Quarta-feira, 9 de Junho de 2004

Gabriel Rafael Guerra - Futuro do Iraque

Concluiu-se esta semana no campo diplomático um acordo franco-americano que
permitiu desbloquear no Conselho de Segurança a aprovação de uma nova
resolução da ONU sobre o Iraque. O comunicado emitido pelo MNE francês sobre
o mesmo é, no entanto, vago quanto aos pontos eventualmente acordados que
provocaram uma mudança ou nova inflexão na posição francesa. A reacção
reservada da Rússia parece também indiciar que este acordo, não tendo sido
por ela objecto de real constestação ou entrave no CS, tão pouco inclui
qualquer menção a qualquer cedência ou contrapartidas acordadas. Sendo
assim anuncia-se, de facto, um novo capítulo no Iraque. Este 3º (ou 4º)
capítulo será decisivo no desenho geoestratégico político que terá o
Iraque no seu pós-guerra (ou pós-ocupação).
Dois factores essenciais, de mesma natureza (mas opostos entre si) parecem ter
sido decisivos para a abertura deste capítulo final: 1º) Uma mudança, senão
radical, substancial, de tom não na Administração Norte-Americana em si,
mas na atitude do próprio Presidente Bush que, agora sob forte contestação
interna, e em vista a não comprometer irreversivelmente a sua reeleição,
inverteu os valores discursivos em que assentavam a sua campanha no Iraque. As
palavras «invasão» e «ocupação» substituiram-se (como mea culpa) às
palavras
"libertação" ou "prevenção" (uma das palavras-chaves da doutrina do «think
tank») no próprio discurso americano. 2º) Um abrandamento (táctico)
correspondente dos grupos de resistência e um consequente realinhamento
interno de todas as posições nos vários xadrezes (políticos, religiosos,
económicos, militares).
A visita do Presidente Bush ao Vaticano, o seu semblante visivelmente abatido,
uma certa apatia (em directo) face aos jornalistas no ("não") reconhecimento
dos
erros da sua Administração indicam o assumir tácito de uma derrota
moral (profunda). Tal parece ter sido o fundo político da sua digressão
europeia: transmitir o sinal que o «Presidente quer agora sair do Iraque e
ainda ileso se possível». Doravante, será a sua Administração (e sobretudo
ela) a tomar conta (em exclusivo) do assunto. O contraste de atitude entre
ambos (Presidente e Administração) é disso a prova, senão gritante
totalmente evidente.
Dito isto, e face à equação iraquiana (com três indeterminantes, curdos,
xiitas, sunitas) surgem agora vários cenários possíveis, no entanto, todos
eles
inquietantes. Das duas, uma: ou haverá, dado a precaridade temporal e
estrutural da situação criada, uma natural tendência em copiar algum (ou
vários) modelo(s) já existentes - e convém saber quais são -, ou surgirá
de todo este complexo um novo híbrido. Podemos dividir em três grandes grupos
tais modelos: 1º) O que se poderá apelidar de "libanização" do Iraque, ou
seja, o da gestão/erosão em lume brando dos vários interesses em conflito
(interno) através de uma guerra civil de média/baixa intensidade que
permitirá traçar e delinear a verdadeira correlação de forças internas no
mapa, "libertar" (pela negativa) as tensões, e criar depois uma base (mais ou
menos) "sólida" (ou "pacificada") para uma reconciliação (ou separação)
definitiva (dos três grupos entre si). 2º) A "kuwaitização" do Iraque - a
solução que mais agradaria aos EUA (mas já pouco provável, pois implicaria
um reforço, naquela área, da presença americana a nível militar; algo que
parece ter sido já «jeoperdized» pela falta de visão estratégica da
Administração Bush) -, e que tornaria o Iraque um país (exclusivamente)
votado para a produção petrolífera, formando, em torno da Arábia Saudita,
uma espécie de super-potência petrolífera mundial. 3º) a "iranização" do
Iraque - a solução mais temida pelo Ocidente -, e que tornaria o Iraque mais
um polo de um (ou de vários) fundamentalismo(s). Estes três "cenários" são
os mais prováveis, aqueles que sobre os quais, pela proximidade geográfica (e
cultural), os analistas mais tecem considerações futuras.
No entanto, nenhum destes três cenários contempla a hipótese das urnas (o de
uma consulta regulada, e, sobretudo, regular); ou seja, o cenário
democrático. Para tal, teriam que ser considerados dois outros modelos (já "
testados" em países árabes ou muçulmanos): 1º) O modelo argelino (que a
França quererá "exportar") ou paquistanês, onde o Exército controla com
mão de ferro os aparelhos partidários e são vedados aos grupos
fundamentalistas quaisquer possibilidades (reais) de acesso ao poder; 2º) O
modelo turco ou do Egipto, que integra politicamente de uma forma laica os grupos
religiosos (mais ou menos fundamentalistas), mas por exemplo rejeita qualquer
autonomia interna às suas minorias (e aqui a questão curda torna-se
delicada). No entanto, tanto a Turquia como o Egipto têm atrás de si uma longa
e sólida história (moderna) democrática (e republicana) e personalidades
com a da dimensão de Nasser são hoje uma miragem.
Sendo assim, a resolução aprovada no ONU legitimará internacionalmente uma
transição, é certo (desejada, hoje, mais por quem dela menos precisa - EUA),
mas não bastará. A comunidade internacional tem uma grande dívida em
relação ao povo iraquiano que deverá honrar como deve ser se quiser merecer
o seu respeito e tal custeando integralmente a sua reconstrução. No entanto,
é com muito cepticismo que se aguardam os próximos desenvolvimentos.
Que a lição do Iraque sirva definitivamente, também, para pôr fim a todos os
aventureirismos e miragens militarísticas (passe o neologismo) produzidos nos
laboratórios da incultura política (americana e não só). A força inculta e
bruta é de má memória, volvidos que estão 60 anos sobre a sua derrota.
Gabriel Rafael Guerra
publicado por quadratura do círculo às 15:25
link do post | comentar | favorito
|

.pesquisar

 

.Fevereiro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28


.posts recentes

. Carlos Andrade - Suspensã...

. Carlos Andrade - Suspensã...

. Teste

. João Brito Sousa - Futecr...

. Fernanda Valente - Mensag...

. António Carvalho - Mensag...

. João G. Gonçalves - Futec...

. J. Leite de Sá - Integraç...

. J. L. Viana da Silva - De...

. António Carvalho - Camara...

.arquivos

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds