Sábado, 24 de Julho de 2004

Miguel Teixeira - Diálogo entre gerações

Nunca pensei que uma diferença de quinze anos pudesse traduzir-se num quase impeditivo comunicacional. Passo a explicar. Actualmente com 38 anos de idade, deparei-me recentemente com algo de que já tinha ouvido falar, mas a que nunca dei grande importância:
o gap de gerações. Também o senti na minha época de adolescente e talvez por o supor similar, nunca lhe tenha atribuído a importância merecida. Mal eu sabia o quão errado estava. Afinal, nos dias de hoje, a tal diferença de uns quantos anitos pesa. Em várias áreas, a vários níveis e de uma maneira que não julgava possível. A simples conversa, os códigos usados ou a abismal diferença de termos agora usados por uma faixa que se situa entre os dez e os vinte e poucos anos, quase que invalida uma possível troca de palavras perceptível com um adulto na casa dos trinta e tais. O contacto que me proporcionou esta revelação tive-o com um grupo de rapazes e raparigas dentro desta faixa etária e que vivem de acordo com os princípios de uma comunidade à parte, a que se torna difícil de aceder.
Uma espécie de gangs do século XXI, mas cujos ideais são tão só os de demarcarem a sua própria personalidade, meramente com recurso à palavra. Uma forma de proceder que se tornou comum, se não mesmo natural, e que faz uso corrente e abusivo da linguagem mms, de códigos de fashion e de cor adaptados às novas tendências e de uma atitude que se quer seguida à risca, sob pena de exclusão do grupo. De um momento para o outro, o discurso que parecia sair fluído e completamente perceptível das minhas cordas vocais, deparou com um muro de incompreensão e perplexidade que se ergueu do outro lado da barricada, na pessoa de uns quantos adolescentes alguns anos mais novos do que eu. Termos e expressões antes usadas até à exaustão, acontecimentos que marcaram a minha geração, conhecimentos básicos - digo eu - sobre os mais variados temas que eu julgava de grande importância, tudo parece ter caído em total desuso e, mais, num ridículo que jamais imaginei possível. E sou eu a falar, que tenho apenas 38 anos. Que hão-de pensar os de mais idade, aqueles que são os dignos representantes das gerações que me antecederam? Ouvirão eles um dialecto a necessitar urgentemente de descodificação ou terão, pura e simplesmente, desligado? Hoje, passada esta quase traumática experiência, devo admitir que tenho uma outra visão da realidade. Do mundo em que se movem os futuros donos deste planeta que por tanta coisa já passou, mas por muita mais irá ainda passar. Assim esperamos. Como espero que, sejam quais forem essas revoluções e as suas reais dimensões, as mesmas surjam no sentido de dar um novo rumo à desordem que, pouco a pouco, se tem vindo a apoderar da nossa sociedade. Que mudem os códigos ou que se reformule a linguagem, mas que tal implique igualmente uma mudança real a curto prazo. Que o significado último das palavras daqueles que agora se preparam para tomar nas suas mãos o leme deste mundo cansado, seja de esperança. Pois parece-me claro que este é um tópico que não necessita de grandes explicações. Fala por si e pela urgência de que, cada vez mais, se reveste. Independentemente de códigos ou de idades.
Miguel Teixeira
publicado por quadratura do círculo às 23:30
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