Sexta-feira, 16 de Julho de 2004

Ricardo Garrido - Concurso de professores

Depois das eleições europeias, do Euro 2004, do folhetim presidencial
eleições antecipadas/Santana Lopes e agora as expectativas quanto à
composição do novo governo, há assuntos que continuam afastados da
comunicação social. De facto, depois dos erros assombrosos cometidos pelo
Ministério da Educação aquando da saída das primeira e segunda listas
provisórias de ordenação dos professores, relativas ao concurso 2004/2005, a
incompetência continua, e continua, e continua, ... . Faz lembrar a
publicidade às famosas pilhas.
Então não é que as listas de colocações de professores só serão publicadas
no dia 15 de Agosto, em pleno período de férias de quase todos os que
aguardam com ansiedade o resultado das mesma para poderem decidir o seu
futuro?
Só para recordar, em anos anteriores as listas de colocações eram publicadas
em meados de Junho. Posteriormente, os docentes interessados concorriam aos
destacamentos, afectação dos Quadros de Zona Pedagógica, preferência
conjugal, etc., sendo o resultado desse concurso conhecido apenas no final
de Agosto. É ainda de lembrar que no ano passado esses resultados foram
conhecidos apenas nos primeiros dias de Setembro, tendo criado algumas
complicações nas escolas que necessitavam de professores para assegurar o
serviço de exames nacionais do 12º ano.
Ao serem publicados os resultados das colocações em meados de Agosto, quando
serão conhecidos os resultados dos destacamentos e afectação aos quadros de
zona pedagógica? Finais de Setembro? Então a comunicação social nada tem a
dizer sobre o assunto? Já viram o que seria dos hospitais, sem médicos, à
espera da sua colocação? Dos tribunais a aguardar a colocação de juízes? Das
esquadras sem polícias? Das repartições de Finanças sem funcionários? Do
Governo sem ministros e secretários de Estado ? Do Serviço de Estrangeiros e
Fronteiras sem inspectores? De uma fábrica sem operários? Não seria tal um
escândalo nacional? Então e as escolas poderão funcionar sem o número de
professores necessário?
Do meu ponto de vista, há algo de inexplicável que está a suceder. Como é
óbvio, aos professores não é actualmente atribuído o estatuto que possuíam
quando o País estava subjugado a uma ditadura e o analfabetismo interessava
ao poder instalado. Não sendo esse o tema em análise, porque numa sociedade
aberta e democrática todos devem ser iguais e tratados de igual forma, quer
sejam médicos, jornalistas, políticos, sapateiros ou padeiros, julgo, no
entanto, difícil de explicar por que motivo uma situação que envolve dezenas
de milhares de professores, com tudo o que acarreta ao nível pessoal,
social, económico e profissional, não é encarada pela comunicação social
como algo extremamente grave e inaceitável. Mas há algo para o qual devo
chamar a atenção: quando se iniciar o ano lectivo de 2004/2005 e as escolas
funcionarem a meio gás, os pais vão começar a aperceber-se que os filhos não
têm aulas, que não sabem o que lhes hão-de fazer, onde os deixar, e aí,
talvez só aí, o País se aperceba que alguém cometeu uma falha muitíssimo
grave. Espero que, na altura, não culpem os professores pelo sucedido.
Há ainda mais reflexos da total incompetência dos responsáveis do Ministério
da Educação. Eu, como milhares de outros professores, apresentei duas
reclamações aquando das publicações das duas listas provisórias. A primeira
foi para o caixote do lixo porque as listas foram anuladas. Entreguei uma segunda
reclamação, praticamente igual à primeira (o que significa que, se não
tivesse sido deitada ao lixo, o Ministério, pouparia trabalho, papel,
paciência, tempo e dinheiro), pelo que aguardo pacientemente que o
Ministério me comunique por escrito, via correio, o tratamento dado à mesma.
Dado que em meados de Agosto, quando saírem as listas, eu estou em período
de férias, como poderei consultar a resposta e o provimento, ou não, dado à
reclamação? Se eu fosse passar férias ao Brasil ou à Cochinchina, o que
