suportadas pelos mais desfavorecidos, imerecidamente como afirma Medina Carreira. Não há responsabilidade solidária nem justiça nos princípios. Os partidos, os seus actores (a classe dirigente) e clientelas não estão nada preocupados em realizar Portugal na União Europeia. Não sentem essa necessidade. A EU tem sido uma “coisa” para fruir. Como é que nos poderemos sentir responsáveis pelos Suecos e esperar que estes se sintam responsáveis por nós quando nem sequer somos responsáveis por nós próprios? Como aspirar a salários equivalentes nestas condições? Afinal, quem, em Portugal, aspira a melhores salários?
Também falta a Portugal estabilidade, dizem-nos. Significa isto que, mesmo que as instituições do poder mudem, permaneçam ainda assim as condições para que tudo, na sua essência, se mantenha inalterado. Sejamos claros: não falta estabilidade para mudar o que tem de mudar. Mais do que mudar de políticas, Portugal precisa de mudar estes políticos, porque se é importante a nossa preocupação com os fins a que cada partido se propõe para Portugal, mais importante são os princípios que lhes estão na origem. Precisamos de pessoas com princípios, íntegras. A estabilidade que se quer, serve apenas para reproduzir o modelo de sucessão, ou seja, permitir aos que vêm a seguir a manutenção do sistema para que os primeiros voltem um dia mais tarde. Eis a cooperação daqueles que melhor sabem usufruir do sistema. E preparam-se já para querer maiorias absolutas com o mínimo de votos, à revelia do poder daqueles que votam. Enfim, a cada dia que passa não faltam razões para que os portugueses se abstenham em participar numa ordem fabricada, oligárquica, fruto de uma democracia cada vez mais mascarada, mesmo sob o patrocínio dos defensores da Liberdade em Portugal, com altas responsabilidades neste país.
O artigo do Prof. Medina Carreira veio em bom momento. Oxalá os portugueses que não sabem o que querem, sejam consequentes a partir daquilo que sabem não querer. Para estes, o voto em branco é sempre uma opção.
Paulo Jorge

publicado por quadratura do círculo às 19:12
link do post | comentar | favorito
|

.pesquisar

 

.Fevereiro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28


.posts recentes

. Carlos Andrade - Suspensã...

. Carlos Andrade - Suspensã...

. Teste

. João Brito Sousa - Futecr...

. Fernanda Valente - Mensag...

. António Carvalho - Mensag...

. João G. Gonçalves - Futec...

. J. Leite de Sá - Integraç...

. J. L. Viana da Silva - De...

. António Carvalho - Camara...

.arquivos

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds