Segunda-feira, 7 de Junho de 2004

Luís Leonardo - Cultura do Insulto

“Eu rio-me nos funerais e choro nas festas
E encontro um gosto suave no vinho mais amargo;
Com frequência tomo os factos por mentiras
E, de olhos postos no céu, caio em buracos.
Mas a voz consola-me e diz-me: «Guarda os teus sonhos;
Os sábios não os têm tão belos como os loucos.”
Baudelaire, La voix

Parece-me a mim que a quadratura com os ângulos que lhe são próprios está a
ficar mais circular, perdendo os contornos mais agressivos que a torna mais
habitável, mais aconchegada, mais envolvente, mais perfeita. Sabe-se lá se
não será por mor dos muitos insultos grosseiros com que, reciprocamente, se
mimam os adversários políticos que, como todos os maus artistas carregam nas
tintas onde não devem, aumentam decibéis e luzes que ocultem o vazio da sua
arte. É tudo gente que tem pressa, que lhe interessa o imediatamente útil,
que não tem tempo a perder, que prefere ganhar mal do que perder bem (pressa
de chegar a secretário, a ministro, a deputado, ao governo, a Bruxelas); é
uma luta pela vida (ou pela vidinha) que não pela cultura. E a pressa dá no
que dá: para quê a negociação, a diplomacia, a persuasão se podemos vencer
pela espada? Mas num mundo em aceleração quem tem paciência para esperar?
Não são apenas os frangos que crescem depressa. Os pais ( que estão bem/mal
mal na vida) têm pressa que os filhos aprendam tudo e, por isso, é ver a
quantidade de coisas que estas crianças têm que aprender! (ir à música, ao
ballett, à natação…). E o maior dos perigos é começar a levar a sério a vida
demasiado cedo.
Regressando aos insultos dos nossos políticos eles traduzem a sua incultura,
a sua necessidade de strip-tease que à força de se desnudarem a si e aos
outros nos oferecem um espectáculo intensamente pornográfico. A cultura só
existe quando tem alguma coisa para se esconder e o diálogo só existe quando
se acredita poder mostrar alguma coisa ao outro. Neste jogo de
ocultação/desocultação se joga a nossa humanidade. A forma de aprender este
jogo - brincar. Ora, a linguagem é a instância, por excelência, da cultura
enquanto adaptação ao mundo. Por isso, a nossa relação com a realidade é
indirecta, tacteante, hesitante, aproximativa, retórica, cosmética, uma
espécie de sedução amorosa. Deste modo, o que insulta revela-se na sua nudez
bestial dos instintos primários tão necessários à vida na selva.
É tempo de nos volvermos à cultura e, de um modo especial, os políticos pela
sua especial responsabilidade nos nossos destinos. Sigam o conselho de
Pacheco Pereira (que pena este homem metido na política, digo-o muito a
sério)! Olhem para o céu! Foi a olhar para o céu que o homem descobriu a
terra! A sério ainda, que não conheço nenhuma frase tão emblemática no
avanço da cultura e do conhecimento como esta. É verdade que Tales caiu num
poço por andar a olhar para o céu e que a sua criada trácia se riu a
bandeiras despregadas da distracção do filósofo. Mas, entre outros
espécimes, o mundo é mesmo assim: feito de filósofos e de criadas – quando
aqueles pedem para olhar os céus, estas perguntam onde estão as cartas da
astróloga Maia (assim se chama?).
Luís Leonardo
publicado por quadratura do círculo às 19:00
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