Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2004

Joaquim Guerreiro - Gravuras em perigo

Os petróglifos pré-históricos de Lanhelas (Caminha) são constituídos por diferentes séries de motivos geométricos e zoomórficos (equídeos e cervídeos) e foram apresentados à comunidade científica por Abel Viana, em 1929, num artigo publicado na revista Portucale. Isto, após um aturado trabalho de campo efectuado a partir de 1922 naquele concelho, e em contacto com investigadores galegos que operavam na outra margem do Minho, designadamente na prospecção do Castro de Santa Tecla (A Guarda).
Estas importantes gravuras rupestres encontram-se agrupadas essencialmente em duas superfícies graníticas autónomas, a Lage das Fogaças e a Lage da Chã das Carvalheiras, sitas na vertente setentrional do monte Góios e distantes entre si cerca de centena e meia de metros. A primeira foi classificada em 21.12.1974 como Monumento Nacional; a segunda está em vias de obter distinção análoga, sendo já conhecido o despacho, nesse sentido, do Presidente do Instituto Português do Património Arquitectónico. Outros rochedos insculturados foram ainda referenciados na mesma vertente do monte Góios, por Abel Viana, embora actualmente de acesso impraticável. Em Maio passado, num último rastreio efectuado por duas arqueólogas, novos vestígios arqueológicos foram inventariados nas imediações dos primeiros achados.
Com o traçado de ligação do IC1/A28 à EN 13, lanço Viana do Castelo/Caminha, proposto pela Euroscut Norte, a empresa concessionária da construção e exploração da referida auto-estrada, é um notável conjunto artístico que corre risco de destruição, deterioração grave, ou, na melhor das hipóteses, de desarticulação enquanto sítio arqueológico com interesse cultural, didáctico e turístico. De facto, a mencionada estrutura viária deverá rasgar as encostas poente e setentrional do Góios e introduzir-se no espaço que medeia entre as citadas aflorações rochosas onde se inscrevem as gravuras, violando o seu perímetro de protecção. Com as extensas escavações laterais indispensáveis à obra e os vultuosos taludes necessários para a sustentação de uma rodovia com forte declive, de cinco faixas de rodagem, os perigos de destruição e/ou separação brutal daqueles diferentes núcleos são mais que previsíveis.
É este previsível cenário, atentatório de um património a exigir protecção e divulgação, que não podemos aceitar! Tanto mais que a qualidade formal e significado dos elementos insculturados das lages de Lanhelas, “belíssimas fragas com gravuras rupestres”, segundo escreve o arqueólogo Armando Coelho Ferreira da Silva, desde cedo foram reconhecidos como testemunhos ímpares da arte rupestre em Portugal e em todo o Noroeste peninsular.
Logo a seguir a Abel Viana, ainda na década de 1920, Eugénio Jalhay, o investigador que primeiramente divulgou os vestígios da arte rupestre da costa Sul da Galiza, visitou os petróglifos de Lanhelas e procedeu à sua análise. Mário Cardoso, igualmente as considerou nos seus trabalhos. Com a expansão dos estudos arqueológicos nas últimas décadas, o interesse pelos mesmos monumentos avolumou-se. Entre outros estudiosos, é de referir a contribuição de Farinha dos Santos (1972), Armando Coelho Ferreira da Silva (1986), F. J. Costas Goberna, P. Novoa Alvarez, R. Fábregas Valcarce, Richard Bradley (1993/1997), Eduardo Jorge Lopes da Silva, e ainda António Baptista Martinho. Este último, em informação endereçada em 17/06/2004 ao Instituto Português de Arqueologia para avalizar a qualificação da Lage das Carvalheiras como Monumento Nacional, a exemplo da Lage das Fogaças assim classificada, sublinha que as duas rochas, datadas da 2ª metade do 3º milénio a. C. ou ainda anteriores, albergam o “maior número de exemplares zoomórficos do ciclo de arte rupestre galaico-português detectados em território nacional, bem reconhecíveis pela sua particular técnica de execução e desdobramento tipológico”, e conclui recordando a “raridade dos motivos zoomórficos deste ciclo artístico em território português”.
Com a abertura do núcleo arqueológico da Biblioteca Municipal de Caminha e o surto de interesse que a arqueologia vem despertando no país, sem esquecer as motivações histórico-culturais de muitos dos estrangeiros que visitam a região, o número dos interessados pelos testemunhos da cultura pré-histórica existentes em Lanhelas cresceu de forma notória. Já não são apenas arqueólogos e outros estudiosos, mas um diversificado leque de visitantes a procurar o local. Assim, para corresponder a este movimento de interesse e garantir a efectiva preservação das gravuras, a musealização do sítio tornou-se um imperativo para a autarquia lanhelense.
Ora com o incompreensível traçado da ligação do IC1/A28 à EN 13 (não enumeramos aqui outros impactos negativos nem aludimos às propostas alternativas de traçado perfeitamente viáveis e já apresentadas), este projecto de musealização não poderá ser viabilizado e as gravuras correm sério risco de serem irremediavelmente destruídas ou danificadas.
Depois da destruição por incúria e ignorância dos petróglifos de Carreço (Viana do Castelo), também no quadro da abertura de uma estrada – mas no ano já distante de 1937 –, será que vamos assistir de novo a um crime patrimonial friamente premeditado ficando o distrito e o país despojados de alguns dos seus testemunhos artísticos pré-históricos mais notáveis que lhes restam? Ou será que basta contemplar as réplicas de gesso das gravuras, em exibição no núcleo museológico de Caminha, para satisfazer o conceito de preservação do património, deixando os originais à mercê das retro-escavadoras e dos aterros?
Assim, apreensivos e expectantes, não podemos deixar de subscrever as palavras que encerram um texto de contestação do traçado remetido ao Ministério do Ambiente por uma associação ambientalista local: “os rústicos antepassados de que nos orgulhamos, embora movidos por necessidades prementes, contemplaram-nas [as fragas] fascinados pela sua singela e intemporal beleza e respeitaram-nas. Os “cultos” tecnocratas do século XXI, sem réstia de respeito ou remorso, aprestam-se a pô-las em perigo senão a destruí-las”.
Não é isto que é desejável! Não podemos imaginar que as autoridades competentes deixem passar em claro tamanho atentado. Para a auto-estrada é possível encontrar facilmente outras soluções. As gravuras, essas, têm que ser protegidas intransigentemente e devem manter-se de fácil acesso para quem as visita. Pelo que, a preservação dos petróglifos e a musealização do sítio é o que defendemos, constituindo a única solução compatível com uma política patrimonial consequente.
Joaquim Guerreiro

publicado por quadratura do círculo às 19:47
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