Quarta-feira, 20 de Outubro de 2004

Miguel Teixeira - Novos tempos

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, dizia o poeta. Mas nem ele sabia o quanto estava correcto. Hoje, com o advento das novas tecnologias, damos connosco a dizer coisas que há uns tempos atrás apenas poderiam ser atribuídas a quem sofresse de algum atraso mental. E tudo por culpa dos avanços tecnológicos que agora proporcionam coisas capazes de espantar o espírito mais aberto e receptivo. Dizer coisas como “esta manhã o telefone não despertou”, “queres ir ver um DVD no carro do meu pai”, “tira-me aí uma fotografia com o teu telefone novo” ou “vou gravar um CD no computador”, passaram a ser banalidades a que todos, sem excepção, teremos de aderir o quanto antes, sob pena de podemos ser acusados de retrógados e vistos com os mesmos olhos com que dantes nós próprios olhávamos os nossos pais e avós por não entenderem o que no nosso tempo era considerado um avanço. Só de pensar que a geração actual não vai sequer tomar contacto com coisas que eram correntes há cerca de vinte anos atrás, como o vinil, o VHS, o escudo (a nossa ex-moeda), o Spectrum 48K, a inexistência do telemóvel ou a incomparável figura que foi José Cid, só para referir alguns exemplos marcantes, deixa-me desgostoso. Não sentirem as dificuldades de quem apanhou certas e determinadas mudanças ainda no seu período de testes e de aperfeiçoamentos, parece-me a mim, vai tornar a vida desta nova geração muito mais facilitada, mas, e porque “não há bela sem senão”, igualmente desprovida dos desafios que então nos eram colocados ao sermos confrontados com as novidades da época. Hoje não há miúdo que ao completar 10(!) anos não seja desde logo presenteado com um telemóvel da última geração. Hoje não há menino, ou menina, que não vá para a sua universidade ao volante de um potente Audi TT ou de um qualquer todo-o-terreno último modelo. Hoje não há adolescente que não se vista dos pés à cabeça com as mais caras marcas de roupa ou de calçado. Hoje não há miúdo que não tenha uma semanada n vezes superior ao que era então uma mesada e, ainda assim, só para uma minoria privilegiada. Em resumo, hoje já nada é o que era. E atenção, não fiquem para aí a pensar que eu sou um “quadrado” anti-progressista, nada disso. Pobres dos que ficam estagnados e não se conseguem adaptar ou sequer acompanhar os novos ritmos. O que eu acho é que, hoje, aqueles que serão seguramente o futuro da nossa sociedade, não experimentam nem um terço das dificuldades com que muitos de nós tivemos de lidar. E que contribuíram para que possamos dar outro valor às coisas que conquistámos à força de muita dedicação, esforço e trabalho. Parece-me a mim que hoje é tudo muito mais facilitado e as coisas aparecem do nada sem que tenha de haver um mínimo de esforço por parte de quem recebe ou muitas vezes exige. E isso, a meu ver, pode ser um valente obstáculo na hora de serem confrontados com a realidade nua e crua que se vive fora da alçada protectora dos pais, que, mais cedo ou mais tarde, terão de abandonar. Porque lá fora, na selva a que todos são lançados, não há compadecimentos para com aqueles que sempre tiveram a “papinha toda feita”. E esses, doa a quem doer, vão ser os que mais vão sentir a falta das dificuldades e dos desafios que nunca tiveram de enfrentar e, consequentemente, ultrapassar, para saberem lidar com uma vida que é tudo menos um “mar de rosas” ou o “conto de fadas” que sempre ouviram contar.
Miguel Teixeira
publicado por quadratura do círculo às 16:36
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