Quinta-feira, 29 de Abril de 2004

Luís Leonardo - "Impasses" ou apologia da guerra (II)

“É sobretudo o ódio de partido
Que ao extremo horror as coisas leva”
Goethe

Vimos como as acusações que aos outros (todos os que não estão de acordo com
eles) fazem lhes assentam por inteiro. E correram a esgrimir argumentos em
defesa do “Eixo do Bem” quando a procissão ainda ia no adro e a paixão (ou o
entusiasmo) a todos turvava o olhar. A eles também. Por isso a páginas 68 e
69 inventam os argumentos “gambuzinos”da Jerusalém celeste e da caixa de
Pandora e projectam o solipsismo de que são vítimas nos que eles acusam de
não aprender com os factos apelidando-os de obscenos. Mais uma vez, deveriam
tomar para si o conselho dado a outrem: “A prudência nunca fez mal a
ninguém”, porque se queriam provar a razão argumentando com a forma positiva
como segundo eles a campanha militar tinha corrido, com o contentamento e
entusiasmo dos iraquianos expresso nas manifestações que”foram tudo menos
irrelevantes”, aí têm a realidade presente, que como aos “outros” nada lhes
ensinará. Com que seriedade são convocados Platão, Locke, Leibniz, Diderot ,
Hume e Kant como testemunhas abonatórias de um entusiasmo positivo, de que
se arrogam os autores e dos que partilham as suas teses a favor da guerra?
Pelo que conheço de Kant –preconizador de uma ordem de direito
internacional, acima das nações, o Kant da ‘Paz Perpétua’ – não iria ficar
nada satisfeito.
Como dizem os autores “O problema com as soluções verbais é de uma
simplicidade desarmante: é que não são soluções”e eles que criticam os
dualismos primários inventam de seguida um: entusiasmo positivo (o
deles)/entusiasmo negativo (o dos outros) . E este último, infalivelmente
perigoso, engendra-se no fenómeno da má-fé. Fenómeno sobre que discorrem na
página 82 e seguintes e cuja leitura insistentemente recomendada por J.
Pacheco Pereira,também, na minha modéstia, se me é permitido, igualmente,
recomendo. Não esquecendo que “o homem de má fé mente-se a si mesmo” que
como sabemos é uma afirmação já anteriormente feita por Nietzsche. Mas qual
o objectivo dos autores ao fazerem toda esta análise? Mostrar que os que se
opõem à guerra só podem estar de má fé, que é injusto o que se diz acerca do
presidente Bush e por extensão dos americanos que são ‘além de gordos,
particularmente ignorantes’. Curioso é que na página 64 os prémios Nobel
americanos sirvam para demonstrar a sabedoria dos americanos e uma página a
seguir, depois de argumentar que para se ser presidente dos E.U.A. se tem de
ter “mais do que razoável perspicácia e fortíssimas qualidades de carácter”,
seja desqualificado “um escritor que, passados os oitenta anos, perdeu as
ilusões sobre Fidel Castro”. Há nomes que eles têm medo de pronunciar:
trata-se de José Saramago!
Depois de se terem sentado à mesa de Sartre, dele colhendo a análise
filosófica e psicológica que faz da má-fé, caem-lhe em cima acusando-o de
ser : “um dos mais exímios praticantes” da má fé e vão buscar tudo quanto o
possa tornar odioso como se fosse portador de um vírus letal.
A leitura deste livro pouco adianta, pouco atrasa: aos que forem dos
“nossos”, do “eixo do bem”, presumivelmente, consolidará as suas posições
com resultado idêntico para “os outros”, os “do eixo do mal”. Raios de
linguagem esta, não é? Não é nova. Leia-se “De Praescriptione Hereticorum”
(direito de prescrição contra os herejes) de Tertuliano que outros maniqueus
estão de volta.
Aos que têm dificuldade em distanciar-se (por mor do entusiasmo
incontrolado) aconselha-se a leitura do capítulo X da obra de Konrad Lorenz
– “A agressão – uma história do mal”, porque, estudando o comportamento dos
ratos, compreenderemos desapaixonadamente o comportamento dos homens. Com
uma vantagem: não insultaremos os ratos.
Luís Leonardo
publicado por quadratura do círculo às 13:15
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