Quinta-feira, 7 de Outubro de 2004

Rui Manuel Elias - Reflexões sobre o Iraque

O Secretário da Defesa norte-americano declarou em público que nunca teve acesso a provas da existência de armas de destruição maciça no Iraque, e que nem sequer foram estabelecidas relações entre o regime de Saddam Hussein e a Al Qaedda, ou outra organização integrista que se dedicasse ao terrorismo.
O mais elementar bom senso indicaria isso mesmo.
Apesar da ditadura sanguinária de Saddam, que aliás não se diferenciava pela sua natureza de outras existentes na região, esta era sustentada por um partido nacionalista árabe, o Partido BAAS, com raízes no nacionalismo árabe, de inspiração socializante, laica, e que remonta aos tempos do Presidente Nasser e de Afez al Assad.
Nesse regime, os islamismos teocráticos de mulahs ou de ayatolas nunca tiveram lugar, apesar da sociedade ter um substracto cultural e religioso muçulmano.
O que se passou após o final da primeira guerra do Golfo, em 91, com a revolta dos xiitas no sul do Iraque, e da subsequente esmagamento dessa revolta pelas tropas de Saddam, é a prova de que o regime laico do ditador não permitiria a implantação no sul do Iraque de uma teocracia xiita próxima da do Irão.
Por isso, é de difícil compreensão que nos tivessem querido vender a ideia de que o Iraque teria relações com a Al Qaedda de Bin Laden, que se inspira nos valores fundamentalistas do waabismo sunita, esse sim, inspirador da teocracia autocrática da monarquia saudita.
Quanto à eventual existência de armas de destruição maciça no Iraque as inspecções ao longo de anos, as zonas de exclusão aérea norte e sul do território, os sobrevoos contínuos de aviões americanos e britânicos sobre o Iraque ao longo de 12 anos, com bombardeamentos periódicos a instalações “suspeitas” e imagens de satélite nunca forneceram as provas de que muitos dos líderes ocidentais juraram ter.
Bush, Aznar, Blair e até Barroso juraram aos seus povos terem-nas visto.
Mas agora parece que se enganaram, ou “foram enganados”.
Se Bush, Blair e até Donal Rumsfeld já reconheceram que essa provas nunca existiram, bem com a existências dessas armas, falta agora o “mea culpa” de Barroso que também ele, e à sua escala, enganou os portugueses ao convencer o país da necessidade de enviar uma companhia da GNR para o Iraque.
Mesmo quando o próprio Secretário-Geral das Nações Unidas já afirmou que esse invasão a um pais soberano não teve legitimidade suficiente para se realizar, à luz do Direito Internacional.
Assim se explica talvez a pressa dos “senhores da guerra” ocidentais em acabar com as inspecções, em se recusarem a esperar mais um mês, que foi o tempo pedido por Hans Blix e pela ONU para que se prolongassem por mais quatro semanas essas inspecções que estavam a decorrer em todo o Iraque sem constrangimentos ou limitações por parte das autoridades iraquianas.
A pressa foi a melhor forma de evitar que esses argumentos caíssem por terra antes do iniciar do ataque, da invasão e da ocupação.
Assim sendo, o que motivou esta guerra?
Um dia se saberá.
Por agora apenas se especula.
Mas os resultados são desastrosos.
A estabilização da zona não aparece.
O terrorismo, antes ausente do Iraque, encontrou agora naquele país um terreno fértil para dar asas ao mais puro e desumano terror de fanáticos contra inocentes.
Militares norte-americanos e de outros países ocupantes morrem diariamente, e outros mais ficarão estropiados para sempre.
Muitas dezenas de milhares de iraquianos morreram desde a invasão, mais que durante o regime de Saddam.
Os custos desata operação militar apenas serviram para aumentar o esforço de guerra e, por conseguinte, aumentar a produção do chamado complexo industrial-militar norte-americano, o que impulsiona a sua economia.
Os preços do petróleo estão a atingir patamares inauditos.
E até Sharon e outros generais em Israel ao denunciarem a ONU de colaborar com “terroristas” parecem ter atingido um patamar de perigosa demência por parte de um regime cada vez mais isolado no mundo.
Primeiro, ao se prestarem os países da guerra ao espectáculo de vender um producto virtual às opiniões públicas mundiais, (que felizmente parecem não terão conseguido vender), e agora, perante um eclodir de uma guerra civil não declarada, dizerem que se enganaram, só lhes pode ficar bem, apesar do mal já estar feito, e apesar de bem terem sido avisados pelos verdadeiros amigos da América.
Como disse Kerry no debate televisivo com Bush, atacar o Iraque na sequência do 11 de Setembro foi tão estúpido, como se o Presidente Roosevelt tivesse invadido o México, na sequência do ataque de 1941 a Pearl Harbour.
Mas George W. Bush fê-lo.
Errare humanum est, é a frase que se imortalizou.
Mas desconfio que a estreiteza de visão de muitos não consegue acompanhar isso.
Apostilha:
Como é conhecido, fui expulso do Fórum Defesa, um fórum português dedicado a questões de Defesa e Segurança, por ter uma visão algo diferente da maioria dos moderadores desse fórum.
E numa atitude neo-maoista, que parece reviver os velhos “jornais de parede” da Revolução Cultural, o meu nome aparece lá ainda como tendo sido expulso, apesar dela se reportar a Julho.
Digamos que se Rumsfeld, com grande dignidade tivesse reconhecido esse erro, e ele mesmo fosse participante nesse fórum, seria expulso, também.
É que declarou o que não parece aceitável à luz dos fanáticos.
Rui Manuel Elias
publicado por quadratura do círculo às 16:27
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