Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2004

Maria Teresa Carvalho - Guerra no Iraque

Ouvi e vi o vosso debate na SIC Notícias, em que a questão da invasão do Iraque pelos EUA e Grã-Bretanha uma vez mais foi chamada à colação, e bem, pois trata-se de uma da mais importantes questões do momento, e que implica certamente, com o futuro de toda a humanidade.
Questão prévia - Desde que a crise do Iraque foi trazida para o plano das urgências fundamentais da comunidade Internacional, dois “factos” (que não o eram) ressaltaram à evidência:
O primeiro, é que se deu como adquirido que existiria um “tandem” de acção entre Saddam e a Al-Quaeda, no sentido de desestabilizar o “ocidente”; o segundo “facto” prende-se com a ideia de que a relação de cumplicidade entre Saddam e Bin Laden, seria um perigo eminente para a humanidade, “rectius” para a civilização judaico-cristã, pois Saddam possuiria meios de destruição maciça, que ele próprio poderia usar ou em parceria com Bin Laden.
Era claro, já na altura, que nem um nem outro facto eram demonstráveis, como ao invés, tudo indicava o contrário ( derrota militar do Iraque com a acção militar “Tempestade no Deserto”, sucessivos anos de inspecções da ONU, destruição há mais de quinze anos do reactor atómico iraquiano por Israel, situação económica trágica do Iraque com a sua ostracização económica internacional, via proibição da venda de petróleo).
Admiro-me pois, com espanto, que José Pacheco Pereira, tenha “embarcado” numa mera jogada de propaganda sem base objectiva de sustentação (a putativa existência de armas de destruição maciça e o desejo de as usar contra o “Ocidente”), ele que será tudo menos ingénuo.
O que de facto estava em causa na altura, não eram as armas de destruição maciça que mirificamente o Saddam teria ou poderia vir a ter.
O que estava em causa era a soma de duas circunstâncias conjunturais que importava resolver, para regular definitivamente o problema estrutural que Saddam efectivamente era, ainda que para esse efeito fosse necessário recorrer à projecção de forças militares:
- A necessidade de dar um combate cerrado ao terrorismo (que tem um “selo” claro e recebe o apoio da generalidade da comunidade islâmica, o que não quer dizer de todos os muçulmanos), ainda que este combate seja longo e doloroso e possa manter-se na agenda da nossa vida quotidiana nos próximos 20 anos ( Bush “dixit”);
- E a necessidade ingente de reintegrar o Iraque na economia internacional.
Espanto-me muito ao verificar que um homem avisado e lido como Pacheco Pereira (dou o devido desconto ao outros dois comentaristas) não tenha compreendido que a questão essencial na possibilidade de invasão do Iraque (como se veio a verificar) não eram as motivações e fundamentos que foram sendo invocados, sobretudo por Bush ( visto que Blair foi mais subtil), mas a necessidade de aproveitar o ambiente de combate ao terrorismo, para pôr termo à situação absolutamente insustentável, imoral a abjecta, que era a de manter 25 milhões de seres humanos (os iraquianos) impossibilitados de poderem beneficiar de mais de 40 mil milhões de dólares/ano de recursos financeiros, resultantes da venda de “crude”.
A reintegração do Iraque na economia internacional, mantendo-se a o regime autocrático de Saddam, implicaria isso sim, um risco seriíssimo para toda a humanidade, por motivos que não importa estar aqui a invocar, mas que ressaltam à evidência.
E é por isso que Blair, ao contrário de Bush, foi bem mais subtil nas suas declarações, quando da invasão do Iraque: ele acentuou que a invasão se justificava para que se “pudesse dar aos nossos filhos e netos, um mundo menos violento e perigoso”.
Acontece que a “legislação internacional” em vigor não dá “hipóteses” ao mundo da civilização dos direitos humanos e da liberdade individual (mas também do petróleo barato -seria imoral esquecer o facto), para impor ao Iraque, via “manu militari”, quiçá, um regime que oferecesse garantias de que os recursos imensos do petróleo iraquiano, seriam afectados ( “alocados”, diz-se horrorosamente agora) para a melhoria do bem-estar dos seus 25 milhões de cidadãos e para a construção de um mundo mais harmonioso, sobretudo em matéria de “diálogo” de “culturas ou civilizações”.
Bush avisou, e bem, que este combate seria longo e difícil, tão longo e difícil quanto será a transformação da actual economia do petróleo numa economia baseada na combustão do hidrogénio.
Calcula-se hoje que este processo de reconversão económica durará aproximadamente 20 anos, exactamente o tempo em que as economias do mundo judaico-cristão terão que conviver com a constante ameaça de “chantagem” do uso da arma petróleo pelos seus principais produtores, os países de onde emerge a essência cultural e histórica da civilização muçulmana, e dos quais um dos mais importantes é o Iraque (onde se situam as segundas maiores reservas do melhor petróleo do mundo e ainda por cima, o mais barato).
Outra questão importante teria sido discutir porque razão alguns países europeus (França e Alemanha) assumiram as posições que assumiram. Diferente foi e é a posição da Rússia.
Tudo o resto, a “história das armas de destruição maciça”, as “cantigas” sobre relatórios de serviços secretos parecem opereta encomendada pelos políticos para justificar aquilo que seria doloroso dizer abertamente e que certamente provocaria a maior onda de histeria contra os netos daqueles miseráveis imigrantes irlandeses que hoje formam a mais vigorosa e pujante sociedade do mundo.
É isso que dói muito certos a certos “aristocratas” europeus: os pobretanas de outros tempos têm melhores universidades, são mais optimistas e construíram nas Américas um mundo fabuloso (ainda que não se aprecie o “american way of life” como é o meu caso). O anti-americanismo não se esgota na inveja “larvar” que sempre existiu na Europa, é claro, mas o esteriótipo explica muita coisa.
Maria Teresa Carvalho


publicado por quadratura do círculo às 17:44
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