Segunda-feira, 18 de Setembro de 2006

José Carmo - Teoria da conspiração

A propósito do 11 de Setembro, têm vindo a lume as mais desencontradas e delirantes “explicações”, conhecidas genericamente como “teorias da conspiração”, tal como foi (...) referido por Pacheco Pereira na RTP1.
Há-as de todos os tamanhos e feitios, contradizendo-se frequentemente umas às outras.
Uns dizem que foi o Bush , outros que foi a Mossad , outros que foi a maçonaria, os chineses, a extrema-direita, os illuminati , os aliens , etc. etc. .
Ele são as “explosões controladas”, ele são “mísseis no Pentágono”, etc. , etc. . Tudo isto tem explicações racionais, mas que pouco importam aos fanáticos das teorias da conspiração FTC ).
Se alguém se atreve a usar uma simples tesoura de Occam , e manifesta opiniões contrárias ao mainstream conspiracionista , ou é rotulado de profundo ignorante ou, caso tenha credenciais e argumentos inatacáveis, torna-se imediatamente membro da conspiração bushista , capitalista, sionista da nova ordem, para o domínio global.
O que não é surpresa nenhuma. O “racional” deste tipo de teorias, é que estão sempre certas, qualquer que seja o argumento que as rebata. São do tipo religioso, portanto imunes aos factos, o que implica que, para absorverem todos os factos que as contraditam, precisam de fagocitar os mensageiros desses argumentos, aumentando constantemente o universo dos conspiradores.
No fundo os FTC raramente afirmam o que quer que seja...limitam-se a “fazer perguntas”.
É como eu chegar ao restaurante e perguntar em voz alta ao empregado se hoje a sopa não tem moscas, ou se não foi ali que há dias houve uma intoxicação alimentar.
Aos FTC não lhes interessa discutir racionalmente as questões, porque eles já sabem à “priori”, por revelação, tudo o que precisam de saber. Quando pensam ter um argumento racional e factual, usam-no como se fosse o ás de trunfo. Assim que alguém logra desfazer esse argumento, explicando o acontecimento de uma forma mais simples e lógica, recusam-se a integrá-lo na teorização e partem de imediato para a descredibilização de quem lhes desfez o argumento.
No fundo os FTC invertem os termos do conhecimento científico e, a montante dos factos, começam por fazer um juízo moral subjectivo em que identificam os “maus”. Só depois vão atrás, juntando as peças que suportam esse juízo e ignorando as que o contradizem.
De um modo geral, os FTC encaram a história como resultante de decisões secretas de grupos tenebrosos cujo propósito é dominar a terra. Há FTC em todos os quadrantes políticos, mas todos eles convergem no modo delirante como interpretam o mundo e, nos tempos recentes, até na identificação do Dr. Strangelove de serviço: os EUA.
Os FTC acreditam naquilo que dizem. O seu problema não é o cinismo, mas o fenómeno que Sartre identificou como má-fé, isto é, um acreditar militante de que se é transcendentalmente aquilo que não se é facticamente (este tema está muito bem documentado em “Impasses” de Paulo Tunhas e Fernando Gil, e “Assentos”, de Fernando Gil ).
Tome-se o seguinte acontecimento:
No dia X, à hora H , o senhor A atirou uma pedra na direcção do Sr. B , em trajectória “balística”. Fracções de segundo depois, o Sr. B levou com uma pedra na cabeça. Daí a momentos, B foi visto a dirigir-se a A que, minutos depois, jazia no chão parecendo ter levado uma monumental carga de porrada.
O observador comum usará a sua tesoura de Occam, juntará as peças do puzzle e dirá quase imediatamente que o Sr. B levou uma pedrada do Sr. A, ficou muito irritado e vingou-se à pancada.
Os FTC que não gostam do Sr. B nem com molho de tomate, torcerão o nariz e “farão perguntas”. Por exemplo:
Nao terá sido o Sr B a dar com a própria pedra na cabeça, aproveitando um movimento inocente do Sr A, porque já era sua intenção secreta dar-lhe uma carga de porrada ?
Não terá sido tudo combinado com A, para que o seguro pagasse as despesas?
Como é possível que o Sr. A, que até nem é conhecido por ter grande pontaria, tenha acertado logo à primeira num alvo tão pequeno como a cabeça do Sr. B ?
E como se explica que o Sr. B , depois de levar com a pedra na cabeça, ainda tenha tido forças para ir desancar A?
Porque razão não há nenhum registo fiável da trajectória da pedra?
Porque razão a GNR, chamada ao local, imediatamente recolheu as provas, sonegando-as ao grande público?
Onde está a gravação do acontecimento, uma vez que havia câmaras de vigilância no local? Porque razão a GNR apreendeu os filmes?
É ou não verdade que o avô paterno do Sr. B , pertenceu à guarda pessoal do Sidónio?
O FTC ”faz perguntas”, mas já tem uma história “credível” em que mistura todos estes ingredientes” e que lhe permite desde logo colocar a suspeita no homem que levou a pedrada e a quem compete agora provar que não deu com a pedra na própria cabeça.
As respostas sensatas e lógicas que forem dadas ao FTC , ou serão ignoradas, ou integradas na conspiração que se alarga a todo o momento.
José Carmo





publicado por quadratura do círculo às 19:30
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