Terça-feira, 20 de Abril de 2004

José Monteiro - "Paixão" e Iraque

Com o tema “A Paixão”, o filme da temporada sobre Cristo, foi possível uma conversa cordata e civilizada, ou não estivessem a falar de acontecimentos de há dois séculos atrás, aparentemente inócuos hoje para nós.
Como os participantes irão certamente regressar ao tema Iraque, talvez possam abordar o significado da Paixão/Tortura de JC sob um novo ângulo. O que se passa presentemente no Iraque com o seu povo e que teve a sua expressão máxima nos dias, noites e semanas de bombardeamentos sobre as cidades iraquianas há um ano, como uma real e expressiva manifestação da Paixão de Cristo e do Homem que ele passou a representar.
Hoje com os soldados de Bush, ontem com os de Sadam (sobre os curdos) ou de Sharon (sobre os campos do Líbano).
Se a minha curta experiência de um ataque de morteiros durante a noite, lançado de uma curta distância da minha companhia de cem pára-quedistas instalada sob um arvoredo do norte de Moçambique, ficou para sempre registada pelo sentir de um perigo mortal associado a uma total impotência, minutos que parecem horas, entre a saída da granada e o seu silvo à chegada e explosão nas imediações, que dizer da população de Bagdad. A Bagdad das famílias, das pessoas, homens, mulheres e crianças sujeitas aos silvos e estrondos das bombas e mísseis lançados sobre as suas cabeças. Que absurdo é este que deixa passar os momentos de agir – Ruanda, Curdos, Israel/Palestina – sobre os responsáveis instalados, para agir mais tarde e tarde demais com os efeitos que se sabe? Sujeitar as populações e os povos anónimos a quê senão ao sacrifício de uma Paixão de Cristo? Tanto se fala na dignidade humana - onde ficou a dignidade das populações do Iraque quando Bush não resistiu a descarregar ali a cólera da sua impotência perante Bin Laden e &? Dignidade, creio tê-la vislumbrado nas expressões dos macondes da guerrilha a partir do momento em que passaram a ter uma espingarda para nos combater. Receio que seja isso, algo como alguma dignidade que os miseráveis populares iraquianos tenham encontrado quando se revoltam contra os estrangeiros. Quem no Iraque chamou os americanos? Interessante falar na cobardia da guerrilha ou mesmo do terrorismo (imperdoável no método BL), qual a coragem dos pilotos americanos ou dos seus guerreiros resguardados nos carros de combate e nas suas fortalezas?
O absurdo e a estupidez humana, como comportamentos habituais dos poderes instalados na defesa dos seus proclamados valores, no esquecimento da dignidade e felicidade devidas aos comuns dos mortais. Claro que acabou entretanto a proibição de venda de armas ao Iraque. Agora para defesa interna, em breve para a defesa externa, quanto mais numerosas, sofisticadas e caras, melhor. Uma excelente forma de poder proporcionar meios de destruição maciça a pequenos, jovens e pobres países do antigo terceiro mundo. Para usarem entre eles, naturalmente.
Repete-se o discurso do tribuno Tiberius Gracchus (13 AC), perante a turbulência vinda de uma multidão de escravos: “Os nossos generais incitam-vos a lutar pelos templos e túmulos dos vossos antepassados. É um apelo inútil e enganador. Vocês não têm altares dos vossos pais, não têm túmulos ancestrais, vocês não têm nada. Vós não combateis e não morreis senão para assegurar o luxo e a riqueza dos outros”.
Que diria hoje JC, que se pronunciou sobre as crianças, sobre Ali, o menino do Iraque sem braços?
2004 DC, a Paixão continua, entre nós ou ao nosso lado e bem real.
José Monteiro





publicado por quadratura do círculo às 17:30
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