Terça-feira, 6 de Julho de 2004

Gabriel Rafael Guerra - Agora que acabou o Euro 2004

Finda esta semana (a euforia d)o Euro 2004, findo os pretextos (circunstanciais) que permitiram que um acontecimento grave de repercussões políticas para o nosso país (ou para qualquer outro, se no mesmo caso) pudesse ser iludido e passar incólume sem o seu imediato (e correspondente) impacto (negativo), - iludidos, assim (momentaneamente), tanto os media (manietados editorialmente ao evento), como os cidadãos (ocupados com a natural fruição do mesmo) -, chegou, portanto, a (fatal) hora de serem (re-)inventariadas as suas reais consequências políticas, como, sobretudo, ético-políticas. Face a esta questão, na política (como em tudo), existem dois tipos de personalidades: aquelas para as quais a ética é um "empecilho" (ou uma figura de estilo); aquelas para as quais a mesma representa um valor. Para sustentar as suas premissas, os primeiros socorrem-se geralmente do pragmatismo (virado para o futuro), enquanto que os segundos apelam à História (o que o passado tem para ensinar). De facto, a perda da ética em política tem (mostrado sempre) ir desembocar em situações de extrema (e por vezes trágica) conflitualidade. Porém, é também indeniável reconhecer que o pragmatismo tem sabido criar soluções para a saída das crises (mesmo se muito vezes, originadas por si). É, pois, o meio termo (um saudável equilíbrio entre ambas) que representa, em política, a solução ideal (se é que a há...) . Dito isto, tal
(equilíbrio) não é no entanto possível quando uma das duas se encontra ferida de morte. E este parece ser o actual caso. Citarei, aqui, por questões de imparcialidade (política) e objectivade (argumentativa) duas vozes insuspeitas. Duas personalidades dentro do PSD que merecem (pelo perfil ético-pragmático que combinam entre si) ser de imediato referenciadas: a
("nossa") "dama de ferro", a Dr.ª Ferreira Leite, e a "dama de veludo", a Dr.ª Patrícia Gouveia. Duas personalidades com provas dadas na área governativa (quer se concorde ou não com elas); duas personalidades-chaves na actual conjuntura e drama políticos que estamos a viver. Duas pessoas que ocupavam dois cargos-chaves, portanto: o das Finanças e o dos Negócios Estrangeiros; duas personalidades, assim, que, completando-se, e face ao ex-PM, se posicionavam e lhe davam (pela seriedade e provas dadas) toda a sua credibilidade política (e ética). Ora, é precisamente destas duas pessoas que vem as vozes mais críticas: A ex-MF apelida o acto do Dr. Barroso de «Golpe de Estado»; a ex-MNE afirma que se criou um vazio de poder no PSD que só um congresso poderá legitimar. Vozes que vão ao revés, e de um modo duro (directo e inequívoco), de toda a máquina (e maquinaria) partidária... Que seja, então, hoje, precisamente a cúpula partidária do PSD a ignorar estas duas pessoas, as quais, relembre-se, sempre elogiou a actuação governativa é revelador do fim de qualquer pudor por parte da mesma (da cúpula PSD). Mas
percebe-se: querem "salvar a (sua) pele". O Dr. Barroso não só "abandonou" os portugueses, como sobretudo "traiu" as pessoas do seu governo (e mais traiu ainda, aquelas do seu círculo governativo mais íntimo(!)), e traiu-as politicamente, entregando sem pejo o poder (em conclave com os seus "acólitos políticos" de cúpula) ao seu exacto opositor interno (traindo assim as pessoas, no PSD, que estavam, estiveram (ainda estarão?!) sempre contra aquele). Que o actual presidente da CML não pestaneje sequer perante esta situação contraditória (qual seria então o "seu próprio" programa político? Agora, que lhe é oportuno, o do seu rival Barroso?! Não tem?! É uma figura neutra, então? Uma mera cara para salvar a face de outro? Um mero operador de cosmética política?), condiz com o perfil da personalidade política (que lhe é recorrentemente atribuída): a da sua clara falta de ética (política). No entanto, o mais grave não se situa, de facto, neste campo, mas, antes, pelo contrário, no outro. Pragmaticamente, e de maior relevância estadual, o actual presidente CML só exerceu o cargo de SEC e o que detém agora na CML. Poderia até nem ter exercido nenhum cargo, tal não seria (necessariamente) um problema, só que exerceu, e exerceu mal num caso, e muito mal no outro (o actual). Assim, é natural que queira também fugir à responsabilidade de ser julgado pela sua má obra (há quem aponte que nem sequer houve obra(!)). Facilmente, então, encontraria (se fosse indigitado PM) argumentos de desresponsabilização, apontando ao seu antecessor (ou, e aqui seria fácil a perversidade, à própria Dr.ª Ferreira Leite (!)) o ónus de qualquer insucesso seu governativo. Entraríamos em pleno, de facto, na figura do círculo vicioso (não só na forma, como no conteúdo). Na maquiavelização da desresponsabilização (passe o termo). Por fim, relembre-se, mas deveria ser elementar, o Dr. Barroso abandonou o cargo do PM no preciso momento em que perdeu as eleições (europeias, e no pior resultado eleitoral de sempre do PSD (!)); se as tivesse ganho, o seu gesto teria outro significado e outro impacto, mas perdeu-as. Ou seja, abandonou o barco quando este (mais) precisava do leme. Para quem acusou (levianamente) de desertor outro PM (relembre-se), aprecie-se aqui a "coerência" (passe a ironia). É por isso apenas que o Dr. Barroso precisa do Dr. Santana Lopes, para que este lhe apague (de imediato) a má imagem, sobrepondo-lhe a sua ("boa imagem", indeniavelmente mediática) no imaginário político português, para que, saturando os discursos políticos (de café e de mesa-redonda) com baixa intriga e folhetim, mais nínguém se relembre (sobretudo) que «também ele», qual "Brutus", abandonou, "desertou", "traiu".
Gabriel Rafael Guerra
publicado por quadratura do círculo às 17:19
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