Quinta-feira, 4 de Maio de 2006

Fernanda Valente - Discurso do PR

O discurso do Sr. Presidente da República aquando das comemorações do 25 de Abril, veio colocar a questão da legitimidade da utilização de um símbolo evocativo de um determinado momento histórico, quando o sonho de uma Nação se esfumou num horizonte de incertezas, e perante a crescente degradação da condição humana em parte motivada pela inoperância de um sistema que passadas três décadas, se resume, grosso modo, à mera disputa pelo poder. A revolução de Abril que, entre outros, permitiu a ascensão da pequena burguesia ao poder – hoje figuras políticas proeminentes e de destaque no plano sócio-económico interno -, e o período subsequente, mais não tem do que sido palco de “sangrentas” lutas ideológicas e inter-partidárias entre as várias facções políticas, cujos feitos assinaláveis têm sido o desferir de profundos golpes na coluna vertebral deste país.
A ausência do cravo na lapela do Sr. Presidente, não obstou a que o tema principal do seu discurso fosse a exclusão social em todas as suas vertentes, motivada pela “persistência da pobreza”, pelo” baixo nível de escolaridade” e pelas “situações de dependência” que se prende com o alcoolismo e o uso indiscriminado de estupefacientes (desde o valium à heroína). E, enalteceu, muito a contra-gosto da oposição reconhecida como sendo a sua família política, “o esforço que o Estado tem vindo a realizar para atenuar os efeitos deste quadro social” que “tem que ser continuado”. Não pretendendo eu desvirtuar as boas intenções do Governo quanto à recente criação das Unidades de Serviços Continuados de apoio aos idosos, espero que a esta medida se lhe sigam outras, como seja, por exemplo a regulamentação e fiscalização dos lares de idosos, autênticos corredores da morte, sejam eles públicos ou privados, edificados em zonas urbanas ou no interior, em que os médicos, para além de não terem qualquer formação em gerontologia carecem de especialização outra que não seja a da medicina básica, permitindo-se diagnosticar e medicar idosos detentores de doenças do foro neurológico, desconhecendo, à partida, o efeito dos medicamentos que prescrevem nesses doentes. Como se isso ainda não bastasse, são coniventes com o uso generalizado do sedativo, que normalmente é ministrado pela assistente social que, porque a sua formação académica é considerada de nível superior, tem o alto desígnio de se substituir ao médico o qual, por sua vez, e dado o acúmulo de funções, delega nela a gestão desta complexa praxis. A partir de uma leitura de extrapolação de funções, por parte de um funcionário que deveria ser a pedra basilar de uma instituição desta natureza, incorre-se na inexistência de um serviço social de qualidade de apoio ao idoso, por sua vez configurando a prestação de um serviço médico de péssima qualidade.
O Sr. Presidente, através do seu discurso, deu uma lição a todos os políticos sem excepção. Impõe-se agora a seguinte questão: foi este um discurso de esquerda proferido por um homem de direita numa tentativa de deriva política populista, ou o discurso conveniente que traduz o sentimento de todos nós portugueses perante um quadro de injustiça social a que os nossos governantes se têm mostrado insensíveis e omissos, proferido por um patriota, exemplar homem de Estado que remete a ideologia para o seu devido lugar?
Fernanda Valente

publicado por quadratura do círculo às 19:58
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