Terça-feira, 20 de Abril de 2004

Luís Leonardo - "Impasses" ou apologia da guerra (I)

Como aproveito os períodos livres de actividades profissionais para realizar
leituras, calhou que durante a semana santa li, a conselho publicitado de
José Pacheco Pereira, o livro ‘Impasses’ da autoria de Fernando Gil, Paulo
Tunhas e Danièle Cohn.
Tenho como critério pessoal de que um livro é bom se me faz bem. Entendo que
um livro me faz bem quando difusamente se encontram plasmados sentimentos
que aprovamos nos nossos semelhantes; quando em quem escreve vemos mais um
desejo de aprender do que de ensinar; quando o número das perguntas supera o
número das respostas; quando sentimos como leitores que não nos querem
convencer à força; quando, em questões que dizem respeito a todos se procura
entender aqueles com quem não estamos de acordo.
Li e fiquei desgostoso. Também pelo aconselhante, dada a estima e
consideração que por ele tenho. Nem sequer poderei pensar que se tratou de
um conselho leviano originado numa leitura superficial dada a relevância que
lhe tem dado no Abrupto.
O titulo “Impasses”, sugeria-me o possível esclarecimento sobre questões
essenciais dos nossos dias, se quiséssemos mais filosoficamente da questão
dos ‘Indecindíveis’, mas percorridas uma dezena de páginas começámos a ver
que se tratava sobretudo de uma apologia da administração de Bush. Não
podemos com isto dizer que foi um trabalho encomendado, ou que quiseram com
o título encobrir o verdadeiro objecto e objectivo do livro.
Vejamos algumas citações:
“Sem esquecer que o DI não é garantia automática de virtude, os exemplos de
crimes nele fundados abundam. E também exemplos de farsas.”
E se abolíssemos todas as leis só porque não funcionam a nosso favor?
Mas mais adiante o DI passou de um ente deficiente a um ente inexistente:
«Mas o DI como fantasmaticamente hoje em dia se concebe, nunca, nem mesmo
remotamente, existiu», pg. 65, para concluir, de seguida, que « A ideia segundo
a qual os EUA, “unilateralmente” teriam dado cabo do DI é fantasista para
além de qualquer medida”.
Um pouco mais à frente, depois de se questionar se o voto dos Estados na ONU
devem valer o mesmo, interroga-se e responde: « Mas então qual é que é o
significado do DI da ONU? Limitadíssimo» Para concluir, deste modo, que os
EUA não violaram a lei «porque, pura e simplesmente, não havia grande coisa
a violar».
Segundo a interpretação dos autores, Kant, em muitos aspectos prolonga
Hobbes e « as relações entre Estados sempre foram, e continuam a ser, no
essencial hobbesianas: canhões apontados às fronteiras uns dos outros». É
deplorável o facto, concordo com os autores. Mas tal não pode constituir
argumento, porque nesse caso só nos resta a lei da selva e essa nem para os
fortes é boa.
Sobre as ADM, nunca Platão ou Bergson sonhariam que viessem a ser chamados
ao caso, com desconsideração para Parménides que, como bem sabem os autores,
foi o inaugurador do discurso do ser e do não ser.
E Leibniz também é convocado para provar a justeza da guerra: “ as presunções
passam por provas inteiras provisoriamente, isto é, enquanto o contrário não
é provado”. Eu não sei em que contexto Leibniz faz esta afirmação. Mas
colocado perante o facto em causa como decidiria?
No capítulo ‘Argumentos e entusiasmos’ parece-nos haver mais entusiasmos que
argumentos. Começam por coligir os argumentos dos adversários, fazendo uma
selecção dos mais facilmente rebatíveis em função de uma conclusão que já
preexiste a todo o debate.
Sobre o insulto: quem insulta quem? Como afirmam os autores, “É sempre triste
verificar os sinais de empobrecimento da linguagem na nossa sociedade”. Mesmo
que essa linguagem se envernize, se adorne e citando se adapte e se expresse
em francês ‘Tu commences à m’embêter avec ton Être Suprême”, não deixa de
ser um insulto a Chirac, apesar de não me entusiasmar. Não podemos ser
contra o insulto a Bush e a favor do insulto a Chirac e a outros. Este é o
problema dos autores: Podem sempre ser acusados daquilo que são acusadores.
Alguém que defina ‘intelectual garrido’ à sua maneira e ficam caçados.
Exemplo de um bom argumento: “Quanto à censura feita aos EUA de intervirem
tarde e a más horas durante a Segunda Grande Guerra, o melhor é guardar o
silêncio: há livros, ao dispor de todos, que explicam bem as coisas”
Os autores fazem fatos para outrem que lhes assentam na perfeição, como:
“O ridículo possui uma propriedade particular: diz tudo sobre si mesmo”
Luís Leonardo
publicado por quadratura do círculo às 18:28
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