obviamente não vai acontecer porque sou professor e os rendimentos não dão
para tanto, teria que vir a Portugal propositadamente para não ver o meu
futuro profissional posto em causa? O mais certo seria prescindir dessas
férias mas, se tal ocorresse, estaria a prescindir de um direito
fundamental. É lógico que, se fosse apenas eu, seria grave mas o País não
pararia para se debruçar sobre o assunto. Afinal, para o bem e para o mal,
uma andorinha não faz a Primavera. Mas não sou só eu; são milhares de
professores.
De qualquer forma, como tenciono concorrer ao destacamento se não for
colocado na escola que pretendo, vou ter que o fazer até ao dia 5 de
Setembro, segundo consta. Ora, terei que aguardar a saída das listas
provisórias de ordenação desse concurso, aguardar o período de reclamações e
a saída das listas de colocação. Há alguém, minimamente bem intencionado,
que possa garantir que o ano lectivo lectivo irá arrancar sem problemas até
ao dia 16 de Setembro? Ou será, mais que demagogia e hipocrisia, a mentira e
a incompetência a funcionarem de novo? Afinal, desde que começaram os
concursos não foi isso que se repetiu constantemente? Bem, vivemos em
Portugal e tenho esperança que daqui a alguns anos se venha a descobrir o
responsável pelo descalabro. Talvez alguma empregada de limpeza do
Ministério ou, mais provavelmente, o mesmo electricista que trabalhava no
hospital de Évora quando ocorreu a trágica morte dos hemodialisados.
Continuando, não é estranho que os destacamentos por condições específicas
arranquem no dia 15 de Julho, sem os interessados saberem se irão ficar
efectivos nas escolas para onde irão pedir destacamento?
Ao longo deste imbróglio já contactei diversas vezes o Ministério da
Educação por via electrónica. Nem uma resposta. Escrevi para diversos orgãos
de comunicação social, canais de televisão, jornais, Provedoria de Justiça,
Presidência da Républica e houve «feed-back». Aliás, fiquei agradavelmente
surpreendido por ter recebido, passados quatro ou cinco dias, respostas da
Provedoria de Justiça e da Presidência da República. Finalmente tive uma
resposta indirecta do Ministério da Educação. Ao ser publicado um excerto de
uma carta minha para o «Correio da Manhã», por baixo vinha a resposta da
Dra. Joana Orvalho afirmando que eu tinha toda a razão nas reclamações
apresentadas mas que o erro tinha sido meu por me ter enganado a preencher
os impressos (é estranho ter havido milhares de erros do mesmo género).
Convém esclarecer, em jeito de contra-resposta fora de horas, que eu
efectuei a profissionalização em serviço como formação inicial e que nas
instruções para preenchimento dos impressos do concurso estava bem claro que
devia ser indicada a data de conclusão da formação inicial mas para a
profissionalização em serviço devia ser indicada a data de homologação da
mesma (publicação em «Diário da República»). Foi o que fiz e, por ter
seguido as regras, o erro foi meu.
Por já não estar com paciência para escrever para o Ministério da Educação,
mais valia falar para as paredes, por sentir que o País dá mais importância
a tantas outras coisas e a Educação vem lá muito para baixo na lista de
prioridades de cada um, o que no actual momento até é compreensível, vou
enviar este documento para uma série de endereços electrónicos porque mal
não faz e sempre me ajuda a aliviar esta terrível ansiedade. Talvez consiga
adormecer mais facilmente, talvez leia de novo o Cervantes e o seu D.Quixote
a lutar contra moinhos de vento. Talvez...(...)
Ricardo Garrido
publicado por quadratura do círculo às 20:04
link do post | comentar | favorito
|

.pesquisar

 

.Fevereiro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28


.posts recentes

. Carlos Andrade - Suspensã...

. Carlos Andrade - Suspensã...

. Teste

. João Brito Sousa - Futecr...

. Fernanda Valente - Mensag...

. António Carvalho - Mensag...

. João G. Gonçalves - Futec...

. J. Leite de Sá - Integraç...

. J. L. Viana da Silva - De...

. António Carvalho - Camara...

.arquivos

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds