Segunda-feira, 11 de Outubro de 2004

Miguel Teixeira - Falta tanta coisa

É incrível averiguar a imensa falta de educação que grassa nos dias de hoje como se de uma epidemia se tratasse. Para tal, basta estar minimamente atento e constatar que este é seguramente um mal que se propaga a bom ritmo e ao qual não se antevê um fim ou sequer um abrandamento. Pelo menos para breve. É enorme a quantidade de pessoas que pouco ou nada está interessada em ser cordial ou, já nem peço tanto, simplesmente bem educadas para com as outras com que têm de lidar diariamente. E se passamos bem - ou pelo menos não somos grandemente afectados – com a falta de educação de algumas dessas pessoas, já com outras a coisa fia mais fino. Falo em particular daquelas pessoas que estando atrás de um balcão, numa caixa registadora ou simplesmente numa loja a prestar aconselhamentos, deveriam ter o mínimo de cuidado no trato que colocam perante os seus clientes. Não raras são as vezes em que entro numa loja e, hábito meu que tem vindo a cair em desuso, cumprimento quem está presente com a saudação que se adequa à hora do dia em que nos encontramos, sem obter qualquer tipo de resposta. Por vezes chego mesmo a repeti-la, na esperança ingénua de que o meu tom de voz não se tenha ouvido por qualquer razão. E novamente reina o silêncio. Claro que poderia ficar todo o tempo em que permaneço no estabelecimento a cumprimentar ininterruptamente quem por lá se encontra até ser devidamente alvo de uma resposta condizente. Mas como eu também não sou daquelas pessoas que primo pela notoriedade e muito menos gosto de protagonizar situações caricatas que me coloquem em xeque perante estranhos, opto por pensar que se há ali alguém que está em falta, esse alguém não serei eu com toda a certeza. Mas há vezes em que irrita e apetece mesmo pegar pelos colarinhos daquelas alminhas e perguntar-lhes se foi aquela a educação que lhes deram. Custará assim tanto responder com um bom dia ou uma boa tarde? É que, parecendo que não, pode ser o suficiente para alterar a disposição de quem entra na loja – ou onde quer que seja recebido sem quaisquer modos - e depois ainda são capazes de se fazerem de “coitadinhos” e virem-se queixar de que têm uma actividade em que se encontra de tudo, de todo o género de pessoas. Pudera, a receberem assim os clientes naquele que é o seu local de trabalho, nem a mim me admira que tal não aconteça muito mais vezes. E só tenho pena que não aprendam ou que não entendam que o mal está neles e não nos outros. Pois se queremos gerar bom ambiente à nossa volta, temos de ser nós os primeiros a contribuir para que tal aconteça. Sem um esforço, por mínimo que seja, as coisas não se concretizam. Ou então tirem de lá aqueles empecilhos e coloquem máquinas nos seus lugares. Pelo sim, pelo não, já falamos para as paredes e nesse caso nem iríamos estranhar sermos atendidos sem educação ou com uma gritante falta de modos. Para terminar deixo apenas um exemplo que me aconteceu e que ainda hoje me custa a crer que tenha sido verdade. Dirigi-me a um bar de um centro comercial e fui atendido por uma empregada brasileira. Por acaso até respondeu às boas noites que lhe dei, não foi esse o caso. O que aconteceu de insólito foi com o meu pedido. Que eu julgava ser a coisa mais simples e óbvia do mundo, mas que esbarrou numa ignorância inaceitável por parte de quem está num bar a atender. Ou seja, ao pedir uma 7Up, fui confrontado com a mais difícil explicação que já alguma vez tive de dar para algo que, de tão banal e conhecido, se torna ainda mais complicado de fazer entender o que é. Acabei a beber uma água, embora a minha vontade fosse a de beber para esquecer. Esquecer que situações destas ainda são possíveis em pleno século XXI.
Miguel Teixeira
publicado por quadratura do círculo às 11:35
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