Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2005

Carlos Oliveira - Votar António Vitorino

Tive a oportunidade de escutar na sua quase totalidade a entrevista de António Vitorino à Rádio Renascença / Público. Confirmou a impressão que já me havia deixado há algum tempo atrás aquando duma entrevista conduzida por Maria João Avilez. Estamos perante alguém que nos reconcilia com a política e reconduzem-nos ao que ela tem de mais nobre. A sua intervenção é uma recusa ao populismo fácil tão em voga (o que explica as razões da sua não candidatura à direcção do PS). Um marcante contraste com a "cassette" dos outros líderes políticos (onde se inclui a chamada "verdadeira esquerda" - PCP e BE).
Não resisto a partilhar convosco o comentário inserido na publicação "The Europeans of the Year" (editada pelo European Voice ) acerca do ex-comissário António Vitorino. As minhas desculpas por uma tradução aproximativa que de qualquer forma reproduz o essencial dos comentários que surgem sempre que o nome de António Vitorino é mencionado nos círculos europeus.
" No one yet knows how the European Union main gain from the appointment of José Manuel Barroso as president of the European Commission but one of the drawbacks is already clear. Because Portugal could only send one commissioner to Brussels, Barroso's appointment meant Antonio Vitorino's career as a European commissioner was brought to an end. Until Barroso emerged as a compromise candidate for the presidency, Vitorino's return had been taken for granted. That some people were even talking of the possibility of a President Vitorino is testimony of the skill with which he had handled a difficult task. Justice and home affairs issues are still relatively new to the EU stage and legislative proposals frequently arouse the suspicions of national governments anxious to protect their powers. The terrorist attacks of 11 September and 11 March have increased the political pressure for anti-terrorist measures, while heightening concern about threats to civil liberties. Vitorino is in his element in this complex and sensitive environment. An adept performer during the Convention on the Future of Europe, he is alive to the sensitivities of each EU institution. He is a charmer and a negotiator, combining good humour in various languages, with knowledge of his dossiers. Once a judge in the Portuguese Constitutional Court, he knows the importance of mastering his brief. Although still just 47 years old, Vitorino has a wealth of experience. He was a member of the European Parliament in 1994, before being called back to Lisbon to become deputy prime minister and minister of defence in 1995-97. Now he is repeating the journey, but this time with no government post awaiting him. "
Ninguem sabe o que pode vir a ganhar a União Europeia com a nomeação de José Manuel Barroso para presidente da Comissão Europeia mas um dos inconvenientes torna-se já claro. Porque Portugal apenas pode enviar um único comissário para Bruxelas, a nomeação de Barroso significou que a carreira de António Vitorino como comissário europeu chegou ao fim. Até Barroso emergir como o candidato de compromisso para a presidência, a recondução de Vitorino era tida como garantida. O facto de algumas pessoas falarem mesmo da possibilidade de um presidente Vitorino é testemunho da perícia com que desempenhou uma tarefa particularmente difícil. O tema "justiça e assuntos internos" é ainda relativamente recente no cenário europeu e as propostas legislativas neste domínio suscitam reservas nos governos nacionais ansiosos de salvaguardar as suas prerrogativas. Os ataques terroristas de 11 de Setembro e 11 de Março aumentaram a pressão política no sentido de medidas anti-terroristas, ao mesmo tempo que aumentava a preocupação com as ameaças às liberdades civis. Vitorino está no seu elemento ao lidar com estas questões complexas e altamente sensíveis. Um convicto participante na Convenção sobre o Futuro da Europa está bem a par das sensibilidades de cada instituição da União Europeia. É um sedutor e um negociador, capaz de combinar o humor em várias línguas com um profundo conhecimento dos dossiers. Em tempos juíz do Tribunal Constitucional em Portugal sabe como é importante dominar os assuntos sob a sua responsabilidade. Apesar de ter apenas 47 anos Vitorino conta com uma vasta experiência. Foi membro do Parlamento Europeu em 1994, antes de ser chamado a Lisboa para se tornar ministro adjunto do primeiro ministro em acumulação com a pasta da defesa em 1995-97. Agora repete a viagem de regresso mas desta vez sem que tenha à sua espera um posto governamental.
Nem tudo está perdido! Talvez o bom senso venha a prevalecer e os portugueses tenham consciência de que não é possível continuar a menosprezar os poucos talentos que ainda existem na vida política portuguesa. Votar no PS é também votar em António Vitorino.
Carlos Oliveira


publicado por quadratura do círculo às 18:31
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