Quinta-feira, 1 de Julho de 2004

Gabriel Rafael Guerra - Durão Presidente

A actual conjuntura política portuguesa aproxima-se muito do que os psicólogos apelidam de «depressão bipolar». As suas principais características (para quem não as conhece) são as de, de um momento para o outro, e em vice-versa, ora se estar na depressão mais profunda, ora na total euforia. Endémica (ou, se pensarmos numa escala colectiva, atávica (!)), a depressão bipolar, pela sua irregularidade e imprevisibilidade, cria condições e oportunidades ideais para que situações de desresponsabilização sejam, não só justificadas (quando no seu sinal menos) como multiplicadas (quando, pelo contrário, no seu sinal mais). A sua dinâmica baliza-se (drasticamente), assim, entre uma profunda letargia, alternando com súbitas (por vezes delirantes ou megalómanas) fugas para a frente. Vendo então as coisas neste prisma é natural que o alter-ego político do actual PM português que, relembre-se, mergulhou durante dois anos o país numa depressão social (para a maioria dos cidadãos, profunda) sem que seja liquido (ou palpável) que tenha daí resultado qualquer dividendo (sequer económico - veja-se, por exemplo, o baixíssimo índice de produtividade na consecutiva diminuição drástica das receitas fiscais, iludida, esta, este ano, com operações de cosmética ou engenharia bancário-financeira do tipo Citigroup ou Galp), seja, dizia, precisamente o presidente da CML. Estamos claramente agora, portanto, e em pleno, no momento que corresponde ao da euforia, momento este onde tudo parece fácil, todas as soluções permitidas, todas as quimeras realizáveis. O Euro 2004 e a "silly season" aí estão a fazer o seu pleno político (e psicológico), desfazendo qualquer seriedade ou atitude mais responsável.
(...) Não vale a pena os comentadores (responsáveis) esgrimirem-se com (a insanidade de) hipotéticos golpes palacianos ou golpes de teatro, não haverá no espaço de pelo menos dois meses qualquer lugar a qualquer facto sério e de repercussões reais na cena política portuguesa, senão para isso. Haverá folhetim. Política de pacotilha. Tudo menos o que deveria ser. Tudo menos reflexão ponderada, em profundidade, e sobretudo, indagativa das razões reais do decurso de tanta irresponsabilidade política ao nível governativo. Não é por acaso que, pela segunda vez (consecutiva!) um governo vindo de uma maioria parlamentar (absoluta ou quase absoluta) abandona o seu mandato a meio, não é por acaso que os irresponsáveis esbanjamentos orçamentais socialistas (do PS) se conjugam às mil maravilhas com as espartanas asfixias pseudo-liberais (do PSD-PP), não é por acaso que a política passou a ser um corredor ideal para carreiristas, não é por acaso que Portugal não consiga restruturar em profundidade o seu aparelho de estado (obsoleto), que as reformas nos sectores fundamentais sejam sempre adiadas, sine die, que o povo troce, que a arruaça faça lei, que a miséria (escondida e envergonhada!) subsista à margem e cotejando as (ostentadas e ostensivas) megalomanias mais farisaicas. Quanto (ao prestígio actual) da figura do presidente da Comissão Europeia, desenganam-se também aqueles que pensam que tenha qualquer peso (real e de fundo) na cena internacional. Esta faz-se
(sobretudo) de "Real Politik". Qualquer primeiro-ministro vale muito mais do que ele (suma contradição, portanto...). A figura do presidente da Comissão é (hoje) estritamente diplomática, mas no sentido estreito do termo, procura conciliar, articular (e este, o nosso ex-PM, estará manietado e "encurralado" entre três eixos geo-políticos, opostos entre si: o franco-alemão versus o anglo-saxónico, e os dois, por sua vez, concorrendo ambos a uma supremacia sobre o eixo atlântico (daí ser Chirac o seu arquitecto e daí, também, o assentimento (absolutamente contraditório) do chanceler alemão a esta candidatura). Desde Jacques Delors que o presidente da Comissão Europeia deixou de ter real relevância e influência (no seu sentido nobre, quer dizer, enquanto personalidade autónoma ou motora), de ser, portanto, uma figura maior na cena europeia. Contribuíram para isto a escolha (pelos chefes de estado dos países
grandes) de burocratas sem visão nem carácter, de personalidades sem verdadeira autoridade (política, moral ou cultural). A actual escolha do PM Português (o seu perfil "servil" que a Cimeira dos Açores revelou) apenas reforça esta tendência e indicia que este presidente da Comissão Europeia será mais um pombo-correio transatlântico para resgatar uma América perigosamente isolada no mundo face uma Europa incapaz de se afirmar nele. E pouco mais...
Gabriel Rafael Guerra
publicado por quadratura do círculo às 17:32
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