Terça-feira, 11 de Janeiro de 2005

Fernando Redondo - Causas e projectos

Como responder à erosão da política e dos políticos ?
A política tem vivido, em Portugal, uma sequência de ciclos desgostantes e
desgastantes.
Não vale de nada insinuar, com ar superior, que as massas ao
desinteressar-se da política estão apenas a revelar a sua debilidade
cultural e cívica que os trinta anos passados sobre a Revolução já não
disfarçam.
Não, os responsáveis por esse "alheamento cívico" são principalmente os
"agentes políticos", o establishment cultural e jornalístico e, de modo
geral, os que gravitam à volta das cadeiras (e orçamento) do poder.
As festividades dos 80 anos do Dr. Mário Soares juntaram num banquete a
quase totalidade desse establishment e mostraram como, apesar das guerras
violentas em que se envolvem regularmente, os seus membros sabem reconhecer
o essencial das suas solidariedades. O povo assistiu atónito ao desfile de
figuras que julgava serem incompatíveis (aqueles 2000 notáveis que ocupam
90% do tempo opinativo das televisões e que estão sempre a ser nomeados para
qualquer coisa).
O Dr. Mário Soares é o exemplo mais acabado de uma forma de fazer política
que já se começa a tornar intolerável: o partidarismo como um clubismo, o
"ser amigo do seu amigo", a "leadalde" acima da verdade e do interesse
público, uma lógica impiedosa de poder de grupo em que os princípios já não
parecem ser o cimento aglutinador.
O Dr. Mário Soares não é o único a praticar estas artes mas é notável que os
seus 80 anos não lhe tenham ensinado a moderar-se e a ver a relatividade e
precaridade das "glórias bélicas" a que não consegue resistir.
E é por causa dessa lógica que os partidos principais se vêm alternando no
poder, ciclicamente. Sempre que um alcança o voto maioritário do povo assume
as rédeas da governação para ser de imediato sujeito aos tratos de polé da
oposição.
Numa primeira fase, quando ainda subsistem algumas ideias mais arrojadas do
programa eleitoral, a oposição trata de arregimentar todos os interesses e
corporações que se sentem ameaçados por qualquer das propostas do governo. Iniciam uma táctica que inclui barragens de artilharia na imprensa a cargo
do batalhão dos comentadores de serviço, algumas chantagens económicas, a
divulgação de meia dúzia de escândalos fiscais ou processuais da autoria dos
ministros, tudo com o objectivo de paralisar o adversário.
Quando o efeito paralisante foi conseguido e o governo fica com o ar de já
não se poder mexer em qualquer direcção inicia-se a segunda fase que
consiste em glosar a inoperância dos ministros, as contradições detectadas
nas suas declarações, e em geral trata-se da preparação do funeral político.
Uma vez feitas as eleições, sempre apresentadas como grandes viragens
decisivas para o futuro do país, os partidos que foram imolados no governo
do ciclo anterior passam ao papel de oposição e, dada a violência e
irracionalidade com que foram tratados, sentem-se no direito de ser ainda
mais demagógicos do que os seus adversários.
Como os adversários são sistematicamente diabolizados e as suas tentativas
de realizar algo sempre apresentadas como absolutamente injustificadas e
prejudiciais segue-se que cada novo governo começa, em regra, por destruir
ou ignorar as obras do anterior. A intenção de destruir as decisões dos
governos em funções inicia-se aliás ainda durante a fase de oposição e é
prometida para o ciclo seguinte da "alternância" assegurando-se assim que os
cidadãos não possam considerar "estável" qualquer legislação mesmo que
regularmente aprovada e publicada.
Não é claro quando, nem como, a esquerda se deixou resvalar para esta
desgraçada situação mas a "superioridade moral dos comunistas" ou a
seriedade "laica e republicana" tendem a converter-se em fórmulas de que só
os mais velhos se recordam ainda.
Hoje, mesmo à esquerda, impera o fulanismo, os "fait-divers", os golpes de
teatro mediáticos, os trocadilhos, a dramatização ou exagero das situações
numa verdadeira versão tablóide da política.
A reacção de Ana Gomes à decisão de Sampaio de empossar Santana, a maior
parte das declarações de Louçã sobre o caso Marcelo, o estilo de Bernardino
Soares ao comentar as questões orçamentais, são apenas alguns exemplos em
que a demagogia, a falta de sentido de Estado, e mesmo as graçolas de baixo
estofo tornam a esquerda irreconhecível para aqueles que, como eu, sempre
acreditaram que ela se distinguia pela nobreza e elevação quer dos
propósitos quer dos comportamentos.
A história mostra que os comportamentos descritos levam à destruição da
democracia. Tem que tocar algures um sino a rebate para que se verifique uma
mudança radical de atitude por parte daqueles que querem preservar a
liberdade.
É preciso acreditar que a dignidade dos comportamentos também acabará por
fazer a diferença e "render" politicamente. Quando um jornalista rasteiro
vem com uma pergunta rasteira, verdadeiramente tentadora para entalar o
adversário mas irrelevante do ponto de vista do interesse público, é preciso
recusar o engodo, reduzir a intriga às suas diminutas proporções, falar de
outra coisa.
Só quando se mostrar coragem para rejeitar a chicana política, para perder
as eleições se for esse o preço das verdades incómodas, para tirar o chapéu
ao adversário quando as suas acções são positivas é que poderá começar um
novo ciclo na política portuguesa.
Para isso faltará talvez encontrar uma alternativa para os partidos como
base em que assenta a democracia. Os partidos, pela sua própria natureza,
geram clubismo, cegueira sectária e distribuição de favores.
Não seria muito mais natural as pessoas associarem-se a causas e projectos,
de acordo com as suas inclinações, do que filiarem-se em instituições com as
quais nunca se identificam completamente. Quem, por exemplo, seja
simultaneamente contra a liberalização do aborto e contra o pacote laboral
não encontra nenhum partido com que se identificar.
Virá o dia, estamos certos, em que as pessoa serão militantes de causas e
projectos e não de partidos. Em que os boletins de voto pedirão a cruzinha
não em bandeiras partidárias mas sim em causas e projectos.
Fernando Redondo
publicado por quadratura do círculo às 18:49
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