Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2005

Carla Ramalho - Retrato de Portugal

Tenho um amigo que há anos que mantém a mesma posição: “Não tenho qualquer orgulho em ser português. O facto de aqui ter nascido é um mero, mas desastroso, acidente de percurso”.
Eu, pessoalmente, sempre o tentei contrariar, evitando a velha conversa do português típico que vê o seu país como uma fábrica de produção defeituosa, enquanto que lá fora a qualidade e a decência imperam!
De qualquer forma, à medida que os anos foram passando, que a minha experiência profissional foi aumentando e que a minha consciencialização da realidade social, política e económica foi ficando mais “apurada”, apesar de não ser uma expert em nada e apenas ter 28 anos, fui tendo mais dificuldade em arranjar argumentação suficiente para contrariar este meu amigo.
É que basta prestar atenção às notícias provenientes dos diversos meios de comunicação social, aos discursos dos nossos políticos e dirigentes desportivos, ao funcionamento da nossa justiça, do sistema de saúde e ao comportamento “super-cívico”(!) da maior parte dos funcionários das repartições públicas, dando só uns míseros exemplos, para se ficar com uma sensação de que algo está … péssimo!
Este país é uma perfeita anedota!
Pergunto-me como é possível Portugal pertencer à União Europeia e ninguém, lá fora, reparar que isto aqui deveria ser estudado ao pormenor por cientistas de várias áreas?!
Pergunto-me como é que ainda mandam fundos comunitários para este poço sem fundo?!
Ainda ninguém reparou que grande parte do dinheiro que deveria servir para a estruturação do país a diversos níveis, não está a ser aplicado com este fim ou está a ser pessimamente aplicado?!
Ainda ninguém se deu conta que nesta nação não se premeiam a competência, a honradez e a honestidade?
Será que é assim tão difícil de ver que a maior parte das pessoas que ocupam cargos de relevo e de responsabilidade (de todos os quadrantes políticos), não têm o mínimo de idoneidade, sabedoria e valor para ocupar os postos que ocupam?
É que a corrupção, a incompetência, a desonestidade, a descoordenação, a improdutividade, também existem noutros países da União Europeia. Só que nestes países, ninguém é premiado por ser assim, ao passo que em Portugal é o mesmo que apresentar uma etiqueta com selo de qualidade!
Portugal é o país dos “Xicos Espertos” e do “Desenrasca-te como Puderes”. O conceito de Civismo está muito para além da capacidade de compreensão da maior parte dos portugueses e aqueles que têm o “azar” de gerir a sua vida segundo princípios e valores decentes, são apelidados de Totós, ao mesmo tempo que se lhes dá uma palmadinha nas costas ao estilo do “Coitado, este gajo está parvo!”
Os políticos brindam-nos com façanhas sublimes de bem honrarem o posto que ocupam e nós limitamo-nos a encolher os ombros. Situações como a que se passou com a Ministra da Educação, recusando-se a ir ao Parlamento por achar que não era interessante (!!) é algo de bradar aos céus! Num país “normal”, essa senhora não deveria ocupar sequer um cargo da administração pública, quanto mais ministra e, perfeitamente inconcebível, da Educação!
Existem autarquias no nosso país que são governadas por pessoas que, nem se pode dizer que sejam incompetentes. O maior defeito nem é esse, por incrível que pareça! São sim pessoas que demonstram rasgos de demência e de uma total incompetência psicológica e social para lidar com os outros, quanto mais ocupar cargos de chefia, administrar dinheiros públicos e governar uma autarquia!!
Mas em Portugal tudo parece ser normal.
O anormal é aquele que faz uma obra em casa e pede factura; aquele que mesmo podendo fugir ao fisco declara tudo o que recebe; aquele que vai ao Hospital e pede o Livro de Reclamações porque não gostou de ser ofendido pelo médico de serviço ou aquele que reage quando sente que os seus direitos não são respeitados.
Tudo o resto … é normal.
Carla Ramalho
publicado por quadratura do círculo às 19:47
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