Segunda-feira, 3 de Maio de 2004

Gabriel Rafael Guerra - Ex-combatentes

O CDS-PP conseguiu impôr uma das suas promessas eleitorais indo
fazer beneficiar mais de um milhão de pessoas ex-combatentes com uma verba
global de 700 milhões de euros a ser repartida por 15 anos (vide artigo do DN
de 26 de Abril).
Passados 30 anos sobre o derrube do regime militarista e fascista, o regime
democrático vem assumir, portanto, a responsabilidade do Estado Português em
indemnizar aqueles cidadãos que combateram na Guerra Colonial, isto, claro, a
favor do antigo regime. Sendo militares em exercício fora do território
nacional "continental" combatiam em África os movimentos de resistência, ou
seja, em última instância, qualquer cidadão que activamente (militarmente, e
não só) lutava pelo direito à independência e soberania dos territórios
colonizados. Esta soberania, negada pelo Estado Português de então, era, no
entanto, já reconhecida pela ONU, e, muito curiosamente, eram apelidados
(relembre-se) tais movimentos e pessoas (também) de «Terroristas».
A guerra é a maior calamidade que a humanidade pode enfrentar, mas não o é
só (!) para o agressor, como, sobretudo, para o agredido.
Sendo assim, há duas questões preocupantes que deixam perplexos qualquer
observador isento (e/ou externo):
1º) Por que razão o regime democrático não se preocupa primeiro em
indemnizar as vítimas da guerra colonial perpetuada pelo antigo regime?
Relembre-se, neste contexto, a polémica que envolve o Japão e a Coreia do
Sul (e, claro, a China), negando-se ainda o primeiro, contra a sua própria
opinião pública (e a opinião pública mundial) a indemnizar as vítimas das
atrocidades sem fim cometidas pelo (também) regime militarista e fascista
japonês.
2º) As vítimas da guerra colonial, hoje, cidadãos de pleno direito nos seus
respectivos países, eram, no entanto, à data da guerra, cidadãos portugueses
de pleno direito, tendo assim o Estado Português obrigações,
responsabilidades e contas a prestar (de facto) perante tais pessoas.
Que os valores da Liberdade e da Independência não tenham qualquer preço, ou
não
possam ser quantificáveis, entende-se; que estes sejam (de facto) a maior
recompensa para quem deu a sua vida (e a dos seus familiares) em prol dos
mesmos, sabemo-lo, e todos o deveriam homenagear, no entanto, se o Estado
Português quer compensar as vítimas da guerra colonial (e todas, o que é
justo), então, é (deveras) infame que sejam os agressores e não os agredidos
os primeiros a serem contemplados, como aliás (também) ingrato que sejam os
cidadãos (aqueles "portugueses") que recusaram a ignominia da guerra, e por
isso foram torturados, exilados, perseguidos, ostracizados pelo antigo regime a
serem preteridos sobre os outros.
A haver indemnizados, constitui uma grande imoralidade esta inversão
de prioridades, e, a não haver sequer no horizonte discursivo da Polis
qualquer reflexão sobre esta imoralidade, de facto desonroso (senão
vergonhoso) este esquecimento.
Gabriel Rafael Guerra
publicado por quadratura do círculo às 18:22
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