Segunda-feira, 12 de Abril de 2004

Gabriel Rafael Guerra - Caminhos de Paz

Muita gente ficou estupefacta com a posição do Dr. Mário Soares sobre o
diálogo a ter (ou a diplomacia a haver) com os fundamentalistas radicais.
Há dois registos importantes de críticas sobre tal posição. Uma de desnorte,
outra de apreensão.
O desnorte veio de puro e simplesmente não vir nos manuais do "politicamento
correcto" qualquer referência a esta posição, vinculada que estava a ser por
alguém vindo de um sector moderado e esclarecido da politica internacional (de
que faz parte O Dr. Mário Soares). Este núcleo é, por muito que custe aos
sectores mais belicistas da sociedade internacional, reputado como sábio
(tendo já ajudado, de facto, a regular muitos conflitos). Daí o (duplo)
desnorte.
A apreensão, ela, veio do outro sector, ou seja, daquele que reconhece o
esforço de pacificação dos conflitos como essencial ao mundo complexo e
violento em que a nossa época se vê mergulhada. Este sector via (e ainda vê)
na retaliação (militarmente) musclada ao fundamentalismo um mal menor, mas,
apesar de tudo, incontornável.
Ora, muito estranhamente, mais do que a indignação ou a reprovação, o que
falou mais alto (dos dois quadrantes) foi o silêncio. E um silêncio, que não
pesado, nem depressor, mas, curiosamente: leve (tendo em conta o conteúdo e a
questão). Lufada de ar fresco? Desconcerto?
Talvez tenha, então, o Dr. Mário Soares criado condições para três coisas
que nenhum politico português (até agora) fez ou poderia ter feito
(exceptuando, talvez, o Dr. Freitas do Amaral, com curriculo e prestígio na
politica internacional):
1º) Rompeu, discursivamente, com a lógica (o círculo vicioso) da espiral de
violência (e terror) em que estamos mergulhados, não só mediaticamente e
simbolicamente, como militarmente.
2º) Permitiu que se começasse a escutar e a pensar-se na possiblidade do Outro
ter argumentos e legitimidades politicas que ultrapassam o mero quadro de
representação ocidental do Mesmo, ou seja, que se redefinisse a moldura
intelectiva da avaliação do conflito (ocidentalo-cêntrica). Com isso
sublinhando que não faz sentido, por enquanto, moldar o conflito através de
(tentativas de) endoctrinação ideológica, pró ou contra-democracia, pro ou
contra-fundamentalismo, visto haver, de facto, do outro lado uma agudização e
até uma estratégia bem sucedida de constantes ganhos políticos (de que
ninguém pode já contestar a evidência). Veja-se, como exemplo, como o Iraque
está a passar de um tempo de alívio politico (pós-Saddam) a um de inferno
interno anti-americano e anti-ocidental.
O Dr. Mário Soares conseguiu assim, muito habilmente, criar um quadro
referencial e discursivo que permite, este sim, insuflar algum prestigio e bom
senso para que o modelo democrático, tolerante e universalista, possa ser
considerado como tal (do outro lado). Sem eventuais interlocutores credíveis
não pode nunca haver uma diplomacia de Paz que possa reconquistar terreno e
simpatia junto da grande massa de muçulmanos no mundo árabe.
3º) Conseguiu pôr Portugal no mapa da diplomacia de Paz, e não
(exclusivamente) no da diplomacia de Guerra, salvaguardando assim os interesses
nacionais e alguma da integridade fisica e territorial que daí possa advir aos
nossos cidadãos. Quanto a este último ponto, e num país sem quaisquer
tradições anti-terrorristas, é no mínimo irresponsável que se tenha já comprometido a
integridade territorial, nacional, e sobretudo física, dos cidadãos, sem se
ter primeiro assegurado o mínimo dos mínimos. Portugal não estava preparado,
continua a não o estar, e não o estará num espaço de tempo que se deseja
curto (senão imediato) para a defesa anti-terrorista. Ou seja, entrou-se numa
guerra sem se estar preparada para ela. Guerra, além do mais,
ultra-sofisticada, e da qual nos escapam (logisticamente, para haver
eficiência) muito dos seus contornos. Contornos estes, repita-se e reitere-se,
com uma escala de horror ainda nunca vistos, tanto quanto à sua
imprevisibilidade como à sua dimensão.
É sintomático que nenhum dos sectores que tem obrigações e responsabilidades
perante a Polis tenha assumido sem ambiguidades a verdade desta realidade. Mas
enganaram-se também aqueles que julgavam que a opinião pública era uma
entidade amorfa, sujeita a fáceis manipulações ou intoxicações ideológicas, e que, sobretudo, não era capaz de ver para além da cortina de
fumo das meias-verdades e das meias-ocultações.
O capital de simpatia que a prática diplomática de Portugal, face aos paises
árabes, o seu cunho pacifista e universalista, que emergiu do 25 de Abril,
está, hoje, a ser dilapidado sem que se perceba qual a vantagem real ou
contrapartida que daí possa advir.
Se a "operação-Citigoup" é o prémio, ele é bem magro. Face ao futuro
desconhece-se quais os possíveis benefícios. Quanto ao momento presente,
apresenta-se grave; e o discurso e posturas vigentes ao arrepio do bom senso
(exigidas que deveriam ser alguma contenção e bastante prudência).
Gabriel Rafael Guerra
publicado por quadratura do círculo às 18:15
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