Terça-feira, 4 de Abril de 2006

Nuno Monteiro - Impasse no emprego

O processo francês caminha para uma solução. Uma solução que não o é.
O contrato proposto, que serviria para criar motivos que valorizassem uma contratação de jovens (primeiro emprego) deverá ser alterado, ao ponto de ser letra (quase) morta.
Assim, não haverá razões suficientes para contratar jovens. As opções das empresas manter-se-ão centradas nos trabalhadores com experiência (que dão maior segurança aos empregadores) o que, pela maior concorrência (de emprego entre aqueles), verão os seus ordenados subirem. Com isso, aumentarão ainda mais as desigualdades e se reduzirão as disponibilidades de emprego. Pois, se se paga mais a uns, com garantia de produtividade, limita-se a opção por mais e novas contratações.
Assim, os jovens ganharão segurança no seu primeiro emprego que, para um terço deles, poderá nunca surgir…
As desigualdades sociais crescerão.
O processo francês é um processo europeu. Extrapola-se com facilidade.
A Europa não entendeu (as maiorias votantes não entenderam) que o seu modelo social está doente. Que é necessário iniciar um (doloroso) processo de cura. E que esse difícil processo terá de resultar em esforços a dividir por todos (um pouco a cada um) com o risco de não sobrar nada para ninguém.
Temos três camadas fundamentais na sociedade:
1º A geração de 1968 (a grisalha) que actualmente está na reforma a usufruir de benesses insustentáveis (o que recebem não tem paralelo com os descontos que efectuaram), à custa dos actuais trabalhadores que pagam os respectivos descontos.
2º A geração seguinte, actualmente (e rigidamente) no mercado de trabalho, a descontar para os primeiros e “assobiando para o ar” no referente aos seus benefícios futuros. Acham-nos assegurados. Que a geração seguinte irá garantir isso, com o seu trabalho. Podem ter uma surpresa…
3º A geração jovem que diz agora não querer o PEC. Afinal quer as mesmas benesses das gerações anteriores. Uma fatia significativa dos seus está no desemprego. A globalização (a superioridade das economias americana e asiáticas são evidentes) continuará a eliminar mais e mais empregos. Sem emprego não poderão salvaguardar as suas necessidades actuais nem precaver o seu futuro. Muito menos poderão descontar para o grupo anterior as prestações sociais que aqueles necessitam e contam como seguras…
Porque é necessário o PEC?
Porque os empregos na Europa estão rigidamente ocupados. Opta-se (através de leis) por manter no emprego um mau trabalhador que ganha bem, em detrimento de um bom trabalhador (jovem) que ganhará menos e trabalhará mais. Não se quer entender que este, ganhando menos e produzindo mais, reforçará a economia europeia, tornando-a concorrente das “ameaças globais” e libertará recursos para suportar o subsídio de desemprego do tal mau trabalhador que deveria substituir. O inverso é que já não verdadeiro: o mau trabalhador não produzirá sequer para o seu rendimento e tudo se desmorona…
Os que estão na reforma entendem ter “direitos adquiridos” a salvaguardar. Mesmo sabendo que nunca descontaram (integralmente) para eles.
Os que trabalham não prescindem da sua segurança de emprego. Mesmo produzindo menos do são, também rigidamente, remunerados.
E estes, todos somados, ganham eleições.
Os jovens que não trabalham, que serão cada vez mais dentro da sua faixa etária, é minoria votante, não terão “voz” dentro do processo eleitoral e vêm o seu futuro em queda rápida para o abismo. Abstêm-se da política pois esta não lhes diz (e dará) nada. A maioria grisalha e a maioria trabalhadora segura não lhes abrirão nenhumas portas… porque as mudanças necessárias tocam-lhes a eles (redução de “direitos” dos reformados e maior flexibilidade no emprego (e desemprego)).
Estaremos a atingir o fim do modelo socialista democrático?
Pois as maiorias votantes seguem sempre quem lhes acene com menos reformas e mais estabilidade… e não é isso que as nossas sociedades precisam.
Estaremos a chegar a um beco sem saída?
Provavelmente.
Nuno Monteiro





publicado por quadratura do círculo às 18:53
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