Segunda-feira, 11 de Outubro de 2004

Ana Almeida - Antevisão de discurso

Sobre o conteúdo do aguardado discurso do PM nesta segunda feira, o impacto mediático seria muitíssimo maior se (…) se dirigisse ao país sentado num sofá da Quinta, à luz dum candeeiro de querosene, chiquérrimo num pijama de haute couture, o cabelo ligeiramente despenteado e de cigarrilha entre os dedos, num abandono intimista...
Poderia até derramar algumas lágrimas sobre a ingratidão e infâmia dos homens em geral e de um comentador político em particular, ao mesmo tempo que revelava um ou outro episódio picaresco da sua vida de alcova para melhor seduzir a populaça ávida destas andanças…
Mas como noblesse oblige, e o cargo de PM ainda implica (por enquanto…) alguma reserva institucional, o discurso será preparado noutro local mas…
O fatinho, gravatinha e camisa serão impecavelmente escolhidos ao milímetro para fazer realçar o ar compungido, o olhar húmido de sincera indignação, numa perfeita imitação das ovelhinhas da Quinta em véspera de tosquia ou a do olhar resignado das vacas em altura de ordenha pelo inefável Conde White Castle (leia-se com pronúncia brasileira).
Não, não será desta que PSL fará o Botox da praxe, de que já precisaria segundo o judicioso comentário da tia Cinha, que nestas questões será uma autoridade máxima na matéria, com muito maior rigor que qualquer Alta Autoridade para a Comunicação Social.
Não porque não lhe apeteça, ou o porque ar de D.Juan envelhecido não o exija, mas porque umas rugas na testa, uma expressão de abatimento nervoso farão imenso jeito relativamente ao discurso que se espera…
Ah e a famosa pulseirinha ficará discretamente tapada pelos punhos da camisa de griffe, porque não fica bem a um PM vilipendiado pela imprensa ostentar pequenospormenores que lembrem vagamente a fatuidade, a futilidade ou dificuldade de assumir responsabilidades de Estado…
Tirando os aspectos formais, o discurso do PM terá o seguinte conteúdo:
1 - O PM de Portugal está a ser vilipendiado numa infame campanha provocada pelos órgãos de comunicação social deste país que o Governo ainda não controla (repito, ainda…) – e esta infame campanha é em si mesma a prova de que a Censura em Portugal não existe, mas que faz falta, faz, como se vê pelo resultado desta vergonha que é a liberdade de expressão…
2 – Todo este facto político da censura foi uma invenção e estratégia do Marcelo Rebelo de Sousa para criar factos políticos e conseguir um protagonismo político que de outra forma não teria, talvez para preencher a sua agenda pessoal de lançar uma projecto de candidatura à Presidência da República.
Desta forma, a estratégia sibilina de Marcelo terá envolvido, por antecipação, o próprio Ministro dos Assuntos Parlamentares, que foi insidiosamente pressionado e manipulado pelo comentador político para proferir a afirmações que fez.
3 – Em suma, não foi o Governo que fez pressão sobre Marcelo. Foi Marcelo que ao longo dos últimos meses tem feito uma pressão intolerável sobre o Governo, pondo em causa a democracia e a liberdade de governação em Portugal.
4 – A prova provada de que a questão Marcelo é apenas uma questão "empresarial", normalíssima dentro de um órgão de comunicação social é a de que o senhor Presidente da República não tirou nem tirará nenhum conclusão política de todo este episódio, estando afastado o impensável cenário catastrófico de dissolução da Assembleia.
5 - Posto isto o Primeiro-Ministro de Portugal é uma vítima de uma cabala infame e irá apelar à simpatia e compreensão das portuguesas, ah, já me esquecia, também dos portugueses, para conseguir completar os mais altos desígnios de governação de que as estrelas o incumbiram, pelo menos até ao fim da actual legislatura…
Este será o tom geral do discurso… com mais uns pequenos truques retóricos de algibeira:
Sempre que utilizar a expressão Primeiro-ministro dirá "o Primeiro-ministro de Portugal", sempre que disser Partido Social-Democrata dirá "o PPD-PSD", sempre que se referir ao Presidente da República dirá " O Senhor Presidente da República", expressões estas acompanhadas por um ar grave e compungido. Além disso, haverá pelo menos uma referência ao nome de Francisco Sá Carneiro.
E agora digam lá que este discurso não estaria bem na sala da Quinta!
Ana Almeida
publicado por quadratura do círculo às 12:48
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