Quinta-feira, 24 de Junho de 2004

Gabriel Rafael Guerra - Destino americano

Desde há já duas semanas atrás, sensivelmente, que começaram a surgir da parte da sociedade civil norte-americana (de todos os quadrantes socio-profissionais, desde jornalistas a economistas, passando por militares na reserva) sinais inequívocos (e bastante preocupantes) de um profundo mal estar face às várias inquisições que o Departamento de Justiça tem vindo a executar judicialmente contra a Administração Bush quanto às várias suspeitas de ilegalidades cometidas na sua campanha militar (iraquiana). O grau de perplexidade suscitado pelas várias conclusões já permitidas de inferir e que incidem tanto sobre a metodologia utilizada bem como sobre as reais(e ocultas) intenções político-militares são tais que o clima criado é o da sensação inquietante (e perigosa) de se estar perante o risco de uma vertiginosa implosão do próprio sistema político americano. A única obsessão agora parece ser o da resposta à seguinte pergunta: «Did the Presidente went far too far in the process of lying to us?» São, assim, hoje, as próprias bases constitucionais norte-americanas que parecem estar a ser (terem já sido) abaladas. Mentir ao Senado, ao Congresso, aos Media (manipulando descaradamente as informações naturalmente classificadas secretas), enganar, em suma, o Povo Americano, para poder dispor de suficiente financiamento e das vidas dos soldados é algo que repugna à moralidade protestante (vigente). (E repugna, sobretudo, porque, incorporando esta moral, num grau já bastante elevado, um sentido de oportunidade ou oportunismo prático de cariz utilitário que permite, precisamente, legitimar
("eticamente") o seu sistema económico (cf. Weber), impõe também, por outro lado, e por isso mesmo, limites e fronteiras bastante claras perante os abusos a que se encontra vulnerável; a mentira é um destes limites (e ao contrário das "sociedades católicas", onde é "tolerada" até um certo ponto), a mentira sobretudo a um alto nível (na hierarquia de responsabilidades) não é puro e simplesmente aceitável, como, sobretudo, não é comportável.) Assim, (novamente), perfila-se a sombra do impeachment nos corredores da Casa Branca, e a irromper no horizonte temporal (próximo) esta possibilidade (só que, agora não é já um assunto ligeiro de costumes, como no "caso Clinton-Lewinsky", mas sim, grave, de substância política), o risco do esvaziamento total do/de poder quando o país mais precisa dele para sair do beco onde se inquinou. A América arrisca-se a perder a face, não só em relação ao Ocidente (já a perdeu moralmente), não só em relação às várias máquinas de guerra (já a perdeu estrategicamente), mas sim, face a si-mesmo. Pode, de facto, o momento político comportar agora um impeachment? Mas, por outro lado, pode o sistema Juridico-Constitucional recusar o seu natural curso e evitar que as consequências dos actos perpetuados (que apontam claramente para esta figura) ponham em causa (no caso da recusa da justiça em judicar) os seus próprios procedimentos internos? Ou seja, pode a Justiça deslegimitar-se sem deslegimitar também o sistema político sobre o qual assenta a sua supremacia (sobre o poder político, em tribunais) sem que (passe a vulgata) «tudo venha abaixo»? Haverá, por outro lado, se esta ameaça de impeachment se tornar irreversível suficiente tempo (ou dinheiro) para o surgimento de um novo candidato republicano? Poderá, então, o eleitor (médio) americano sequer suportar o facto de ter que eleger «a President who lied to us» sem questionar todo o sistema? Um sistema, relembre-se, que assenta sobre uma abstenção (ou melhor, suave exclusão) de metade da sua população... Será que os mecanismos culturais de compensação (que contrariam ou evacuam as tensões internas para que não se tornem revoltas em latência) poderão ser accionados de maneira a poder criar uma contra-dinâmica suficiente para que o perigo de implosão não se torne uma realidade (explosiva)? Ou seja, podem, neste contexto, as industrias
(culturais) da violência e do prazer (do prazer da violência e da violência do prazer) jogar o seu papel de ("contra"-)propaganda, sem contribuir para a aceleração desta implosão (reflita-se no caso do «Farenheit 9/11»)? E pode o sistema binário (Democrata-Republicano) sair ileso de tudo isto? Ao ter que alinhar um com o outro (para evitar a implosão política do sistema pelo sistema), não ficará claro ao eleitorado americano que o seu sistema parece mais ser o de um partido único, só que apenas bicéfalo, em vez de monolítico (como na ex-URSS)? Muitas personalidades críticas do sistema (e cite-se aqui as de maior relevo intelectual ou politico, como Gore Vidal (cf. «Império») ou Noam Chomsky (cf. «Da Propaganda») tem chamado precisamente a atenção para estes aspectos deficientes no modelo partidário da democracia norte-americana. Que mais irá então desabar, pergunta-se agora o mundo? E qual o papel de todos e cada um neste contexto? Pode uma Europa enfraquecida pelo seu recente alinhamento com os EUA recuperar fôlego e credibilidade na arena internacional? Terá meios? Individualidades políticas à altura? Quo vadis America? Quo vadimus mundus?...
Gabriel Rafael Guerra
publicado por quadratura do círculo às 13:34
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